quarta-feira, 22 de outubro de 2025

“SRAM apresenta queixa contra a UCI e critica protocolo que limita transmissões das bicicletas no pelotão World Tour”


Por: Carlos Silva

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

O conflito entre a SRAM e a União Ciclista Internacional (UCI) subiu de tom. O CEO da marca norte-americana, Ken Lousberg, publicou uma carta aberta onde critica abertamente o novo Maximum Gearing Protocol da UCI, uma medida que limita as relações de transmissão utilizadas nas bicicletas do pelotão profissional. A SRAM, sentindo-se injustamente visada, apresentou uma queixa formal junto da Autoridade da Concorrência da Bélgica.

 

A origem da polémica

 

Em junho, a UCI anunciou a introdução experimental de restrições no escalonamento de transmissões, justificando a medida com a intenção de aumentar a segurança dos ciclistas. No entanto, a decisão gerou desconforto imediato entre as equipas e fabricantes, sobretudo porque o sistema de transmissão 1x da SRAM - utilizado, entre outros, por Jonas Vingegaard na sua nova Cervélo S5 durante a Volta a França 2025 - seria um dos mais penalizados pelas novas regras.

Na carta aberta publicada, Ken Lousberg afirmou que a empresa tentou dialogar com a UCI “de boa fé”, mas que as suas preocupações “ficaram sem resposta”.

“O novo Maximum Gearing Protocol vai restringir o equipamento em que muitos de vocês confiam para pedalar e competir ao mais alto nível. Limita a escolha, sufoca a inovação e prejudica injustamente os ciclistas da SRAM - e a própria SRAM”, escreveu o dirigente.

“Não pedimos muito. Apenas queremos que os nossos ciclistas possam competir em igualdade de condições e que a indústria seja reconhecida como um parceiro essencial, trabalhando em conjunto para tornar o ciclismo mais seguro e inspirador”, acrescentou.

Lousberg sublinhou ainda que a nova regra “já provocou confusão, ansiedade e perturbações”, reiterando que o compromisso da SRAM com a segurança e inovação “permanece inalterado”.

 

Queixa formal e danos reputacionais

 

Num comunicado oficial, a marca norte-americana explicou que, embora a UCI classifique a medida como um “teste”, a sua implementação “já causou danos tangíveis”.

“As transmissões da SRAM foram publicamente rotuladas como não conformes, o que gerou danos reputacionais, confusão no mercado, ansiedade entre equipas e atletas, e possível exposição legal”, lê-se na nota.

A SRAM argumenta que é o único grande fabricante cujos grupos utilizados por equipas World Tour são afetados de forma direta, o que, na sua perspectiva, cria uma desigualdade competitiva evidente.

 

Opiniões divididas no pelotão

 

As restrições de transmissão têm dividido profundamente o pelotão e a comunidade técnica do ciclismo. No início do ano, ciclistas como Chris Froome e Wout van Aert defenderam publicamente a ideia de limitar a evolução tecnológica para melhorar a segurança. Froome chegou a dizer que “talvez seja altura de discutir a limitação do avanço tecnológico no ciclismo, algo tão simples como restringir as relações de transmissão”.

Mas outros nomes de peso contestaram a proposta. Antes da Artic Race, em agosto, Tom Pidcock, da Q36.5 Pro Cycling Team, afirmou que “limitar as mudanças só tornará tudo mais perigoso”.

Na mesma linha, Dan Bigham, responsável de engenharia na Red Bull – Bora – Hansgrohe, apresentou na conferência Science and Cycling em Lille um estudo que conclui que as novas restrições “não terão qualquer impacto na velocidade do pelotão” e, por isso, “não contribuirão para aumentar a segurança dos ciclistas”.

“Temos poder para implementar mudanças reais, mas restringir as relações de transmissão apenas desvia a atenção das medidas verdadeiramente relevantes para proteger os ciclistas”, sustentou Bigham.

 

O debate continua

 

A polémica entre a SRAM e a UCI promete marcar os próximos meses. Por um lado, o organismo internacional insiste que o protocolo é apenas um teste destinado a recolher dados sobre segurança. Por outro, a SRAM afirma que o processo carece de diálogo, transparência e equidade.

