sábado, 14 de fevereiro de 2026

“António Morgado reina na Figueira da Foz e escreve nova página dourada do ciclismo nacional”


Por: José Morais

A Figueira Champions Classic voltou a sorrir a Portugal. Num final eletrizante, empurrado pelo vento atlântico e pelo entusiasmo de milhares de adeptos, António Morgado confirmou o estatuto de homem do momento e conquistou, pelo segundo ano consecutivo, a clássica da Figueira da Foz, batendo o espanhol Alex Aranburu num sprint a dois carregado de tensão.

O triunfo reforçou um dia perfeito para a UAE Team Emirates - XRG, que já tinha celebrado horas antes com Marc Soler a vitória na geral da Volta a Múrcia. Uma dobradinha que sublinha o domínio da formação dos Emirados neste início de temporada.

 

Vento, ataques e um circuito impiedoso

 

A corrida começou com uma fuga tipicamente portuguesa combativa e destemida protagonizada por Rafael Reis, Pedro Pinto, Diogo Narciso, Diogo Pinto e Daniel Viegas. Mas o verdadeiro espetáculo estava guardado para o circuito final: três voltas duríssimas, duas subidas por volta e rajadas de vento que partiram o pelotão em mil pedaços.

Os ataques sucederam-se, primeiro na frente e depois desde o grupo principal, num jogo de xadrez em alta velocidade. A seleção decisiva aconteceu já na última volta, quando um grupo de elite se destacou na subida mais exigente do traçado. Morgado, atento e frio, respondeu sempre presente.

 

Duelo ibérico para a história

 

A cerca de seis quilómetros da meta, Aranburu lançou o primeiro golpe. Morgado respondeu pouco depois, no ponto mais inclinado, isolando-se com o basco. Os dois entenderam-se na frente, mas o português assumiu a maior parte do trabalho, consciente de que o título se decidiria ao milímetro.

No sprint final, Aranburu arrancou primeiro. Morgado, empurrado pela multidão, resistiu, acreditou e voltou a acelerar nos últimos metros, cruzando a meta em apoteose e revalidando o título de forma épica. Pau Martí completou o pódio, enquanto Tomás Contte foi o melhor português do pelotão nacional, em 25.º lugar.

 

Um sinal claro para 2026

 

Com apenas 21 anos, António Morgado não só confirma o seu enorme potencial como deixa um aviso claro ao pelotão internacional: a Figueira da Foz já tem dono e o futuro do ciclismo português passa, cada vez mais, pelas suas pernas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

“Clube de Ciclismo de Tavira revela nova designação para 2026”


Por: Ivan Silva

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A temporada de 2026 marcará um momento determinante na história da formação algarvia. A equipa passa a competir oficialmente com a designação Team Tavira / Crédito Agrícola, numa mudança que simboliza não apenas um novo ciclo institucional, mas também um reforço estratégico para enfrentar os desafios crescentes do ciclismo moderno. A anterior designação, que ao longo dos últimos anos esteve associada a diferentes patrocinadores e projetos regionais, dá agora lugar a um naming que pretende consolidar estabilidade e visão a médio prazo.

Esta nova identidade reforça a ligação entre o emblema de Tavira e o grupo bancário português Crédito Agrícola, que assume um papel central no financiamento e desenvolvimento da estrutura. Num contexto cada vez mais competitivo no escalão Continental, onde as exigências logísticas, técnicas e desportivas aumentam temporada após temporada, a entrada de um parceiro sólido representa um passo essencial para garantir sustentabilidade.

 

Tavira respira ciclismo

 

Fundado em 1979, o Clube de Ciclismo de Tavira é uma das estruturas mais antigas em atividade contínua no pelotão português. Ao longo de mais de quatro décadas, a equipa construiu uma identidade própria, profundamente enraizada na região do Algarve, mas com ambições que sempre ultrapassaram fronteiras locais. A presença habitual nas principais provas do calendário nacional tornou-se uma imagem de marca da formação, assim como a capacidade de revelar e desenvolver talento.

Ao longo da sua história, o projeto de Tavira foi palco de afirmação para diversos ciclistas que encontraram na estrutura algarvia a plataforma ideal para crescer. Num pelotão nacional muitas vezes condicionado por limitações orçamentais, a equipa destacou-se como um verdadeiro viveiro, apostando na formação e na consolidação técnica dos seus corredores. Essa vocação formadora continuará a ser um dos pilares estratégicos na nova fase que se inicia.

