Por: José Morais
Paul Seixas continua a
escrever uma das histórias mais impressionantes do ciclismo mundial. O francês
da Decathlon CMA CGM conquistou este sábado a Il Lombardia, aos apenas 20 anos,
tornando-se o mais jovem vencedor da história da clássica italiana e assinando
o primeiro Monumento da sua carreira numa exibição de enorme autoridade.
Num percurso marcado por
ataques constantes e pela seleção natural das montanhas lombardas, Seixas
lançou a ofensiva decisiva a pouco mais de 18 quilómetros da meta. Com uma
aceleração progressiva, mas devastadora, deixou para trás todos os adversários
e seguiu isolado rumo a uma vitória memorável.
Atrás dele, Enric Mas
(Movistar) ainda tentou reduzir a diferença nos quilómetros finais. O espanhol
conseguiu destacar-se de Giulio Ciccone (Lidl-Trek) na perseguição, mas nunca
foi capaz de ameaçar o jovem francês, que cruzou a meta sozinho com 49 segundos
de vantagem. Ciccone fechou o pódio na terceira posição.
Entre os grandes derrotados do
dia estiveram Remco Evenepoel e Isaac Del Toro. O belga da Red Bull perdeu
contacto com os principais candidatos durante as dificuldades montanhosas e
acabou por terminar em quarto lugar, vencendo o sprint do grupo perseguidor. Já
Del Toro, condicionado por problemas físicos num joelho, viu as suas ambições
desaparecerem cedo e cedeu mais de cinco minutos na classificação final.
Corrida
começou sob o sinal do protesto
Antes mesmo do arranque, a
jornada ficou marcada por uma demonstração de solidariedade do pelotão. Os
ciclistas decidiram atrasar a partida durante cinco minutos como forma de
protesto contra falhas nas condições de segurança do ciclismo profissional, numa
homenagem à memória de Finlay Tarling.
Depois do arranque real,
vários ataques animaram os primeiros quilómetros até que se consolidou uma fuga
numerosa de quinze corredores. Com representantes de muitas das principais
equipas, os escapados chegaram a dispor de quase três minutos de vantagem,
enquanto UAE Team Emirates, Red Bull e Decathlon mantinham a situação sob
controlo no pelotão.
À medida que a corrida se
aproximava das montanhas decisivas, Ben O'Connor assumiu o protagonismo entre
os fugitivos, endurecendo a prova e fragmentando o grupo da frente. No entanto,
o destino da corrida já estava a ser preparado entre os favoritos.
UAE
endurece, Seixas sentencia
As primeiras movimentações
sérias entre os candidatos surgiram a cerca de 60 quilómetros da chegada,
quando vários nomes tentaram antecipar a batalha final. Ainda assim, tudo
acabaria por se decidir na subida para Civiglio.
A UAE Team Emirates assumiu o
comando do pelotão com Adam Yates a impor um ritmo esmagador. Foi então que
Paul Seixas lançou o movimento que mudaria por completo a corrida. Primeiro
deixou dificuldades a Evenepoel, pouco depois fez ceder Del Toro e, por fim,
soltou também Tom Pidcock e Giulio Ciccone.
Sem explosões violentas, mas
com uma potência constante e implacável, o francês abriu segundos preciosos em
cada curva e consolidou rapidamente uma vantagem impossível de recuperar.
Quando entrou na derradeira
subida de San Fermo della Battaglia, a corrida estava praticamente decidida.
Seixas aumentou ainda mais a diferença e pedalou sozinho para um dos triunfos
mais marcantes da temporada.
Um feito
para a eternidade
A vitória tem um significado
histórico especial. Depois de cinco triunfos consecutivos de Tadej Pogačar, a
Lombardia volta a conhecer um vencedor diferente. Mais do que isso, Seixas
tornou-se o mais jovem vencedor da história da clássica das folhas caídas,
superando um recorde que resistia desde 1905.
O talento francês torna-se
igualmente o mais jovem vencedor de qualquer Monumento do ciclismo desde 1944,
confirmando o enorme potencial que muitos já lhe apontavam.
Este triunfo fecha uma
temporada extraordinária para Seixas, que já havia brilhado com vitórias na
Flèche Wallonne, na Itzulia Basque Country e na Faun-Ardèche Classic, além de
vários pódios em algumas das mais prestigiadas corridas do calendário internacional.
Aos 20 anos, Paul Seixas
deixou de ser apenas uma promessa. Em Como, diante dos olhos do mundo,
transformou-se definitivamente numa das novas referências do ciclismo mundial.

