Por: Miguel Marques
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
A 6ª etapa da Volta a Espanha
2025 trouxe todos os ingredientes de uma grande volta: fuga bem-sucedida,
mudança de liderança e a implosão de uma das jovens estrelas do pelotão. Jay
Vine (UAE Team Emirates - XRG) confirmou o estatuto de especialista da corrida
ao vencer isolado em Andorra, enquanto Torstein Træen herdou a camisola
vermelha. Atrás, Jonas Vingegaard mostrou serenidade, João Almeida confirmou a
sua consistência e Juan Ayuso sofreu um colapso inesperado. Johan Bruyneel e
Spencer Martin analisaram a etapa no podcast The Move, deixando várias
reflexões sobre o rumo da corrida.
A fuga e
o triunfo inevitável de Vine
Desde cedo, Vine demonstrou
ser o homem mais forte da fuga. "Sim, era óbvio que Jay Vine ia ganhar
esta etapa desde os 10 minutos da fuga", confessou um ciclista aos
comentadores. Martin destacou a forma como o australiano voltou a vencer com assinatura
própria: "Ele simplesmente, de uma forma impressionante, deixa toda a
gente para trás e foge ao estilo clássico de Jay Vine".
Para Bruyneel, o plano parecia
calculado: "Havia obviamente uma razão para ele ter perdido tanto tempo
nas primeiras etapas. Diria que provavelmente de propósito... Ele estava muito,
muito longe na classificação geral. Por isso, o plano era mesmo esse, ir para
as fugas. Resultou bem. Quer dizer, a Vuelta é a corrida dele. É aqui que ele
ganha etapas".
A vitória reforça o estatuto
de Vine como caçador de etapas de montanha na Vuelta. "É a terceira
vitória dele na Vuelta", recordou Martin. "Duas em três etapas em
2022, e depois ele caiu depois".
Træen de
vermelho, símbolo de resiliência
O segundo lugar deu a Torstein
Træen a liderança da geral, numa história inspiradora. "É uma grande
recompensa para ele... Na verdade, é um doente de cancro nos testículos em
recuperação. Vê-lo agora na liderança de uma grande volta é simplesmente fantástico",
destacou Bruyneel.
Martin acrescentou: "Ele
estava a conseguir estes resultados de forma discreta. Ganhou a etapa rainha da
Volta à Suíça no ano passado. E agora está no vermelho na Vuelta. Isso é
fantástico".
Vingegaard
firme, Almeida em crescimento
No grupo dos favoritos,
Vingegaard manteve-se tranquilo. "Na minha opinião, a Visma esteve muito
forte, a equipa mais forte de longe. Jonas esteve fantástico. Nunca esteve sob
pressão. Parecia confortável", avaliou Bruyneel, questionando até se o
dinamarquês não terá sido conservador ao guardar energias para mais tarde.
Já João Almeida voltou a
demonstrar resiliência. "Almeida, à sua maneira, volta a subir",
disse Martin. Bruyneel concordou: "Hoje foi uma grande subida para o
Almeida. Foi a ritmo, dura, mas não muito íngreme. Foi uma subida para o
Almeida e ele esteve bem".
O colapso
e as dúvidas em torno de Ayuso
A manchete do dia acabou por
ser a implosão de Ayuso. Depois de alertar antes da corrida que a sua
preparação não tinha sido ideal, o jovem espanhol confirmou as previsões mais
pessimistas. "Ele não se preparou para esta grande volta como se tinha preparado
para outras grandes voltas. Hoje ficou claro que ele não tem a forma para estar
na frente da Vuelta", afirmou Bruyneel.
Mas a análise foi além da
forma física. "O que eu vejo no Ayuso é que ele tem sempre a mente de um
líder. É tudo sobre ele. Raramente o ouço falar sobre os colegas de equipa ou
sobre a equipa. É sempre sobre o que ele fez, ou o que não fez, e se ele se
sentiu bem, ou se não se sentiu bem", observou Bruyneel.
Martin partilhou a mesma
preocupação: "Perguntaram-lhe: 'É um grande dia para a equipa', e ele
disse: 'Bem, não sei o que aconteceu. Quem é que ganhou? Isso é preocupante
para mim".
Bruyneel foi ainda mais
direto: "Qualquer ciclista de uma equipa, mesmo que seja eliminado,
estaria interessado em saber se o seu colega de equipa ganha. Ele simplesmente
não estava interessado".
Futuro
imediato: gregário ou líder?
O papel de Ayuso daqui para a
frente será uma questão central. "Ele não deve ser, neste momento, o líder
dos Emirates em nenhuma das grandes voltas. Penso que, neste momento, ele deve
concentrar-se nas corridas de uma semana, nas quais é ótimo. Tem qualidades
fantásticas nas corridas de uma semana, mas ainda não é um líder de uma grande
volta", analisou Bruyneel.
Apesar disso, o talento do
espanhol é inegável. "Com 19 anos, entrou na Vuelta e terminou em terceiro
lugar. Isso foi espetacular. Mas não se confirmou desde então. Abandonou o Tour
no ano passado, abandonou o Giro este ano, e agora não vai definitivamente
estar no pódio da Vuelta", recordou o belga.
A solução pode passar por um
papel mais coletivo: "Ele tem agora a oportunidade de mostrar que pode ser
um grande companheiro de equipa. Porque ele não está doente, não está lesionado
e mostrou grande forma ontem no contrarrelógio por equipas. Um Ayuso que está a
80% ainda pode ser muito valioso para a UAE".
Perspetivas
para o resto da Vuelta
Para Martin, o paradoxo da
equipa é curioso: "Esta é a coisa engraçada desta Vuelta. Os Emirates
venceram etapas consecutivas, um dos seus líderes está fora da classificação
geral e toda a gente pensa que são os azarões. Mas estão a ganhar etapas e o
ambiente deve ser fantástico".
Quanto à luta pela geral,
Bruyneel mantém a sua aposta: "Ele é o melhor ciclista desta corrida. É o
melhor trepador desta corrida. Por isso, vou optar por Jonas Vingegaard".
Martin, contudo, vê Almeida
como ameaça séria: "Se pensas que tens uma vantagem sobre alguém como o
João, tens de a pressionar. Porque se esperarmos e ele melhorar, podemos
arrepender-nos".
Nas palavras finais de
Bruyneel: "Está a aquecer lentamente. Não está a ficar sóbrio - é uma
fervura lenta. Mas estou entusiasmado por ver como isto se
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