domingo, 4 de janeiro de 2026

“Os portugueses no World tour - o ano histórico de 2025 e as linhas mestras para a próxima temporada”


Por: Miguel Marques

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

O ciclismo português vive um dos períodos mais consistentes da sua história recente no World Tour. Longe dos tempos em que a presença nacional ao mais alto nível se resumia a casos isolados, Portugal entra em 2026 com um grupo sólido, diversificado e distribuído por algumas das equipas mais relevantes do pelotão internacional. João Almeida, Nelson Oliveira, Rui Oliveira, Ivo Oliveira, António Morgado e Afonso Eulálio formam um núcleo que cobre quase todos os perfis do ciclismo moderno: candidatos à geral, especialistas em trabalho coletivo, pistards de elite adaptados à estrada e jovens em clara afirmação.

A temporada de 2025 foi histórica, pelos números e pelas sensações. Os atletas portugueses lograram o maior número de vitórias profissionais desde 2009 - 25 - e colocou João Almeida no top 5 do ranking mundial.

 

João Almeida: de coadjuvante de luxo a líder assumido

 

Se houve um português que saiu de 2025 com o estatuto definitivamente consolidado no topo do ciclismo mundial, esse nome foi João Almeida. O corredor da UAE Team Emirates - XRG voltou a demonstrar uma regularidade quase clínica nas provas por etapas, reforçando a imagem de um ciclista capaz de competir ao mais alto nível durante três semanas.

Em 2025, Almeida voltou a ser peça-chave na engrenagem da formação mais dominadora do pelotão. Abriu o ano com dois segundos lugares, na Volta à Comunidade Valenciana e na Volta ao Algarve, corridas onde foi derrotado por Jonas Vingegaard e Santiago Buitrago, respetivamente.

Seguiu para o Paris-Nice, onde tinha contas a ajustar, depois de um 8º e um 11º posto em participações anteriores. A má prestação coletiva no contrarrelógio por equipas aguçou-lhe a fome e no dia seguinte, bateu Jonas Vingegaard com classe em La Loge de Gardes. A comunicação social antecipou o grande duelo até ao fim da corrida, mas o dinamarquês caiu e abandonou no dia seguinte, ao passo que o português perdeu muito tempo numa bordure, adoeceu... Salvou-se um 6º lugar na geral final, o que viria a ser o seu pior resultado em provas por etapas, que concluiu, ao longo do ano.

Abril, maio e junho foram de nota máxima para o "bota lume", com uma prova por etapas conquistada em cada um destes meses. Primeiro a Volta ao País Basco, onde venceu duas etapas e a geral; seguiu-se a Volta à Romandia e aqui foi uma vitória da consistência, não ganhou nenhuma etapa, mas fez top 3 nas três últimas tiradas, incluindo o contrarrelógio final, que lhe garantiu o triunfo. A Volta à Suíça foi a mais desafiante de todas, no primeiro dia cedeu mais de 3 minutos para uma fuga vitoriosa, que incluía nomes como Vauquelin, Alaphilippe ou O'Connor. A remontada fez-se passo a passo, incluindo uma vitória com um solo de 49km, e ficou consumada na cronoescalada final. No total, foram 3 etapas + classificação geral.

A forma era uma das melhores da carreira e era neste contexto que se apresentava na Volta a França, ao lado de Tadej Pogacar. Começou bem, estava entre os melhores e até já tinha lançado o campeão do mundo para uma vitória, mas uma queda na 7ª etapa destruiu o sonho do pódio... viria a abandonar dois dias depois.

Recuperou das lesões e pouco mais de 1 mês depois alinhou na Volta a Espanha, com Jonas Vingegaard como grande rival. Os prognósticos estavam certos e este foi mesmo o duelo que marcou as 3 semanas, Almeida ganhou no mítico Angliru, esteve novamente a um grande nível, mas o antigo bicampeão do Tour foi mais forte e venceu a corrida, com o português a assinar o segundo pódio da carreira em grandes voltas.

Com 69 dias de competição, o desgaste era evidente, mas Almeida ainda foi ao Campeonato da Europa, não alinhou no contrarrelógio e abandonou na prova de estrada, dois dias que em nada beliscam a sua melhor temporada da carreira.

Para 2026, o cenário aponta para uma maior centralidade do português nas Grandes Voltas fora do Tour. O calendário do primeiro terço do ano é quase decalcado de 2025, com Volta à Comunidade Valenciana, Figueira Champions Classic, Volta ao Algarve, Paris-Nice e (a novidade) Volta à Catalunha.

Segue-se um estágio de altitude e o regresso à Volta a Itália, onde tem contas para ajustar, 3 anos depois. O português contará com um compatriota ao seu lado, António Morgado, e deverá ter em Adam Yates o seu braço-direito na alta montanha. Deverá medir forças novamente com Jonas Vingegaard.

Em julho, não haverá Tour, o que o consolida claramente como número 2 da Emirates, atrás de Tadej Pogacar. Regressa em Burgos e fará novamente a Volta a Espanha, onde Primoz Roglic deve ser o principal rival.

 

Nelson Oliveira: a longevidade como arma competitiva

 

 

Aos 36 anos, Nelson Oliveira continua a ser uma das presenças mais fiáveis do ciclismo português no World Tour. A temporada de 2025 voltou a confirmar aquilo que há muito define a sua carreira: consistência, profissionalismo e uma capacidade ímpar de se adaptar às necessidades da equipa. Na Movistar, o português mantém um estatuto híbrido, tanto útil nas longas jornadas de trabalho coletivo como em contextos mais específicos, como o contrarrelógio e o controlo do pelotão.

Os resultados individuais foram modestos, destacando-se apenas 3 top 15 em contrarrelógios - Gran Camiño, Volta ao País Basco e Volta a França (única grande volta que fez) - mas Oliveira vale muito mais que isso e a prova é que renovou até 2027, continuando a correr no World tour até aos 38 anos.

