sexta-feira, 16 de outubro de 2026

“Silêncio marca arranque do julgamento do caso W52: Empresário e inspetor da PJ recusam falar em tribunal”


Por: José Morais

O julgamento relacionado com o alegado esquema destinado a afastar responsabilidades da estrutura da antiga equipa de ciclismo W52-FC Porto começou esta sexta-feira no Tribunal Local de Felgueiras, ficando marcado pela opção de silêncio dos dois principais arguidos.

O empresário Adriano Quintanilha, de 73 anos, e um inspetor da Polícia Judiciária, de 57 anos, decidiram não prestar declarações na sessão inaugural do processo. O agente policial participou por videoconferência a partir de Timor-Leste, onde se encontra atualmente em funções profissionais, após ter solicitado uma licença sem vencimento.

Os dois arguidos enfrentam acusações relacionadas com a alegada criação de um documento destinado a demonstrar que a direção da Associação Calvário Várzea desconhecia quaisquer práticas de dopagem na antiga formação portista. Além do crime de falsificação de documento, Adriano Quintanilha responde também por coação, enquanto o inspetor da PJ está ainda acusado de favorecimento pessoal.

Segundo a tese do Ministério Público, o plano terá sido concebido após as buscas realizadas em abril de 2022 no âmbito da Operação Prova Limpa. A investigação sustenta que o empresário, receando consequências judiciais e disciplinares decorrentes das suspeitas de dopagem, procurou a colaboração do inspetor, seu amigo de longa data e alegadamente ligado emocionalmente ao projeto desportivo.

De acordo com a acusação, ambos terão promovido a elaboração de um código de conduta que, embora apresentado como documento interno da associação, teria como principal objetivo reforçar a ideia de que os responsáveis da estrutura desconheciam qualquer prática ilícita. O documento foi posteriormente apresentado ao então diretor desportivo, Nuno Ribeiro, e a vários ciclistas para recolha de assinaturas.

Durante a audiência da manhã, foi ouvida a advogada que representava a Associação Calvário Várzea na época dos factos. A jurista confirmou ter redigido o documento a pedido de Adriano Quintanilha, mas rejeitou qualquer intenção de encobrir responsabilidades ou de construir uma estratégia de defesa para terceiros.

A testemunha explicou que utilizou modelos habituais deste tipo de regulamentos, inspirando-se em normas e orientações da Federação Portuguesa de Ciclismo, do Instituto Português do Desporto e Juventude e da União Ciclista Internacional. Acrescentou ainda não conseguir precisar se a elaboração ocorreu antes ou depois de a Operação Prova Limpa se ter tornado pública.

Já os advogados de defesa contestaram a versão apresentada pela acusação, sustentando que os factos em análise não configuram qualquer ilícito criminal e questionando vários aspetos da investigação realizada.

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