Com o naming Team Tavira / Crédito Agrícola, a estrutura procura mais do que uma simples mudança estética. O objetivo passa por assegurar maior robustez financeira, permitindo uma preparação mais estruturada ao longo da temporada, melhor planeamento competitivo e condições logísticas ajustadas às exigências atuais. No ciclismo contemporâneo, onde a evolução tecnológica, a análise de dados e o acompanhamento científico são determinantes, a estabilidade orçamental é um fator crítico.

O apoio do Crédito Agrícola surge assim como uma base essencial para reforçar competitividade. A capacidade de recrutar ciclistas com ambição, investir em equipamento de qualidade e estruturar calendários de competição equilibrados será determinante para que a equipa possa disputar vitórias nas provas nacionais e marcar presença consistente em eventos internacionais do panorama ibérico.

A nova fase mantém, contudo, a matriz identitária que sempre caracterizou a formação algarvia. Tavira continua a ser o epicentro do projeto, preservando a ligação ao território e à comunidade local. Essa relação próxima com a região constitui um elemento diferenciador no pelotão português, onde a identidade geográfica desempenha frequentemente um papel relevante na mobilização de apoios e na construção de imagem.

"Daqui a 10 anos não há gente que queira ser ciclista, nem há ciclistas" Portugal caminha para o abismo”


Por: Ivan Silva

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

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O ciclismo português atravessa um momento de reflexão profunda. Três jovens ciclistas anunciaram recentemente a retirada da modalidade, justificando a decisão com a falta de condições e com um cenário que consideram pouco favorável à continuidade de uma carreira profissional.

As palavras que deixaram, marcadas por frustração e desencanto, não surgem isoladas. Pelo contrário, encaixam num padrão que se tem vindo a acentuar nos últimos anos: nas últimas cinco épocas, 30 corredores com menos de 25 anos abandonaram as equipas continentais portuguesas.

O pelotão nacional, tradicionalmente reconhecido pela sua capacidade de resistência e pela paixão que move os seus protagonistas, tem-se transformado, nas palavras de muitos intervenientes, num verdadeiro ‘cemitério’ de jovens carreiras.

 

Ferreira, Gonçalves e Sousa

 

Hélder Gonçalves, José Sousa e António Ferreira são apenas os exemplos mais recentes de um fenómeno que levanta sérias interrogações sobre o modelo atual. Todos decidiram desistir do sonho profissional, invocando falta de condições, desmotivação e ausência de perspectivas de evolução.

A tendência não é nova, mas tornou-se particularmente visível no final da temporada passada. Hélder Gonçalves, de 25 anos, e José Sousa, de 26, anunciaram com poucos dias de diferença o fim das respetivas carreiras. As publicações que partilharam revelaram desilusão com o rumo do ciclismo português e expuseram um mal-estar que já circulava nos bastidores do pelotão.

Semanas depois, foi a vez de António Ferreira, também de 25 anos, pendurar a bicicleta. O seu abandono acentuou a percepção de que o problema não se trata de casos isolados, mas de um padrão que se repete e que compromete a renovação geracional.

Os números são elucidativos. Nas últimas cinco épocas, três dezenas de ciclistas com menos de 25 anos abandonaram as equipas continentais portuguesas. Alguns deixaram definitivamente o ciclismo, optando por seguir outras carreiras profissionais. Outros mantiveram-se ligados à modalidade, mas em formações amadoras, afastando-se do circuito profissional. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo: o pelotão perde juventude, perde talento e perde potencial de desenvolvimento.

Em declarações à agência Lusa, o agora engenheiro de software não escondeu a tristeza perante esta realidade. Considerou lamentável que corredores “com muita qualidade e jovens que supostamente deveriam estar agora a atingir a maturidade máxima no desporto” tenham decidido acabar a carreira.

“Neste momento, a única coisa que devemos fazer é perceber porque é que os atletas novos desistiram. Há alguns casos que foi mesmo por saturação máxima, mas sei que há atletas, meus colegas, que tinham todo o prazer e gostavam de continuar, mas é impensável. As equipas que estiveram envolvidas nesses processos deviam perceber o que é que deveriam melhorar, se deveriam ter dado mais ou menos condições, o que aconteceu”, defendeu.

As palavras apontam para uma necessidade urgente de introspeção. A decisão de abandonar uma modalidade tão exigente como o ciclismo raramente é tomada de forma leviana. Exige ponderação, implica abdicar de anos de sacrifício e de investimento pessoal, e representa, muitas vezes, o fim de um projeto de vida iniciado na adolescência.

 

Anos de sacrifício para quê?