O regresso ao Giro em 2026, já confirmado, representa mais do que uma simples escolha de calendário. É o reconhecimento de um corredor que, mesmo numa fase avançada da carreira, continua a ser visto como peça confiável em corridas de três semanas. O facto de Nelson Oliveira não fechar a porta a uma eventual presença no Tour reflete bem essa realidade: continua a ser opção, não por carência, mas por mérito.

O calendário inicial de 2026 aponta para uma preparação metódica, com provas de um dia e corridas por etapas de uma semana antes do grande objetivo da primavera. Começa no Challenge de Maiorca, segue para a Volta à Comunidade Valenciana, Figueira Champions Classic, Paris-Nice e Volta a Itália, alargando o contingente nacional. A experiência acumulada permite-lhe gerir a forma com precisão, algo que poucos corredores conseguem fazer ao fim de mais de uma década no World Tour.

 

Rui Oliveira: lesões, azares e injustiça

 

Rui Oliveira viveu em 2025 um ano de afirmação silenciosa, mas significativa. Sem o mediatismo de outros compatriotas, o corredor da UAE Team Emirates tem vindo a construir uma carreira sólida, baseada na polivalência e numa leitura de corrida apurada. A sua transição do velódromo para a estrada deixou há muito de ser um processo em curso; Rui é hoje um ciclista plenamente integrado nas dinâmicas do pelotão World Tour.

Em 2025, foi o lançador de Juan Molano e quando teve as suas oportunidades, entregou resultados. Somou 12 top 10, com o mais mediático a ocorrer na Volta à Eslovénia, onde levou de vencida a segunda etapa, mas foi desclassificado por sprint irregular, uma decisão controversa e injusta, que lhe retirou a possibilidade de somar a primeira vitória profissional.

Na Volta à Croácia, por exemplo, só perdeu para um super Paul Magnier. Está a faltar muito pouco para o gaiense concretizar as boas exibições, será 2026 o ano de afirmação?

Por falar na próxima temporada, a perspetiva passa por um reforço desse papel. É um ano muito importante, o último do contrato com a UAE e para já só se conhece o calendário até ao Paris Roubaix. Começa no Challenge de Maiorca, depois virá a Portugal para a Figueira Champions Classic e Volta ao Algarve e desta feita não haverá outra prova por etapas (em 2025 fez o Tirreno, mas abandonou com uma fratura no pulso), mas sim uma preparação pormenorizada para as clássicas do Norte. Tem previsto fazer toda a campanha, com destaque para os dois monumentos - Volta à Flandres e Paris-Roubaix - onde tentará levar Tadej Pogacar à vitória.

 

Ivo Oliveira: o ano em que deixou de haver "quases"

 

As lesões largaram o Ivo, os azares largaram o Ivo e o Ivo conquistou vitórias. Não uma, nem duas, mas quatro vitórias (ora bem!). Tudo começou no Giro d'Abruzzo, onde enganou os sprinters e levou para casa a 2ª etapa, no último dia esteve novamente ao ataque e venceu no mano a mano com o antigo colega de equipa Sjoerd Bax.

Menos de dois meses depois, vingou o irmão Rui e venceu a última etapa da Volta à Eslovénia, qual sprinter, impondo-se na velocidade num grupo de 25 ciclistas. Estas foram provas de prestígio, mas nada como sagrar-se campeão nacional e exibir as cores de Portugal na camisola. O Ivo já tinha experimentado isso em 2023 e fê-lo novamente em 2025, novamente no cenário de sprint a dois, diante de Pedro Silva.

Ainda foi à Vuelta, foi essencial na vitória no contrarrelógio coletivo e alcançou um ilustre top 5 no esforço coletivo, tendo também protegido João Almeida nos terrenos planos e média montanha, passando largos quilómetros na frente do pelotão. O Ivo que tinha tantas quedas a estragarem-lhe as temporadas, não concluiu apenas duas corridas este ano - o mundial de Kigali e o Giro dell'Emilia, corridas onde, naturalmente, desligou depois de cumprir o seu trabalho.

Em 2026, a expectativa passa por uma utilização ainda mais estratégica. A UAE continua a ter profundidade suficiente para distribuir papéis, mas Ivo Oliveira surge como uma solução cada vez mais completa, capaz de responder tanto em terrenos rolantes como em finais mais exigentes. Abre a temporada cedo, no Tour Down Under, faz a Figueira Champions Classic e a Volta ao Algarve, Milão-Turim, Volta à Catalunha, Gran Camiño, Volta à Romandia, Boucles de la Mayenne, Tour Auvergne - Rhone Alpes (antigo Dauphiné) e Volta a Espanha, pela quarta vez na carreira. Um calendário denso, com muitas corridas do World tour e algumas oportunidades para voltar a erguer os braços.

 

António Morgado: entrada de leão e época de aprendizagem

 

Eu prometo que o título em nada nos transporta para o meio futebolístico, mas foi a frase certa para definir o arranque de temporada do caldense. Morgado dificilmente podia pedir um melhor arranque de temporada, ganhou logo no primeiro dia de competição, no Gran Premio Castellón, somou pódios e voltou a vencer na Figueira Champions Classsic, com um solo de 20km.

Nas clássicas sentiu algumas dificuldades, mas fechou a campanha com um pódio na Flèche Brabançonne, menção honrosa para o 24º lugar no Paris-Roubaix, onde terminar, por si só, é um feito estoico.

Só voltou a encontrar boas pernas no campeonato nacional de contrarrelógio, que venceu, pelo segundo ano consecutivo. Seguiram-se 3 top 10 em clássicas, uma delas do worldtour, a ADAC Hamburg Cyclassics, onde foi 7º. Não teve mais lugares de destaque, acusando, eventualmente, algum desgaste, já que começou a temporada em janeiro e terminou-a em outubro, perfazendo 64 dias de competição, sem grandes voltas.

Morgado destacou-se sobretudo pela forma como lê a corrida. Não corre com receio, não espera por permissões tácitas do pelotão e assume riscos quando sente que o momento é favorável. Essa abordagem, cada vez mais valorizada no ciclismo moderno, coloca-o numa posição privilegiada dentro da equipa.

