sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

“José Sousa diz adeus ao pelotão aos 26 anos: o retrato de um ciclismo em crise”


Por: José Morais

O ciclismo nacional perde mais um rosto jovem. Aos 26 anos, José Sousa decidiu colocar um ponto final numa carreira profissional que prometia mais tempo e outras conquistas, mas que acabou travada por um conjunto de fatores estruturais, financeiros e emocionais que, segundo o próprio, tornaram impossível continuar.

Depois de oito temporadas no pelotão, o ciclista optou por “encostar a bicicleta” no final de uma época marcada por problemas de saúde e por um calendário competitivo limitado, que lhe retirou margem de negociação para renovar contrato. A decisão, amadurecida ao longo de 2024, foi tornada pública a 29 de novembro, através das redes sociais, num texto onde já se percebia uma rutura profunda com a modalidade.

 

Instabilidade como regra

 

A precariedade dos contratos foi um dos pontos centrais na decisão. No ciclismo português, os vínculos anuais continuam a ser a norma, dificultando qualquer planeamento de vida fora da estrada. Com novas responsabilidades pessoais casamento, casa e contas fixas, Sousa sentiu que a modalidade já não lhe oferecia a mínima segurança financeira.

A situação agravou-se após uma época discreta, que o deixou dependente de propostas consideradas pouco dignas para um atleta profissional. Sem poder negocial e perante salários baixos, a saída acabou por ser encarada como a única solução para não ficar “parado” à espera de uma oportunidade que podia nunca surgir.

 

Relação desgastada com as equipas

 

Integrado na Anicolor-Tien21, o corredor sentiu que o seu crescimento competitivo entre 2023 e 2024 não teve o reconhecimento esperado. A exclusão de provas-chave, como a Volta a Portugal, teve um impacto psicológico determinante e alterou de forma irreversível a forma como passou a olhar para o ciclismo.

Antes disso, havia construído o percurso na Miranda-Mortágua, em 2018, e passado cinco épocas na Oliveirense, onde consolidou a sua presença no pelotão nacional. Entre os principais resultados, ficam a medalha de bronze na prova de fundo sub-23 dos Nacionais de 2020 e a vitória numa etapa do Grande Prémio Douro Internacional, em 2023.

 

Um ciclismo que perdeu brilho

 

Para além da experiência pessoal, Sousa deixa críticas mais amplas ao estado do ciclismo em Portugal. Na sua visão, a modalidade perdeu carisma, competitividade e capacidade de renovação. Dirigentes, organizadores e estruturas mantêm-se praticamente inalterados há anos, criando um ambiente pouco propício à inovação.

Essa estagnação reflete-se também no desinteresse dos próprios ciclistas em participar ativamente na resolução de problemas coletivos. Enquanto representante da equipa na Associação de Ciclistas, Sousa recorda reuniões com fraca adesão e pouca vontade de discutir temas como segurança em corrida ou pagamento de prémios.

 

Pressão externa e concorrência desigual

 

Outro fator apontado é a crescente entrada de ciclistas estrangeiros, muitos deles com passagem pelo World Tour, que aceitam competir em Portugal por valores residuais ou apenas em troca de material. Esta realidade cria uma concorrência difícil para os corredores nacionais, que veem as equipas optar por soluções mais baratas, mesmo que isso implique desvalorizar talento local.

Num mercado já frágil, pedir o salário mínimo praticado na modalidade torna-se, muitas vezes, inviável face a atletas dispostos a correr apenas pela oportunidade de relançar a carreira.

 

O futuro fora da bicicleta

 

Apesar da saída precoce, José Sousa não corta laços com o ciclismo. Assume sentir saudades da competição, mas garante não estar arrependido. Mantém-se ligado à modalidade através do trabalho como massagista na NSN, do World Tour e integra também o projeto InGamba, dedicado a experiências de ciclismo de luxo.

Visto de fora, acredita ter tomado a melhor decisão possível. Financeira, emocional e psicologicamente, entende que continuar a competir nas atuais condições seria insustentável. A sua história acaba por ser mais do que um caso individual: é um sinal de alerta sobre a dificuldade crescente em ser ciclista profissional em Portugal mesmo quando o talento e a vontade ainda existem.

“Dorsal número um para João Almeida na Volta ao Algarve e assume estatuto de principal favorito”


Por: José Morais

A Volta ao Algarve volta a reunir parte da elite do ciclismo mundial entre 18 e 22 de fevereiro, e fá-lo com um português no centro das atenções. João Almeida envergará o dorsal número 1, sinal claro do estatuto que lhe é reconhecido no pelotão internacional e da ambição de conquistar pela primeira vez a corrida algarvia.