 

Também ouvido pela Lusa, José Sousa deixou críticas claras à estrutura do ciclismo nacional. Para o antigo ciclista, não basta apontar responsabilidades individuais, é preciso uma análise abrangente que envolva equipas, federação e organizadores.

“Isto também é um mal que não é de agora e que se vai resolver daqui a um ou dois anos. Isto foram erros, na minha opinião, que foram cometidos, que nos trouxeram onde estamos agora”, afirmou. A sua leitura é de que o problema resulta de decisões acumuladas ao longo do tempo, que fragilizaram a base formativa e reduziram as oportunidades para os mais jovens.

José Sousa foi ainda mais direto ao abordar a aposta na juventude. Na sua perspetiva, neste momento, essa aposta é “zero”. E deixou um aviso que soa a alerta estratégico: dentro de 10 anos, “não há gente que queira ser ciclista, nem há ciclistas, nem há matéria-prima para trabalhar”.

O antigo corredor recordou o seu percurso e a evolução das provas de formação para ilustrar a mudança de paradigma. “Em 2018, quando subi a profissional, ainda como sub-23 no Miranda-Mortágua, a Volta a Portugal do Futuro tinha uma dimensão que tem agora, se calhar, uma corrida normal de profissionais. Morreu um bocadinho a Volta a Portugal do Futuro e, depois, […] muitos diretores fazem as equipas [sub-23] para encher os bolsos e não é para formar os miúdos”, denunciou.

As declarações deixam transparecer a percepção de que o ciclismo de formação perdeu protagonismo e qualidade competitiva. Se as provas destinadas a sub-23 deixam de representar um verdadeiro laboratório de desenvolvimento, a transição para o escalão profissional torna-se mais abrupta e menos sustentada.

 

Cândido Barbosa admite precariedade

 

A Federação Portuguesa de Ciclismo acompanha com preocupação esta realidade. Em declarações à Lusa, o presidente Cândido Barbosa admitiu estar “efetivamente” inquieto com “alguma precariedade” na modalidade, “desde logo na formação”.

“Não têm ‘nascido’ novos atletas. Temos a pirâmide demasiado alta, porque temos campeões da Europa, campeões do Mundo e campeões olímpicos, e não temos uma base sustentável”, avaliou o dirigente. A imagem da pirâmide demasiado alta é esclarecedora: o topo apresenta resultados de excelência, mas a base não acompanha o mesmo ritmo de crescimento.

Cândido Barbosa reconheceu ainda que o ciclismo português precisa de se “atualizar”, embora tenha sublinhado que o país está a “exportar ciclistas” para “o mais alto nível como nunca esteve”. Este contraste, entre sucesso internacional e fragilidade interna, evidencia uma dualidade difícil de gerir.

Sobre a vaga de retiradas precoces, o presidente da federação considerou que o fenómeno poderá ter também “a ver um pouco com a geração”. Ainda assim, deixou uma crítica estrutural: “O ciclismo português não está de todo a acompanhar o que é a evolução do ciclismo lá fora. Por isso é que estamos a fazer um trabalho na base”.

O desafio, portanto, não é apenas reter talentos, mas modernizar processos, criar condições de estabilidade e garantir percursos progressivos que permitam aos jovens ciclistas acreditar que vale a pena insistir. O ciclismo é uma modalidade de maturação tardia, onde muitos atletas atingem o pico competitivo depois dos 25 ou 26 anos. Quando jovens abandonam antes dessa fase, o sistema perde investimento e reduz o seu próprio potencial de sucesso futuro.

 

Um alerta que já tem anos

 

A síntese do que aconteceu é clara: três jovens ciclistas decidiram abandonar a modalidade por falta de condições e por desmotivação perante um modelo que consideram pouco sustentável. O que está em causa, porém, vai muito além de casos individuais. Trata-se de um sinal de alerta sobre a formação, o apoio estrutural e a capacidade do ciclismo português em acompanhar a evolução internacional.

Se a aposta na juventude continuar a ser percecionada como “zero”, o risco é real: a médio prazo, o pelotão poderá enfrentar uma escassez de talentos formados internamente. E quando a base enfraquece, todo o edifício competitivo fica ameaçado. O momento exige autocrítica, planeamento e ação concreta. Caso contrário, o ‘cemitério’ de jovens carreiras poderá continuar a crescer, silenciosamente, temporada após temporada.

Ficha Técnica

  • Titulo: Revista Notícias do Pedal
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  • Subdiretor: Helena Ricardo Morais
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