Para 2026, surge um novo desafio, a estreia numa grande volta. Será no Giro, onde já prometeu dar tudo para que o amigo João Almeida saia de Itália com o Troféu Senza Firenze nas mãos. Quanto ao restante calendário, começa novamente por Espanha, neste caso na Clássica Camp de Morvedre. Repetirá presença no Challenge de Maiorca, Figueira Champions Classic e Volta ao Algarve. A partir daqui, surge a grande diferença face a outros anos, não correrá a totalidade da campanha de clássicas, estando apenas prevista a participação na Volta à Flandres. Segue-se a Volta a Itália, tem também programadas a Volta à Áustria, Volta à Alemanha e Volta ao Luxemburgo para a segunda metade do ano.

 

Afonso Eulálio: que entrada a pés juntos no World Tour

 

Afonso Eulálio foi o único estreante português no World tour em 2025 e consolidou-se com massa consistente na 1ª divisão do ciclismo. Ainda mal se falava da temporada e já o ciclista natural da Figueira da Foz estava a brilhar do outro lado do mundo. No Tour Down Under, Austrália, foi 15º e mostrou ao que vinha. Convenceu a Bahrain e os colegas Antonio Tiberi e Damiano Caruso e integrou a equipa para a Volta a Itália, estreando-se em 3 semanas logo na primeira oportunidade.

Em território transalpino, ajudou os seus líderes e o próprio rubricou uma grande exibição na 17ª etapa, onde foi 10º, abandonaria 2 dias depois, ficando a duas etapas de montanha de concluir a sua primeira grande volta. Seguiu-se um longo período de paragem, regressando de energias renovadas para a segunda metade do ano, onde esteve em bom nível na Volta a Burgos e na Volta à Grã-Bretanha, nesta última foi 6º na geral.

Porém, o grande momento do ano surgiu no Campeonato do Mundo, onde, num dos percursos mais duros de sempre, fez top 10, à frente de nomes como Pidcock ou Roglic.

Integrado numa estrutura que aposta no desenvolvimento a médio prazo, Eulálio mostrou capacidade de sofrimento, resistência mental e disponibilidade para o trabalho coletivo. São qualidades essenciais num pelotão cada vez mais especializado e competitivo.

Em 2026, espera-se um salto qualitativo. Não necessariamente em termos de vitórias, elas podem surgir, mas estou muito curioso para ver a sua prestação em classificação gerais. Será o único dos portugueses do worldtour que não passará pelo nosso país, tem um calendário bastante "clean". Abre a época no AlUla Tour, no final de janeiro, manter-se-á pelo Oriente e correrá o UAE Tour, seguindo-se a Strade Bianche, Volta à Catalunha, Liege-Bastogne-Liege e Volta a Itália novamente, desta vez com Santiago Buitrago como chefe de fila. O restante calendário ainda não é conhecido, mas será pouco provável que venha a fazer outra grande volta.

 

Ruben Guerreiro: Um ano delicado que marca o fim do convívio entre os grandes

 

O "cowboy de Pegões" abriu a temporada com sinais animadores, ao ser 11º na Volta ao Omã e 9º na Figueira Champions Classic. Depois, o azar voltou a aparecer, sucederam-se os abandonos e só voltou a estar em destaque em duas clássicas francesas, com 2 top 10. Daí para a frente, esteve longe da discussão, foi preterido dos alinhamentos das grandes voltas e o desfecho de saída da equipa parecia mais ou menos evidente.

O que esperar agora? Ruben Guerreiro tem 31 anos, todos sabemos que tem muita qualidade, mas as lesões estão a estragar-lhe a carreira. Em termos de lugares disponíveis nas equipas, são escassos, mas, curiosamente, a Movistar é uma das equipas que ainda pode inscrever ciclistas, tem 3 vagas. No segundo escalão, há algumas opções, mas as duas equipas principais - Q36.5 e Tudor - já têm o plantel cheio, pelo que estaremos atentos e noticiaremos quando a carreira do português tiver um caminho definido.

 

Menção honrosa: Rui Costa, o legado que permanece

 

A temporada de 2025 marcou o fim da carreira profissional de Rui Costa. Campeão do mundo, vencedor de etapas na Volta a França e na Volta a Espanha e uma das figuras mais marcantes do ciclismo português de sempre, o antigo corredor encerrou o percurso competitivo deixando um legado que transcende resultados.

Rui Costa foi durante mais de uma década a principal referência internacional do ciclismo nacional. Abriu portas, criou precedentes e mostrou que um ciclista português podia vencer ao mais alto nível sem abdicar da sua identidade. O seu impacto sente-se hoje na naturalidade com que se fala de portugueses no World Tour.

A sua saída do pelotão não representa um vazio em 2025, mas sim a passagem de um testemunho. A geração atual corre num contexto que Rui Costa ajudou a construir.

 

2026 como espelho de maturidade coletiva

 

Olhando para o conjunto, o ciclismo português entra em 2026 com maturidade. Há líderes, há executantes, há jovens em crescimento e há veteranos que continuam a ser úteis. Não existe dependência excessiva de um único nome, nem promessas inflacionadas sem base competitiva.

Num pelotão cada vez mais global e exigente, Portugal mantém-se presente, competitivo e relevante. A temporada de 2026 não promete revoluções, mas oferece algo talvez mais valioso: continuidade, solidez e a possibilidade real de novos passos em frente.

Num desporto onde nada é garantido, isso já é uma vitória silenciosa.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/os-portugueses-no-worldtour-o-ano-historico-de-2025-e-as-linhas-mestras-para-a-proxima-temporada

“Balanço da época 2025 | UAE Team Emirates - XRG: época 10/10 para a equipa de Tadej Pogacar e João Almeida?”


Por: Miguel Marques

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

Hoje chegamos à equipa, e ao corredor, de que todos falaram em 2025: a UAE Team Emirates - XRG, casa daquele que é, muito provavelmente, o maior ciclista que já vimos, Tadej Pogacar. Os números contam uma história, mas a forma como foram alcançados conta outra: uma equipa construída para dominar, a executar com precisão, liderada por um corredor que moldou todo o panorama competitivo da modalidade. 2025 não foi apenas um grande ano para a UAE Team Emirates - XRG, foi a continuação do nível extraordinário estabelecido em 2024.

