Por: Miguel Marques
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O domínio de Tadej Pogacar
parecia consolidado no ciclismo mundial. No entanto, um jovem francês de apenas
19 anos começou recentemente a agitar esse cenário. Chama-se Paul Seixas e já
há quem veja nele o talento capaz de reacender o sonho francês de voltar a
conquistar a Volta a França, algo que não acontece desde 1985, quando Bernard
Hinault triunfou pela última vez na corrida mais importante do ciclismo
mundial. A revista Sábado levou a cabo uma reportagem para conhecer melhor
Seixas, explicando-se também finalmente a sua ascendência portuguesa.
A imprensa internacional não
tem poupado elogios ao jovem corredor. Recentemente, o portal desportivo The
Athletic, atualmente integrado no jornal The New York Times, descreveu-o como a
“A próxima superestrela do ciclismo”. A atenção mediática surge numa altura em
que Seixas começa a acumular resultados de grande impacto no pelotão
internacional.
No Campeonato da Europa de
2025, por exemplo, o francês conquistou a medalha de bronze na prova de
estrada, terminando apenas atrás de Pogačar e do belga Remco Evenepoel.
Desde então, o potencial do
jovem corredor, ao serviço da Decathlon CGA CGM, estrutura que deriva da
histórica AG2R La Mondiale, tem continuado a confirmar-se. A 7 de março deste
ano, na clássica italiana Strade Bianche, Seixas protagonizou uma exibição que
voltou a colocar o seu nome nas manchetes. O francês terminou em segundo lugar,
a exatamente um minuto de Pogacar. O dado ganha ainda mais relevo se tivermos
em conta que o esloveno, vencedor da corrida por quatro vezes, precisou de
estabelecer o recorde de velocidade da prova, já com duas décadas de história,
para conseguir essa margem.
O resultado alimentou a ideia
de que o atual domínio do esloveno nas corridas por etapas pode vir a encontrar
um rival à altura. A comparação com grandes nomes da história do ciclismo surge
inevitavelmente, até porque muitos já discutem a possibilidade de Pogačar um
dia rivalizar com o legado de Eddy Merckx. Ainda assim, o surgimento de Seixas
começa a introduzir um novo elemento na equação.
O francês já tinha dado outros
sinais claros do seu talento. A 28 de fevereiro, na Faun-Ardèche Classic,
venceu de forma categórica, com quase dois minutos de vantagem sobre o segundo
classificado. Nesse dia, subiu uma ascensão de 6,9 quilómetros com 7,2% de
inclinação em 16 minutos e 28 segundos, precisamente o mesmo tempo que Pogacar
registara nessa subida durante os Europeus de 2025.
Seixas construiu a sua
reputação nas categorias jovens, onde venceu várias provas no escalão júnior.
Cresceu inicialmente em Lyon e mais tarde mudou-se para Anse, zona com estradas
mais adequadas para treino. Em 2025, com apenas 18 anos, tornou-se o ciclista
mais jovem de sempre a terminar uma corrida do circuito UCI World Tour entre os
dez primeiros, e logo numa das mais prestigiadas, o Critérium du Dauphiné.
Já em 2026, conquistou a
primeira vitória como profissional na Volta ao Algarve, precisamente na mesma
subida onde Pogacar alcançara o seu primeiro triunfo, a Fóia. Nessa edição da
corrida portuguesa terminou no segundo lugar da classificação geral. No ano
anterior já tinha vencido o Tour de l’Avenir e subido ao pódio dos europeus de
estrada ao lado de Pogacar e Evenepoel.
Há menos de meio ano, o antigo
ciclista francês Thibaut Pinot comentava o fenómeno ao jornal L’Équipe: “O que
o Paul está a fazer é algo excecional. Talvez seja ainda mais forte do que o
Pogacar era com a sua idade”.
O próprio Seixas também não
esconde ambição quando fala do futuro: “O objetivo não é substituir o Pogacar
quando ele sair de cena, é conseguir batê-lo”.
Atualmente ligado a uma equipa
patrocinada pela Decathlon e pela empresa de transporte marítimo CMA CGM até ao
final de 2027, o jovem francês já desperta cobiça no mercado. Circulam rumores
sobre propostas milionárias e sobre o interesse da UAE Team Emirates - XRG, que
poderia tentar juntar Seixas ao próprio Pogacar. Ainda assim, a formação
francesa acredita ter meios financeiros e projeto desportivo suficientes para
manter o talento e construir uma equipa competitiva em torno dele, com o
objetivo de devolver à França o triunfo no Tour.
A origem
portuguesa
A possível ligação de Seixas a
Portugal também tem despertado curiosidade. Diversos relatos na imprensa
referem a existência de ascendência portuguesa na família paterna. O próprio
ciclista abordou o tema numa entrevista à Rádio Raízes, meio de comunicação
francófono.
Mais tarde, em 2024, explicou
a situação numa conversa com a revista britânica Cyclist Magazine: “Há raízes
portuguesas do lado do meu pai. O meu bisavô era de origem portuguesa. Não
sabemos exatamente de onde veio, não há árvore genealógica que permita rastrear
isto, mas estamos a tentar descobrir mais sobre o lado português da família.
Porém, não falo português, de todo”.
Durante a sua participação na
Volta ao Algarve deste ano, reforçou essa ideia em declarações em vídeo: “O pai
do meu avô era provavelmente português”.
As
características
Em termos de perfil, Seixas
identifica claramente o tipo de corredor que pretende ser. “Fundamentalmente,
sou um trepador”, explicou recentemente. “Estou a treinar para ser um
todo-o-terreno neste momento. (...) O contrarrelógio e a montanha são onde me sinto
melhor, portanto vai ser essencial continuar a trabalhar nestes campos”.
Fisicamente, mede 1,86 metros
e pesa pouco mais de 60 quilos, valores semelhantes aos de corredores como
Pogacar ou o português João Almeida, características ideais para enfrentar as
grandes montanhas. Fora da bicicleta, descreve-se como alguém tranquilo.
“Demasiado relaxado em alguns momentos”, admite, reconhecendo que por vezes
comete erros quando tem pressa. “Não é da minha natureza, sou uma pessoa
bastante sossegada e calma”.
Apesar da crescente atenção
mediática e das especulações financeiras, o jovem mantém hábitos simples.
Segundo o The New York Times, desloca-se num Volkswagen Tiguan cinzento usado.
O que vem
a seguir
Nos próximos meses, o
calendário de Seixas inclui várias provas importantes. Entre elas estão a Volta
ao País Basco (6 a 11 de abril), as clássicas belgas La Flèche Wallonne (22 de
abril) e Liege-Bastogne-Liege (26 de abril), onde poderá voltar a medir forças
com Pogacar.
O programa inclui ainda o
Campeonato do Mundo em Montreal. Falta, porém, esclarecer qual será a primeira
grande Volta de três semanas da sua carreira em 2026: o Tour, em julho, ou a
Volta a Espanha, em agosto.
A história mostra que Pogacar,
na estreia numa grande Volta em 2019, terminou em terceiro lugar na Vuelta com
21 anos. Resta agora saber até onde poderá chegar Paul Seixas quando chegar o
seu momento.