Por: Miguel Marques
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O brilho da lua‑de‑mel em torno do arranque
perfeito de Remco Evenepoel na Red Bull - BORA - Hansgrohe contrasta com um tom
bem diferente do seu antigo chefe. Numa entrevista frontal e muito pessoal,
Patrick Lefevere não escondeu o que pensa de Ralph Denk nem a forma como se
desenrolou a saída de Evenepoel da Soudal - Quick‑Step.
“Detesto-o. Ignorou as
regras”, disparou Lefevere, ao refletir sobre o que descreveu como uma longa
investida de Denk e da Red Bull que antecedeu a saída de Evenepoel.
Falando no podcast Radio
Peloton, de La Derniere Heure, Lefevere afirmou ter apresentado uma queixa à
Union Cycliste Internationale sobre a abordagem a Evenepoel, invocando uma
regra que exige acordo de todas as partes para que um corredor possa rescindir
contrato. Alegou que as tentativas de Denk para contratar o belga remontam a
2021 e sugeriu que o organismo regulador mostrou relutância em agir.
“A UCI não disse nada porque
tem medo da Red Bull”, disse Lefevere. “Se isto fosse para tribunal, a Red Bull
tem recursos financeiros ilimitados que levariam a UCI à falência”.
São acusações graves, em claro
contraste com a narrativa positiva que envolveu as primeiras semanas de
Evenepoel com as cores da Red Bull. Enquanto o corredor tem destacado o detalhe
meticuloso do novo ambiente e a confiança que ali sente, a versão de Lefevere
desenha um quadro de frustração, contorno de regras e uma mudança de poder no
ciclismo moderno.
Uma
mudança preparada há anos, segundo Lefevere
Lefevere disse que os
problemas começaram muito antes da saída de Evenepoel, garantindo que o
contacto de Denk foi persistente. “Vendi o projeto Remco à Soudal por cinco
anos. E depois, ao fim de três anos, começaram os problemas. O Ralph Denk
ofereceu um contrato ao Remco. E a partir daí, nunca mais parou”.
Fez um paralelismo com o seu
próprio passado, reconhecendo ter estado envolvido numa transferência polémica
com Frank Vandenbroucke nos anos 90, mas sublinhou que não repetiu esse
comportamento desde então. Chegou a referir que recusou contratar Wout van Aert
em 2018 em circunstâncias semelhantes.
“A certa altura, podia ter
levado o Wout van Aert. Disse‑lhe
que era bem‑vindo
se pagasse a indemnização por quebra de contrato, mas ele não o fez”.
Compreende,
mas não aceita
Apesar da irritação, Lefevere
mostrou algum grau de compreensão em relação ao próprio Evenepoel.
“Sim e não”, respondeu quando
questionado se entendia a decisão do corredor. “Percebo que te possas fartar do
teu entorno. E, bom, também percebo que, se és ambicioso, penses que a relva é
mais verde noutro lado. Só espero que não peça para voltar daqui a dois anos”.
Essa frase final carrega
resignação e amargura. E sublinha o quão pessoal esta saga se tornou.
O pano de
fundo de um início perfeito com a Red Bull
Tudo isto acontece depois
Evenepoel desfrutar de uma estreia competitiva imaculada com a Red Bull no
Challenge Mallorca, vencendo o contrarrelógio por equipas antes de somar duas
vitórias a solo nos dias seguintes. Essas exibições foram amplamente elogiadas
como prova de que a mudança rendeu de imediato no plano desportivo.
Mas os comentários de Lefevere
revelam uma história paralela nos bastidores. Uma que mostra como as
transferências no topo do ciclismo são cada vez mais moldadas pelo músculo
financeiro, cortejos prolongados e linhas difusas em torno dos contratos.
Independentemente de as suas
alegações terem peso para lá do seu testemunho, acrescentam uma aresta cortante
ao que, até agora, parecia um capítulo novo, fluido e celebratório para
Evenepoel e a Red Bull.


