Por: José Morais
A ambição de conquistar a
cobiçada camisola arco-íris terminou longe dos lugares cimeiros para Wout van
Aert. Numa das edições mais exigentes dos Campeonatos do Mundo dos últimos
anos, o belga apostou tudo numa estratégia agressiva, mas acabou por pagar o
esforço e cruzou a linha de meta apenas na 28.ª posição, a mais de cinco
minutos do novo campeão mundial, Brandon McNulty.
Longe de optar por uma
abordagem conservadora, Van Aert decidiu incendiar a corrida ainda a grande
distância da chegada. Quando faltavam cerca de 90 quilómetros para o final,
integrou um grupo ofensivo que reunia alguns dos nomes mais fortes do pelotão, entre
eles Mathieu van der Poel, Primoz Roglic e Quinn Simmons. Pouco depois, voltou
a assumir riscos, acelerando novamente para aumentar a seleção e endurecer
ainda mais a prova.
A aposta refletiu a dureza
imposta durante toda a jornada e a convicção de que permanecer à espera dos
derradeiros quilómetros poderia significar, ou seja, ficar sem capacidade para
disputar o resultado. No final, contudo, o corredor da Bélgica admitiu que a
intensidade da corrida acabou por superar os seus limites físicos.
Van Aert reconheceu que
começou a perder rendimento várias voltas antes do desfecho e confessou a
frustração por não conseguir responder quando a corrida entrou na sua fase
decisiva. Ainda assim, acredita que tomou as decisões certas perante o cenário
apresentado pelas seleções e pelo ritmo elevado que dominou a competição desde
cedo.
A presença de Van der Poel nos
movimentos ofensivos reforçou igualmente a confiança do belga. Conhecedor da
capacidade do neerlandês para desequilibrar qualquer corrida, Van Aert viu no
rival um aliado natural para provocar uma seleção precoce e tentar desorganizar
o pelotão.
O momento decisivo surgiu,
porém, nas rampas da Côte de la Polytechnique. Foi aí que uma nova investida de
Van der Poel deixou definitivamente para trás vários adversários, incluindo Van
Aert, que não conseguiu responder ao aumento de velocidade e viu escapar o
grupo que viria a discutir as posições mais importantes.
Sem condições para lutar por
um lugar de destaque, o belga assumiu uma nova função dentro da seleção
nacional, colocando-se ao serviço de Remco Evenepoel. O objetivo passou por
ajudar o compatriota a regressar à frente da corrida e manter vivas as esperanças
da Bélgica na luta pelo título mundial.
Apesar desse esforço coletivo,
a corrida acabaria por sorrir a Brandon McNulty. O norte-americano aproveitou
indecisões e falta de entendimento entre os perseguidores para lançar um ataque
solitário que se revelou irresistível, conquistando assim a maior vitória da
sua carreira. Para Van Aert, o triunfo foi merecido e prova o valor de um
corredor respeitado dentro do pelotão internacional, mesmo que não figurasse
entre os favoritos mais apontados.
Já após a meta, e depois de um
dia particularmente desgastante, houve ainda espaço para uma nota de humor.
Questionado sobre as constantes batalhas com Van der Poel e se estas recordavam
os lendários confrontos de inverno no ciclocrosse, Van Aert respondeu de forma
descontraída: no ciclocrosse, pelo menos, tudo termina ao fim de uma hora.
Com a época de estrada
concluída, o belga prepara agora uma mudança de cenário. O regresso ao
ciclocrosse já está traçado nos planos, embora, para já, a prioridade seja
descansar e recuperar de uma campanha longa e exigente antes de voltar aos
circuitos de inverno.

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