A formação de 2025 foi construída em torno de Tadej Pogacar, o tetracampeão da Volta a França cuja presença permitiu à UAE correr com ambição sem limites. À sua volta estiveram João Almeida, Jhonatan Narváez, Adam Yates, Tim Wellens, Brandon McNulty, Isaac del Toro e um elenco de apoio capaz de ditar corridas, das Clássicas às Grandes Voltas.

A meio da época, a UAE somava 37 vitórias; no final do ano fechou com 97, mais do que qualquer outra equipa conseguiu numa só temporada. Esse registo colocou-os no topo do ranking UCI World Tour com mais de 40 000 pontos, muito acima dos 22 856 da Visma e dos 21 267 da Lidl–Trek.

As figuras de topo mantiveram a consistência, mas gregários, trepadores e oportunistas somaram vitórias que anteriormente lhes escapavam. O equilíbrio do plantel significou que, mesmo nos dias em que Pogacar não estava presente ou não vencia, a equipa muitas vezes estava. A combinação de versatilidade, audácia tática e profundidade transformou o que poderia ter sido uma época normal para uma super-equipa em algo próximo do inédito. Recorde-se: em 2024 venceram duas grandes voltas, dois monumentos e 81 corridas no total. Este ano, subiram ainda mais a fasquia.

 

Clássicas da Primavera

 

A UAE abriu o ano com intenções claras no gravel da Toscana. Na Strade Bianche, Pogacar caiu violentamente a alta velocidade e, ainda assim, afastou-se de Tom Pidcock para vencer a solo em Siena. Foi a primeira grande declaração do ano: mesmo maltratado fisicamente, conseguia superar um pelotão de especialistas. Semanas depois, na Milan-Sanremo, voltou ao pódio, igualou Mathieu van der Poel no Poggio e só cedeu no sprint final. Um dos grandes momentos de 2025, mas Sanremo continua a ser uma das poucas corridas que foge ao esloveno.

O marco seguinte foi a Volta à Flandres, onde Pogacar respondeu ao arranque de Van der Poel no Oude Kwaremont e isolou-se para a sua segunda Ronde. No Paris–Roubaix, na estreia nos paralelos, aguentou com Van der Poel até muito tarde e foi segundo, depois de uma queda no final lhe retirar hipóteses no sprint. Mal podemos esperar pelo reencontro entre Pogacar e Van der Poel na próxima primavera, em Sanremo e nos empedrados.

Nas Ardenas, foi ainda mais inatingível. Na Amstel Gold Race atacou cedo e chegou a um sprint a três com Remco Evenepoel e Mattias Skjelmose, perdendo por milímetros num enorme golpe de teatro para Skjelmose. Dias depois, na La Flèche Wallonne, atacou de forma decisiva no Mur de Huy para a sua segunda vitória ali. Na Liège–Bastogne–Liège desferiu o golpe muito antes de La Redoute e seguiu a solo até à meta. No final de abril somava 2 monumentos, várias clássicas e estava claramente ainda melhor do que em 2024.

Embora as Clássicas da Primavera tenham sido marcadas por Pogacar, o elenco de apoio também contribuiu de forma significativa. As vitórias de início de época de Juan Ayuso na Clássica Faun-Ardèche e no Tirreno–Adriático mostraram a profundidade do talento da UAE. Em praticamente todas as grandes Clássicas, o branco da equipa surgiu na frente, a impor o ritmo e o guião, em vez de reagir. A primavera da UAE definiu-se pela agressividade: ataques de longa distância, rotação implacável e a recusa em deixar rivais moldar a última hora de corrida. Em 2024 foram fortes; em 2025 foram, talvez, omnipresentes.

 

Época de Grandes Voltas

 

As Grandes Voltas ofereceram a lente mais clara para a transformação da UAE, de uma equipa dependente da sua estrela para um bloco preparado para muitos anos de domínio quase total.

A UAE apresentou-se na Volta a Itália sem o campeão em título, Tadej Pogacar, mas mesmo assim perseguiu a geral através de Juan Ayuso e Adam Yates. O avanço chegou cedo: Ayuso venceu a 7ª etapa, em Tagliacozzo, ao bater os companheiros de fuga ao sprint, com Isaac del Toro em segundo.

Seguiu-se uma das fases mais dramáticas da época. Ayuso sofreu com o azar, envolvido em várias quedas, no momento em que o jovem mexicano Isaac del Toro ascendia ao topo. Apelidado por Tadej Pogacar de “O Futuro”, Del Toro vestiu a maglia rosa e venceu a 17ª etapa, afirmando-se como estrela em ascensão. Parecia lançado para a vitória final, mas perdeu-a numa dramática 20ª etapa, quando ele e Richard Carapaz se marcaram e deixaram Simon Yates escapar para vencer pela Visma.

Ainda assim, é revelador do nível de Del Toro, tão jovem, que tenha ficado desiludido com o segundo lugar. Sem dúvida, é um futuro vencedor de grande volta.

 

Volta a França

 

Na Volta a França, o guião regressou ao território familiar e a corrida pertenceu a Tadej Pogacar. Venceu quatro etapas e, na verdade, a geral ficou resolvida antes de verdadeiramente aquecer. Vingegaard nunca pareceu capaz de desafiar Pogacar em momento algum, talvez a primeira vez que o dinamarquês não lhe criou problemas no Tour. Pogacar vestiu de amarelo durante 13 etapas e terminou com o seu quarto título na prova, além da classificação da montanha.

Homens de confiança como Adam Yates, Pavel Sivakov e Tim Wellens ditaram o ritmo quanto bastou, mantendo Pogacar resguardado do caos. Wellens ainda somou uma etapa em fuga, elevando o total da UAE para cinco. O único revés de peso foi a perda de João Almeida, que caiu com violência na etapa 7 e acabaria por abandonar na etapa 9. Sem ele, o comboio de montanha da UAE ficou mais frágil, mas a superioridade de Pogacar anulou qualquer sensação de vulnerabilidade.

