Por: José Morais
Foto: UAE
Contra todas as previsões,
Brandon McNulty escreveu uma das páginas mais surpreendentes dos Campeonatos do
Mundo de ciclismo ao conquistar a camisola arco-íris em Montreal, no Canadá. O
norte-americano da UAE Emirates aproveitou a hesitação dos principais
candidatos ao título e lançou um ataque decisivo a cerca de 30 quilómetros da
meta, que ninguém conseguiu neutralizar.
Aos 28 anos, McNulty
protagonizou a maior vitória da sua carreira e devolveu aos Estados Unidos um
título mundial de fundo que escapava ao país há mais de três décadas. A seleção
norte-americana exibiu uma estratégia irrepreensível ao longo dos 273,4 quilómetros
da prova, controlando os momentos decisivos e criando as condições ideais para
que o seu líder pudesse surpreender os favoritos.
No final, emocionado, o novo
campeão mundial admitiu a dimensão da proeza alcançada.
"Sabíamos que tínhamos
argumentos para lutar pelos primeiros lugares, mas para vencer era preciso que
tudo corresse na perfeição. Hoje aconteceu algo especial", confessou.
Apesar de ter sido avistado
pelos perseguidores nos quilómetros finais, McNulty nunca perdeu o controlo da
corrida. Enquanto atrás se multiplicavam os ataques e marcações entre os
grandes nomes do pelotão internacional, o norte-americano manteve a vantagem
suficiente para cruzar a meta isolado e festejar uma conquista que poucos ousavam
prever.
A luta pelas restantes
posições do pódio foi resolvida apenas nos metros finais. O australiano Michael
Matthews garantiu a medalha de prata, protagonizando um regresso notável depois
das graves lesões sofridas no início da temporada, enquanto Mathieu van der
Poel assegurou o bronze e voltou a confirmar a sua impressionante regularidade
nas grandes competições internacionais.
A ausência do bicampeão
mundial Tadej Pogacar deixou a corrida completamente em aberto e transformou a
prova numa batalha táctica permanente. Os ataques sucederam-se durante mais de
noventa quilómetros, com Van der Poel, Primoz Roglic, Thomas Pidcock, Ben
Healy, Isaac del Toro, Giulio Ciccone e Matteo Jorgenson entre os protagonistas
de uma jornada intensa e imprevisível.
O momento decisivo surgiu
quando os perseguidores alcançaram o grupo principal numa fase já avançada da
corrida. Foi então que McNulty aproveitou um breve momento de indecisão para
arrancar sozinho. A vantagem cresceu rapidamente para mais de um minuto e,
apesar das várias tentativas de resposta, os favoritos nunca conseguiram
organizar uma perseguição eficaz.
A corrida terminou com a
consagração de um dos corredores menos apontados à vitória no início do dia,
numa edição dos Mundiais marcada pela coragem, inteligência tática e pelo
trabalho coletivo da equipa norte-americana.
Portugal
Sem Impacto na Discussão da Corrida
A seleção portuguesa viveu uma
jornada particularmente difícil e nunca conseguiu entrar verdadeiramente na
luta pelas posições de destaque.
Afonso Eulálio viu a sua
corrida comprometida logo na fase inicial, devido a uma avaria mecânica que o
deixou afastado do pelotão principal. Impedido de regressar ao grupo da frente,
acabaria por abandonar algumas voltas mais tarde.
Também João Almeida perdeu
contacto com os melhores quando a corrida entrou na sua fase decisiva, apesar
do apoio prestado pelos companheiros de equipa. António Morgado não conseguiu
igualmente acompanhar o ritmo imposto pelos favoritos e ficou afastado das
contas finais.
No desfecho da prova, apenas
Nelson Oliveira e Ivo Oliveira conseguiram concluir a exigente competição. Os
dois portugueses terminaram longe dos lugares cimeiros, refletindo uma
participação nacional discreta numa corrida dominada pelos ataques, pela seleção
natural do percurso e pelo elevado nível competitivo do pelotão internacional.
Enquanto os Estados Unidos
celebravam um triunfo histórico com Brandon McNulty, Portugal encerrava os
Mundiais sem resultados de relevo numa das provas mais espetaculares e
imprevisíveis dos últimos anos.

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