Por: José Morais
Remco Evenepoel voltou a
escrever mais um capítulo memorável da sua carreira ao sagrar-se Campeão da
Europa de fundo, completando uma coleção de títulos sem paralelo no ciclismo
internacional. Numa corrida marcada por um acidente, pela recuperação impressionante
e por um sprint decidido nos derradeiros centímetros, o belga encontrou forças
para transformar uma semana difícil numa das vitórias mais emocionantes da sua
trajetória.
O corredor belga parecia
lançado para uma exibição dominadora quando atacou a mais de 30 quilómetros da
meta, mas um deslize numa curva alterou completamente o rumo da corrida. A
queda obrigou-o a uma perseguição intensa para regressar à frente da prova, num
momento que chegou a fazer parecer impossível a luta pela camisola europeia.
Apesar do contratempo,
Evenepoel nunca desistiu. Reorganizou esforços, reencontrou o grupo da frente e
entrou nos quilómetros decisivos acompanhado pelo italiano Giulio Ciccone. No
final, a decisão ficou reservada para um sprint carregado de tensão, resolvido
por uma diferença mínima a favor do belga.
"Durante vários momentos
da corrida pensei que a vitória me estava a escapar. No sprint também tive
dúvidas. Só nos metros finais percebi que ainda tinha uma oportunidade e
consegui passar pela frente mesmo no limite", afirmou, visivelmente emocionado
após cortar a meta.
O campeão destacou ainda o
papel determinante da seleção belga, que controlou a corrida desde cedo e
respondeu de forma exemplar quando tudo parecia comprometido após a sua queda.
"A equipa executou o
plano quase na perfeição. Depois do acidente mantivemos a serenidade e
continuámos a acreditar. Os meus colegas fizeram um trabalho extraordinário
para me recolocar na luta pela vitória", sublinhou.
Uma
resposta à desilusão do Mundial
O triunfo europeu surge poucas
semanas depois da deceção vivida no Campeonato do Mundo, uma prestação que
deixou marcas profundas tanto no corredor como em toda a estrutura da Bélgica.
Evenepoel admitiu que o
desaire foi mais difícil de ultrapassar do que deixou transparecer
publicamente.
"O Mundial deixou-nos
profundamente frustrados. Mentalmente foi um período duro e senti essa pressão
durante vários dias. Esta vitória representa um enorme alívio e demonstra que
conseguimos reagir da melhor forma", confessou.
Com este resultado, o belga
completa um feito raro ao conquistar, ao longo da carreira, títulos de estrada
e de contrarrelógio em Campeonatos do Mundo, Campeonatos da Europa, Campeonatos
Nacionais da Bélgica e Jogos Olímpicos.
"Olho para o que alcancei
e custa acreditar. É uma conquista muito especial e que só foi possível graças
ao trabalho das pessoas que me rodeiam. Esta noite merece uma celebração à
altura."
Selecionador
temeu derrota no final
Também o selecionador belga,
Serge Pauwels, não escondeu o orgulho pelo desempenho da equipa, elogiando a
capacidade de reação após a difícil semana vivida no Mundial.
"Os corredores mostraram
personalidade e espírito de luta. Assumimos a responsabilidade de controlar a
corrida e, durante grande parte do dia, tudo correu conforme tínhamos
planeado", afirmou.
Ainda assim, os instantes
finais foram vividos com enorme nervosismo dentro do carro da seleção.
"Sabíamos que Ciccone era
muito rápido e não tínhamos garantias de que o sprint seria favorável ao Remco.
Quando vimos as imagens da chegada, pareceu-nos impossível perceber quem tinha
vencido. Durante alguns segundos cheguei mesmo a acreditar que tínhamos
perdido", revelou o técnico.
A fotografia da meta, porém,
confirmou aquilo que a Bélgica desejava: Evenepoel tinha resistido a todas as
adversidades para conquistar o único grande título que ainda faltava no seu
impressionante currículo.

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