Em Paris, a margem de vitória foi inequívoca. A UAE reafirmou o comando absoluto na prova mais prestigiante do calendário, somando ao registo histórico de vitórias de etapa e reforçando a ideia de que Pogačar está isolado no topo do ciclismo moderno.

Sem Pogacar em Espanha, novamente, a Volta a Espanha testou mais a estrutura da UAE do que a sua estrela. João Almeida assumiu a liderança com Ayuso em apoio. O momento decisivo de Almeida surgiu na 13ª etapa, no Alto de l’Angliru, onde atacou e venceu, quebrando o ritmo de Jonas Vingegaard. Essa atuação colocou-o em segundo na geral, posição que manteve ao longo da última semana, cheia de volatilidade. Terminou a 1:16 de Vingegaard e, apesar da desilusão por não vencer, confirmou finalmente que é, por mérito próprio, um dos melhores corredores de classificação geral do mundo.

Ayuso foi, porém, o grande tema da Vuelta. A corrida da equipa ficou ensombrada por um conflito público entre o corredor e a UAE, após o anúncio inesperado, em plena prova, da rescisão antecipada do seu contrato.

Ayuso afirmou ter recebido apenas 30 minutos de aviso antes do comunicado e acusou a equipa de agir como uma “ditadura” e tentar “danificar a sua imagem”. Garantiu existir um acordo para adiar o anúncio até depois da Vuelta, evitando perturbar o moral do grupo ou a dinâmica de corrida.

A calendarização incendiou tensões internas: Ayuso foi criticado pela falta de apoio ao líder João Almeida em subidas-chave, quando este cedeu após o ataque de um rival. Apesar disso, Ayuso ainda venceu duas etapas. Mas poderia ter ajudado Almeida a ganhar?

No cômputo geral, as grandes voltas foram novamente um sucesso. Em Itália apostaram na juventude, em França protegeram o campeão, em Espanha Almeida afirmou-se como homem de geral. Ficam, porém, dois pontos de interrogação: o desperdício de Del Toro no Giro na etapa 20 e a falta de apoio a Almeida na Vuelta enquanto a equipa perseguia vitórias de etapa. Cumpriram o objetivo principal de ganhar o Tour, mas escolhas táticas mais afiadas poderiam, em argumento plausível, tê-los levado a vencer as três grandes voltas.

 

Transferências

 

A atividade de mercado da UAE para 2026 foi surpreendentemente contida para uma equipa que vinha da sua melhor época. Acrescentaram Benoît Cosnefroy, da AG2R, para reforçar as Clássicas, promoveram o jovem espanhol Adrià Pericas e contrataram o norte-americano Kevin Vermaerke da Team Picnic PostNL. Nenhuma aquisição foi de manchete, mas todas terão um papel importante.

A saída mais sonante foi Juan Ayuso, que assinou um contrato longo com a Lidl–Trek. Perder um pódio de grande volta de 22 anos afetaria quase qualquer equipa, mas a UAE mantém Pogacar, Almeida, Yates, Del Toro e uma linha de talento a emergir. E, na verdade, para o balneário, perder Ayuso pode até revelar-se positivo.

 

Veredito final: 9/10

 

A UAE é de longe a equipa mais forte do pelotão, em grande parte graças ao talento sobrenatural de Tadej Pogačar. Mas não chega ao 10/10. Sim, foi extraordinária por qualquer padrão, embora não isenta de dúvidas. Cumpriu o objetivo principal ao recuperar a Volta a França e assinou uma época com um recorde de 97 vitórias, o maior de sempre para uma equipa.

Liderou o ranking WorldTour com margem enorme, incendiou as Clássicas da Primavera e construiu um plantel em crescimento, não em estagnação. Em paralelos, gravilha, alta montanha e contrarrelógio, a UAE ditou o andamento das corridas e obrigou todos os adversários a reagir.

Mas, se 2025 foi uma época quase completa, as duas grandes voltas sem Tadej Pogačar deixaram espaço para escrutínio. No Giro, um plano tático mais sólido para Isaac Del Toro na etapa 20 poderia ter mudado o desfecho. Na Vuelta, João Almeida carregou o piano com distinção, mas a opção da equipa por caçar etapas em momentos-chave, em vez de erguer uma plataforma de geral intransigente, deixou-o ligeiramente exposto. Se a UAE tivesse fechado fileiras em torno dele mais cedo, a diferença para Jonas Vingegaard poderia ter sido menor.

Mesmo com esses reparos, o quadro geral é inequívoco. A UAE definiu o ritmo competitivo da época, moldou as maiores corridas e redefiniu o que é dominar no ciclismo moderno. Com Pogačar no auge e Almeida a consolidar-se como candidato a vencedor de grandes voltas, a equipa não é apenas uma das mais elitistas de sempre na modalidade, é a bitola pela qual todas as outras medem agora as suas ambições.

 

Debate

Fin Major (CyclingUpToDate)

 

Do meu ponto de vista, a época de 2025 da UAE Team Emirates - XRG foi incrível, mesmo sem ser perfeita. A grande lição é o quão à frente Tadej Pogačar parece agora face a Jonas Vingegaard em julho. Depois do Tour, a sensação foi de alargamento, não de redução, da diferença, e torna-se difícil imaginar alguém a travar Pogačar de alcançar a quinta amarela em 2026.

O que mais me entusiasmou, porém, foram os duelos de primavera com Mathieu van der Poel. As batalhas entre ambos em Sanremo, na Ronde e em Roubaix foram, para mim, o auge do ano velocipédico: dois corredores no pico, a empurrarem-se para novos limites. Mal posso esperar por março para que o confronto entre os dois melhores do mundo recomece.

