Por: José Morais
O julgamento relacionado com o
alegado esquema destinado a afastar responsabilidades da estrutura da antiga
equipa de ciclismo W52-FC Porto começou esta sexta-feira no Tribunal Local de
Felgueiras, ficando marcado pela opção de silêncio dos dois principais
arguidos.
O empresário Adriano
Quintanilha, de 73 anos, e um inspetor da Polícia Judiciária, de 57 anos,
decidiram não prestar declarações na sessão inaugural do processo. O agente
policial participou por videoconferência a partir de Timor-Leste, onde se
encontra atualmente em funções profissionais, após ter solicitado uma licença
sem vencimento.
Os dois arguidos enfrentam
acusações relacionadas com a alegada criação de um documento destinado a
demonstrar que a direção da Associação Calvário Várzea desconhecia quaisquer
práticas de dopagem na antiga formação portista. Além do crime de falsificação
de documento, Adriano Quintanilha responde também por coação, enquanto o
inspetor da PJ está ainda acusado de favorecimento pessoal.
Segundo a tese do Ministério
Público, o plano terá sido concebido após as buscas realizadas em abril de 2022
no âmbito da Operação Prova Limpa. A investigação sustenta que o empresário,
receando consequências judiciais e disciplinares decorrentes das suspeitas de
dopagem, procurou a colaboração do inspetor, seu amigo de longa data e
alegadamente ligado emocionalmente ao projeto desportivo.
De acordo com a acusação,
ambos terão promovido a elaboração de um código de conduta que, embora
apresentado como documento interno da associação, teria como principal objetivo
reforçar a ideia de que os responsáveis da estrutura desconheciam qualquer prática
ilícita. O documento foi posteriormente apresentado ao então diretor
desportivo, Nuno Ribeiro, e a vários ciclistas para recolha de assinaturas.
Durante a audiência da manhã,
foi ouvida a advogada que representava a Associação Calvário Várzea na época
dos factos. A jurista confirmou ter redigido o documento a pedido de Adriano
Quintanilha, mas rejeitou qualquer intenção de encobrir responsabilidades ou de
construir uma estratégia de defesa para terceiros.
A testemunha explicou que
utilizou modelos habituais deste tipo de regulamentos, inspirando-se em normas
e orientações da Federação Portuguesa de Ciclismo, do Instituto Português do
Desporto e Juventude e da União Ciclista Internacional. Acrescentou ainda não
conseguir precisar se a elaboração ocorreu antes ou depois de a Operação Prova
Limpa se ter tornado pública.
Já os advogados de defesa
contestaram a versão apresentada pela acusação, sustentando que os factos em
análise não configuram qualquer ilícito criminal e questionando vários aspetos
da investigação realizada.

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