Por: Ivan Silva
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Para Bart Wellens, a notícia
de que Eli Iserbyt nunca mais voltará a competir em ciclocrosse soou a mais do
que um anúncio de retirada. Soou errado. Demasiado súbito. Demasiado inacabado.
No seu Crossprofessor, no Het
Nieuwsblad, o antigo campeão do mundo deixou claro que o que mais dói não é
apenas a saída de Iserbyt, mas a forma como foi empurrado para fora. “Este não
é o adeus que o Eli merece”, escreveu Wellens após a notícia de que Iserbyt
nunca mais voltará a competir. “É horrível ter de se despedir da sua paixão
desta forma.”
Para um corredor que moldou
corridas, épocas e rivalidades durante anos, sair em silêncio por uma porta
médica parece, aos olhos de Wellens, profundamente injusto. “Vamos sentir a sua
falta, o Michael Vanthourenhout vai sentir a falta do companheiro. O Eli foi
sempre um corredor que marcava a corrida, alguém que dava pimenta e fogo ao
ciclocrosse.”
É assim que Iserbyt será
lembrado dentro da modalidade. Não só como vencedor, mas como presença
constante na frente, alguém que obrigava os outros a reagir, perseguir e
adaptar-se. Lama, areia, frio cortante ou calor de verão, lá estava ele, semana
após semana, a marcar o ritmo do inverno.
Um
campeão forçado a parar
A carreira de Iserbyt
construiu-se na consistência e agressividade. Das camadas jovens ao escalão
elite, tornou-se um dos nomes definidores da sua geração, somando vitórias de
peso na Taça do Mundo, em provas nacionais e campeonatos. Não era uma estrela intermitente
que brilhou uma vez e desvaneceu. Era uma constante. Isso torna o fim ainda
mais difícil de aceitar.
traumática única, mas um
processo longo e desgastante relacionado com a artéria femoral, o principal
vaso que irriga a perna. Fluxo sanguíneo reduzido, dor sob esforço e perda de
potência tornaram, pouco a pouco, impossível competir. Seguiu-se a cirurgia,
mas o alívio nunca foi pleno.
Wellens liga o caso de Iserbyt
a uma tendência preocupante. “Depois da Laura Verdonschot, o Eli é já o segundo
corredor que perdemos esta época após uma operação à artéria femoral. E isso
faz-me levantar questões.”
Para Wellens, o problema não é
apenas o aumento de lesões, mas a frequência com que uma cirurgia específica
aparece. “Esse procedimento estará mesmo perfeito? Tornou-se um pouco uma moda.
Na verdade, não quero dizer muito porque também não sei tudo sobre o assunto.”
O que sabe é que Iserbyt já
sofria muito antes da decisão final. “O que sei é que na época passada o Eli já
andava com dores, mas os resultados dele não eram assim tão maus.”
Essa frase é reveladora.
Iserbyt não se estava a apagar lentamente. Mesmo a sofrer, continuava
competitivo, relevante, dentro da história. O fim não chegou porque o nível
baixou. Chegou porque o corpo já não podia suportar, com segurança, o que a
cabeça ainda queria fazer.
Um adeus
que nunca aconteceu
Na maioria das carreiras, há
uma última época, uma volta de despedida, um último aplauso. Iserbyt não teve
isso. Não houve tournée de despedida pelos traçados lamacentos, nem
oportunidade para os adeptos perceberem que o viam pela última vez. Em vez disso,
houve um veredicto médico, uma porta fechada e silêncio onde antes havia ruído.
É por isso que as palavras de
Wellens cortam tão fundo. Não se trata de medalhas ou números. É uma questão de
dignidade.
Para um corredor que deu tanto
de si ao ciclismo, que definiu corridas e rivalidades durante anos, ser forçado
a parar por uma artéria que não sarou é brutalmente injusto. O adeus nunca
aconteceu. E, para muitos no ciclocrosse, é isso que mais dói.