Mas a época não ficou isenta de frustrações. A Vuelta continua a moer-me, porque pareceu que a UAE perdeu o foco no essencial. O João Almeida tinha pernas para ficar muito mais perto de Vingegaard, mas a equipa pareceu mais interessada em caçar vitórias de etapa dispersas do que em comprometer-se a fundo com a sua luta pela geral. Ver a equipa a gastar homens e energia em ataques oportunistas enquanto Almeida precisava de apoio foi desconcertante. Em que é que estariam a pensar ao não darem verdadeiro respaldo ao português?

Ainda assim, apesar desses erros, é claro que a UAE é a equipa mais forte do pelotão mundial, e 2026 promete dar continuidade a essa história.

 

Rúben Silva (CiclismoAtual)

 

Acho que vamos com 10 em 10, porque quem mais poderia merecê-lo? Tadej Pogacar continua a fazer história e a equipa também entrou para a história ao pulverizar o anterior recorde de vitórias de etapa. Qualidade e quantidade por todo o lado. Poderia haver grande discussão, mas a resposta é simples: nenhuma outra equipa chega a este nível e mesmo o que fizeram este ano poderá nunca mais ser igualado no ciclismo.

Pogacar venceu a Volta a França; três monumentos (pódio nos outros dois, mais um feito histórico); Campeonato do Mundo e Campeonato da Europa; Strade Bianche e Dauphiné, que são as melhores provas fora dos monumentos e das Grandes Voltas… Nada a apontar, a sua época foi simplesmente perfeita. Isaac del Toro explodiu, venceu mais do que quase todos este ano e é, francamente, o corredor que parece mais perto de igualar o nível do próprio líder. Um um-dois na Volta a França do próximo ano é bastante possível, diria…

João Almeida venceu 3 das 7 principais corridas por etapas do WorldTour e ainda foi segundo na Volta a Espanha e no Algarve, apenas atrás de Jonas Vingegaard… Juan Ayuso, apesar dos contratempos e da saída abrupta da equipa, fez uma época muito forte, com o Tirreno-Adriático a juntar-se ao seu palmarés, assim como vitórias na Vuelta, Catalunha e outras corridas… Brandon McNulty venceu Montreal, Polónia, Luxemburgo, Cro Race; o que ilustra bem como a equipa dá oportunidades a todos os seus corredores de qualidade, mesmo aos que têm funções de gregário nas Grandes Voltas.

A UAE tem dinheiro, isso facilita. Mas gere muito bem um “cardume de tubarões”, com um número muito alto de dias de competição e a integração entre a equipa de elite e os sub-23, dando oportunidades a quase todos para vencer ao longo do ano. Assim, quando têm de trabalhar para os líderes, fazem-no de boa vontade: não temem ficar sem pontos UCI ou resultados, e já tiveram as suas chances. Funciona bem e é crucial na gestão de uma equipa moderna.

97 vitórias num ano é absurdo e ninguém chegou sequer perto, nem em quantidade nem em qualidade. Corredores como Tim Wellens, Jhonatan Narváez e Florian Vermeersch competem a um nível altíssimo e seriam facilmente líderes noutras equipas na maioria das clássicas, e a UAE continua a apresentar um leque de jovens que podem dar o salto e conquistar ainda mais no futuro.

No capítulo das contratações, a saída de Ayuso representa perda de qualidade, mas a gestão não estará muito preocupada. Não há um grande nome a entrar porque mantiveram todos os outros líderes, e acredito que quase ninguém na equipa está descontente com o seu papel.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/balanco-da-epoca-2025-uae-team-emirates-xrg-epoca-1010-para-a-equipa-de-tadej-pogacar-e-joao-almeida#g-22-24190

"Fez tudo para me afastar" - Vencedor de 9 etapas na Volta a França acredita que o caso de doping que pôs fim à carreira foi orquestrado pela sua equipa”


Por: Miguel Marques

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Djamolidine Abdoujaparov foi um dos sprinters mais icónicos da década de 1990 e também um dos mais vencedores. Tricampeão da camisola verde na Volta a França (e vencedor da classificação por pontos nas outras duas Grandes Voltas), a sua carreira ficou marcada pela maior corrida do mundo, onde somou 9 vitórias, mas também terminou na Grand Boucle, por aquilo que acredita ter sido consequência das ações da sua equipa.

“Se me chamavam isso, é porque o sentiam… Nunca fiz ninguém cair por minha culpa. Nunca fui desleal”, ripostou Abdoujaparov em declarações à Gazzetta dello Sport. O sprinter uzbeque, anteriormente identificado como soviético até ao fim de 1991, era conhecido pelo seu estilo peculiar de sprint, que hoje lhe valeria várias desclassificações, dada a tendência para serpenteares em plena aceleração. Nesse mesmo ano de 91, protagonizou a célebre queda, sozinho, embatendo nas barreiras nos Campos Elísios quando envergava a camisola verde.

“Foram ditas e escritas tantas incorreções, que ainda estão na internet”, contrapõe. “No circuito de Paris–Champs-Élysées, na volta anterior, deixaram a passagem das barreiras aberta, a dos [espectadores]. Tinha sido deslocada mais de um metro, por onde entravam os carros das equipas e da polícia. E eu acertei em cheio”. Na altura, argumentou-se que perdera o controlo da bicicleta após passar por cima de uma lata de Coca-Cola, algo que nega. “A lata de Coca-Cola não teve nada a ver com isso. Vejam bem esse sprint e perceberão”.

Agora com 61 anos, acredita que os sprints no pelotão atual são bastante diferentes e que já ninguém lança a velocidade isolado como ele fazia nos seus anos de sucesso. “Não vejo um sprinter como eu agora, não existe. Fazia tudo sozinho. Mesmo o Cipollini, nessa altura, tinha comboio. Eu nunca tive”.

 

Abdoujaparov acredita que foi sacrificado pela equipa

 

Assinala também as diferenças financeiras no pelotão atual. “Agora, basta vencer uma etapa na Volta a França e podem dar-te um milhão… Esse dinheiro nunca o vi”.

Uma suspensão por doping em 1997 terminou a sua carreira em plena Volta a França, quando corria pela Lotto - Mobistar. Acredita que a razão do teste positivo a clenbuterol esteve na equipa e que foi encenado.