O corredor da UAE Team Emirates chega motivado depois do segundo lugar em 2025, apenas batido pelo então dominante Jonas Vingegaard, este ano ausente da prova. Sem o dinamarquês, Almeida surge como uma das grandes referências de uma lista de pré-inscritos que confirma um Algarve de luxo e altamente competitivo.

Entre os principais rivais destaca-se Juan Ayuso, um dos talentos mais promissores do ciclismo mundial e colega de equipa de João Almeida na formação dos Emirados. A presença de ambos eleva o nível da luta pela geral e promete uma disputa intensa, sobretudo nos terrenos que tradicionalmente decidem a corrida.

O percurso volta a ser exigente e equilibrado, com três momentos-chave a poderem definir o vencedor: as chegadas em alto à Fóia e ao Malhão, decisivas para os trepadores; e o contrarrelógio individual, onde os candidatos à geral terão de mostrar solidez e capacidade contra o relógio.

Para além dos favoritos à vitória final, a Volta ao Algarve contará com vários nomes de relevo. O jovem Paul Seixas, uma das revelações da última temporada, é uma aposta forte da Decathlon AG2R La Mondiale. Já a INEOS Grenadiers apresenta um bloco de grande qualidade, com destaque para Filippo Ganna, referência mundial no contrarrelógio e potencial protagonista nas etapas planas e no esforço individual.

A Red Bull–BORA–hansgrohe não traz Remco Evenepoel, mas aposta em alternativas sólidas como Florian Lipowitz e Daniel Martínez, ambos com capacidade para discutir a classificação geral. Já a EF Education–EasyPost confia na experiência e combatividade de Richard Carapaz, vencedor do Giro e presença habitual nos grandes duelos em montanha.

Com um elenco internacional de alto nível, um percurso seletivo e um português a liderar as expectativas, a Volta ao Algarve volta a afirmar-se como uma das corridas mais prestigiadas do início da época europeia e um palco ideal para João Almeida tentar escrever, finalmente, o seu nome na lista de vencedores.

“Primeira corrida do ano, primeiro grande desafio de 2026: Figueira Champions Classic”


A edição deste ano da Figueira Champions Classic disputa-se já a 14 de fevereiro, sábado, na Figueira da Foz, afirmando-se, na sua 4.ª edição, como a clássica de um dia mais icónica em Portugal. Integra o circuito UCI Pro Series, na categoria 1. Pro, atraindo algumas das equipas e corredores mais competitivos do pelotão internacional.

O tiro de partida será dado junto à Torre do Relógio, na Avenida 25 de Abril, na Figueira da Foz, às 11h45. Antes do regresso ao mesmo ponto para a meta, o circuito final inclui uma contagem de 1.ª categoria na exigente ascensão da Rua do Parque Florestal (2,1 km), logo seguida da subida de Enforca Cães (0,9 km, 2.ª categoria). O pelotão enfrentará este duplo encadeado de montanha por três vezes, num desenho de corrida que promete ataques, cortes e decisões ao ritmo do vento vindo do mar.

No total, a edição de 2026 da Figueira Champions Classic apresenta 192,7 km e 2.120 metros de desnível positivo, um terreno que mistura longos troços rápidos com zonas técnicas e um final explosivo para quem chegar ainda com forças.

Estarão presentes 24 equipas, cada uma com 7 corredores, perfazendo um pelotão de 168 ciclistas alinhados à partida, prontos para transformar a marginal da Figueira da Foz num painel de cor, velocidade e nervosismo pré-primavera.

A Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua apresenta o seguinte alinhamento: Bruno Silva, Gonçalo Carvalho, Leangel Linarez, Rafael Barbas, Lois de Jesus e duas estreias absolutas no pelotão profissional, ambos com apenas 18 anos: Diego Lopez e Simão Lucas. Uma oportunidade de aprendizagem, de crescimento e de sentir o impacto real da alta competição.

 

Declarações de Xavier Silva, manager da equipa: 

“Os objetivos são os de sempre numa corrida como esta: mostrar as cores da equipa, fazer com que saibam que estamos na competição e deixar o nosso nome nas conversas do pelotão. Queremos que os nossos corredores, sobretudo os mais jovens, saiam desta prova com mais confiança, mais experiência e a sensação de que podem enfrentar qualquer ritmo.”

A prova terá transmissão em direto nos seguintes canais: Eurosport 2, a partir das 15h00; Sport TV 5, a partir das 14h30. Acompanhem a Tavfer - Ovos Matinados- Mortágua neste dia de competição.

Fonte: Equipa Ciclismo Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua

Ficha Técnica

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