“Tinha um bom contrato, mas um diretor desportivo não me queria, fez tudo para me afastar e deixaram de me pagar”, conta. “Depois, um dia, um massagista deu-me um produto que tomei sem pensar. Testei positivo, mas a equipa soube um dia antes de ser oficial. Estranho”.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/fez-tudo-para-me-afastar-vencedor-de-9-etapas-na-volta-a-franca-acredita-que-o-caso-de-doping-que-pos-fim-a-carreira-foi-orquestrado-pela-sua-equipa

“Orçamentos e salários em alta alargam o fosso no World Tour à medida que os custos disparam rumo a 2026”


Por: Miguel Marques

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Os dados financeiros mais recentes da UCI confirmam uma tendência conhecida. Os orçamentos das equipas continuam a crescer e os salários dos ciclistas sobem em paralelo, ampliando ainda mais a distância entre as maiores estruturas do pelotão e as formações que competem com recursos muito mais limitados.

Embora o World Tour masculino se mantenha oficialmente com 18 equipas, ainda que não sejam as mesmas dos últimos três anos, os cálculos da UCI baseiam-se num grupo de 20 formações. O estudo inclui duas Pro Teams que, pelas regras atuais, têm entrada garantida em todas as provas World Tour, incluindo as Grandes Voltas e as grandes Clássicas. Alargar a amostra pouco altera a tendência de fundo.

Usando a estrutura tradicional de 18 equipas, o orçamento total subiu de 473 milhões de euros em 2023 para 570 milhões em 2025. Para 2026, com 20 equipas incluídas, projeta-se um total combinado de 663 milhões de euros. Isto eleva o orçamento médio por equipa de 31,6 milhões em 2025 para 33,1 milhões em 2026.

Contudo, as médias escondem disparidades internas significativas. Segundo a La Gazzetta dello Sport, a UAE Team Emirates - XRG e a Team Visma | Lease a Bike operam já perto dos 50 milhões de euros, enquanto Lidl Trek, Red Bull Bora hansgrohe e INEOS Grenadiers estarão na ordem dos 45 milhões.

Um padrão semelhante observa-se no World Tour feminino. Os orçamentos totais subiram de 46 milhões de euros em 2023 para 70 milhões distribuídos por 15 equipas em 2025, e deverão crescer novamente para 80 milhões em 2026. Isto apesar do escalão principal feminino encolher de 15 para 14 equipas.

 

Quanto dinheiro gastam as equipas em salários?

 

Os salários continuam a ser a principal rubrica de custo. Os valores da UCI são brutos e distinguem entre ciclistas independentes e contratados, sendo que os empregados representam 43 por cento do pelotão do WorldTour masculino.

Para 2026, o salário médio dos ciclistas independentes é de 654 000 euros, acima dos 636 000 em 2025 e dos 557 000 em 2023. Os contratados recebem em média 384 000 euros, face aos 366 000 do último ano e aos 300 000 de 2023. Muitos independentes residem no Mónaco ou em Andorra e tendem a ser líderes nas suas equipas, o que ajuda a explicar os valores mais elevados.

No topo da escala, os números são obviamente muito superiores. Tadej Pogacar continua a ser o ciclista mais bem pago do pelotão, com um salário estimado em 8 milhões de euros anuais na UAE Team Emirates, excluindo bónus e patrocínios pessoais que terão elevado o rendimento total para cerca de 12 milhões nesta época.

A transferência antecipada de Remco Evenepoel para a Red Bull - BORA - hansgrohe, um ano antes do fim do contrato com a Soudal Quick-Step, está estimada em cerca de 20 milhões de euros, somando cláusula de rescisão e acordo plurianual.

 

Vaughters toma a palavra

 

Estas dinâmicas alimentam preocupações crescentes sobre a estrutura financeira do ciclismo e a sua sustentabilidade. No Domestique Hotseat Podcast, o CEO da EF Education–EasyPost, Jonathan Vaughters, alertou que o ciclismo está a operar a um nível de custos que as receitas não suportam.

“Certamente, o maior aumento de custos no ciclismo são os salários dos ciclistas e depois todo o apoio periférico, ciência do desporto e afins, que gravita à volta disso”.

Vaughters defendeu ainda que o poder de compra das equipas mais ricas acaba por contaminar todo o mercado. “Uma equipa como a UAE… vamos gastar o que for preciso para ganhar tudo. Isso vai, inevitavelmente, extravasar para o resto do mercado. Vai inflacionar tudo”.

Sublinhou também a dependência do ciclismo do patrocínio, um problema antigo. “Estamos a tentar manter todo o navio apenas com patrocínios, porque estas outras fontes de receita não existem”, apontou Vaughters. “Não temos merchandising coletivo. As equipas não recebem nada dos direitos de media”.

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“Tadej Pogacar participa em passeio de homenagem a ciclista italiano falecido”


Por: Miguel Marques

No início do verão, o jovem corredor da Hagens Berman Jayco, Samuele Privitera, faleceu na sequência dos ferimentos sofridos numa queda durante o Giro della Valle d'Aosta. Este sábado realizou-se uma pedalada organizada em homenagem ao italiano e, entre os presentes, esteve Tadej Pogacar.

A iniciativa foi promovida por um colega (de certa forma, pois integra a equipa de elite Team Jayco AlUla), Asbjorn Hellemose, na região da Ligúria, onde ambos treinavam com frequência. Tadej Pogacar marcou presença, residente que é no vizinho Mónaco, e quis prestar tributo ao malogrado corredor.

Privitera tinha 19 anos quando faleceu e era um dos mais promissores sub-23 italianos. A sua morte, em plena disputa da Volta a França, foi mais um trágico lembrete dos riscos inerentes ao ciclismo profissional.


Quanto a Pogacar, mantém-se em casa a preparar a temporada de 2026. Curiosamente, o evento realizou-se a 03/01, no mesmo dia do Superprestige Gullegem. Os organizadores da corrida falaram do contacto com a equipa de Pogacar, mas foram informados de que ele não poderia participar por estar ausente em estágio, o que não correspondeu à realidade. “Acabaram por nos dizer que não, porque Pogacar estaria ausente em estágio. Não encaixava no calendário”. Ainda assim, não seria expectável que o esloveno viajasse até à Bélgica para disputar uma prova de ciclocrosse nesta fase da carreira.

Pogacar seguirá com treino regular até à Strade Bianche, seguindo-se Milan-Sanremo, Volta à Flandres, Paris–Roubaix e Liège–Bastogne–Liège, à procura de vitórias de qualidade. Só na preparação para a Volta a França fará estágio em altitude, não durante a primavera.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/tadej-pogacar-participa-em-passeio-de-homenagem-a-ciclista-italiano-falecido

“Taça do Mundo de Zonhoven | Ceylin del Carmen Alvarado resiste ao caos das quedas e põe fim à série de 13 vitórias de Lucinda Brand”


Por: Pascal Michiels

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A corrida feminina da Taça do Mundo de ciclocrosse da UCI em Zonhoven foi um teste implacável de sobrevivência, com Ceylin del Carmen Alvarado a sair vencedora de um thriller repleto de quedas que apanhou todas as principais favoritas. Num traçado onde o erro era inevitável, Alvarado foi quem melhor leu o risco, defendendo o título na areia e neve de Limburgo.

Desde a reta inaugural, Puck Pieterse incendiou a prova com um arranque feroz, forçando uma seleção imediata. A campeã neerlandesa chegou à Kuil a toda a velocidade, mas a infame taça de areia impôs-se depressa. Pieterse, Lucinda Brand e Alvarado caíram na fase inicial, ditando a tónica para uma tarde em que nenhuma vantagem foi segura.

Pieterse recuperou mais rápido e rodou isolada nas primeiras voltas, abrindo cerca de dez segundos enquanto Brand e Alvarado se reorganizavam atrás. A pressão acabou por pesar e, a meio da terceira volta, Pieterse voltou a escorregar numa curva escorregadia. Brand aproveitou o momento para fechar o espaço, com Alvarado a cavar fundo para reentrar, recolocando a corrida em igualdade após quase vinte minutos de esforço a solo.

A fase decisiva surgiu na quarta volta. Novos deslizes de Pieterse e Alvarado permitiram a Brand assumir o comando, mas Zonhoven não concedeu favores. Brand escorregou numa zona dura e gelada e foi forçada a passar pela zona de assistência, abrindo a janela de oportunidade para Alvarado. A neerlandesa comprometeu-se por completo, cavando um fosso que chegou aos dez segundos à entrada da última volta.

Brand recusou-se a ceder e lutou até regressar à discussão, chegando por instantes à roda de Alvarado. Mais um erro na volta final foi decisivo, deixando Alvarado com caminho livre até à meta. Pieterse, depois de nova queda na derradeira volta, contentou-se com o terceiro lugar.

Para Alvarado, foi a segunda vitória consecutiva na Taça do Mundo em Zonhoven, conquistada a navegar um percurso que castigou cada distração. Para Brand, o segundo lugar marcou um momento significativo, ao terminar uma notável série de 13 vitórias consecutivas e a confirmar quão implacável foi esta edição de Zonhoven.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclocrosse/resultados-taca-do-mundo-de-zonhoven-ceylin-del-carmen-alvarado-resiste-ao-caos-das-quedas-e-poe-fim-a-serie-de-13-vitorias-de-lucinda-brand

“Taça do Mundo de Zonhoven: Mathieu van der Poel domina do início ao fim para somar a 9ª vitória consecutiva, enquanto Thibau Nys sofre queda que lhe custou caro”


Por: Miguel Marques

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A corrida masculina da Taça do Mundo de Ciclocrosse da UCI em Zonhoven decidiu-se praticamente ao tiro de partida, com Mathieu van der Poel a assinar uma exibição implacável de fio a pavio para somar a nona vitória consecutiva. Desde a volta inaugural, o campeão do mundo isolou-se na frente, impondo um ritmo inalcançável na areia traiçoeira e nas curvas geladas.

Van der Poel atacou logo na partida e abriu um fosso em poucos minutos, a fluir pelos primeiros setores técnicos com controlo total. Atrás, Toon Aerts surgiu inicialmente como o rival mais próximo, mas até ele foi rapidamente remetido à gestão de danos, à medida que a vantagem do líder entrava nos dois dígitos.

Com Van der Poel a estabilizar um andamento medido na dianteira, a corrida atrás dele tornou-se cada vez mais instável. Thibau Nys assumiu por momentos a perseguição, mas foi repetidamente obrigado a trajetórias cautelosas nas descidas escorregadias. A sua corrida ficou praticamente comprometida quando perdeu o controlo e embateu com violência nas barreiras, partindo o guiador e praticamente terminando a sua candidatura, um duro golpe para a tarde e para as suas ambições na Taça do Mundo.

Com Nys fora da discussão, a luta pelos restantes lugares do pódio ganhou contornos mais claros. Tibor del Grosso impôs-se como o mais forte dos perseguidores, a ganhar confiança volta a volta e a distanciar gradualmente Emiel Verstrynge. A dupla consolidou a segunda e a terceira posição na aproximação às voltas finais, com Del Grosso a ter até tempo para entreter com um salto arrojado sobre um obstáculo, apesar das condições escorregadias.

Mais atrás, as quedas continuaram a marcar uma corrida implacável. Witse Meeussen caiu com violência na descida do Kuil e ficou momentaneamente combalido, enquanto se desenhava um duelo cerrado pelo quarto lugar. Niels Vandeputte acabou por vencer o sprint pela quarta posição, à frente de Aerts, com Michael Vanthourenhout a terminar em sexto.

Na frente, Van der Poel nunca foi incomodado. Entrou na última volta com uma vantagem confortável e cortou a meta 45 segundos à frente de Del Grosso, completando mais uma exibição imperial num traçado que puniu cada erro e sublinhou a sua atual supremacia na disciplina.

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