Enquanto a batalha legal avança, o debate sobre até que ponto a inovação tecnológica deve ser limitada em nome da segurança continuará a dividir o mundo do ciclismo entre quem vê progresso e quem vê risco.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/sram-apresenta-queixa-contra-a-uci-e-critica-protocolo-que-limita-transmissoes-das-bicicletas-no-pelotao-world-tour

“É difícil saber se as conclusões nos trarão paz" Um ano depois, os pais de Muriel Furrer continuam à espera de explicações sobre a morte da jovem de 18 anos”


Por: Carlos Silva

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A morte de Muriel Furrer durante o Campeonato do Mundo de 2024, em Zurique, foi um dos episódios mais marcantes e dolorosos da história recente do ciclismo. O acidente fatal da jovem suíça de 18 anos voltou a colocar em evidência fragilidades preocupantes nos protocolos de segurança da modalidade.

Furrer caiu durante a prova de estrada feminina de juniores, numa zona florestal afastada do percurso principal, sem que ninguém assistisse ao acidente. Sem um sistema de localização por GPS ou comunicação por rádio, algo que não é permitido nos Campeonatos do Mundo de estrada, a ciclista permaneceu desaparecida durante cerca de hora e meia. Quando foi finalmente encontrada, já em estado crítico, não resistiu aos ferimentos.

“É difícil saber se as conclusões nos trarão paz. É evidente que foi cometido um erro grave. A Muriel só foi encontrada 90 ou 100 minutos após o acidente. Se tivesse sido descoberta mais cedo, talvez tivesse tido uma hipótese de sobreviver”, afirmou o pai da ciclista, em declarações ao Le Temps.

As circunstâncias do acidente continuam envoltas em incerteza. A investigação oficial permanece sem conclusões definitivas e as questões sobre a demora no socorro continuam por responder. “Muitas perguntas continuam sem resposta. Mas quando acontece um erro, há inevitavelmente pessoas responsáveis”, acrescentou o pai, visivelmente abalado.

A ausência de rádios de corrida, uma regra que distingue os Campeonatos do Mundo das restantes provas profissionais, tornou-se um dos pontos mais controversos do caso. Num contexto onde cada segundo é vital, a falta de comunicação direta entre atletas, diretores desportivos e organização pode ter sido determinante.

“Quando soubermos exatamente o que aconteceu e quem tem a responsabilidade, talvez possamos evitar que uma tragédia destas volte a acontecer”, sublinhou o pai de Furrer.

 

Uma discussão mais ampla sobre segurança

 

A tragédia de Zurique reabriu o debate sobre a segurança no ciclismo em várias frentes. Para muitos especialistas, as falhas não se limitam à ausência de rádios ou sistemas de rastreio, mas estendem-se à concepção do próprio material utilizado nas corridas.

Um dos pontos levantados pelo pai de Muriel Furrer prende-se com os capacetes de contrarrelógio, cuja prioridade é a aerodinâmica e não a proteção. O exemplo mais citado é o do suíço Stefan Küng, que sofreu um violento acidente no Campeonato da Europa de 2023, terminou a prova ensanguentado e mais tarde foi-lhe diagnosticada uma concussão.

“Precisamos realmente de melhorar a segurança dos ciclistas. As bicicletas e os equipamentos são concebidos para serem rápidos, não para proteger. Isso tem de mudar”, afirmou.

A morte de Muriel Furrer expôs um problema estrutural: a discrepância entre o desenvolvimento tecnológico focado no desempenho e a ausência de progresso equivalente na segurança. Um ano depois, continua a faltar uma resposta clara e, sobretudo, medidas concretas que garantam que tragédias como esta não se repitam.

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/e-dificil-saber-se-as-conclusoes-nos-trarao-paz-um-ano-depois-os-pais-de-muriel-furrer-continuam-a-espera-de-explicacoes-sobre-a-morte-da-jovem-de-18-anos

"No World Tour, só há uma equipa que tem um psicólogo a tempo inteiro" Ex-profissional denuncia falhas graves nas equipas de topo”


Por: Carlos Silva

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A saúde mental continua a ser um dos temas mais negligenciados no desporto profissional e o ciclismo não é excepção. O alerta foi deixado por Martijn Tusveld, antigo ciclista holandês do World Tour, que revelou que apenas uma equipa do pelotão de elite tem um psicólogo desportivo a tempo inteiro.

Tusveld, que representou a Team Picnic PostNL entre 2018 e 2024, terminou a sua carreira esta época e está agora a preparar-se para seguir um outro caminho, mas fora da bicicleta: tornar-se psicólogo desportivo. Em entrevista ao In de Leiderstrui, o ex-profissional mostrou-se surpreendido com a pouca atenção que as equipas de topo dedicam à componente mental dos seus ciclistas.

“Penso que contribuí com alguma coisa, apesar de não ter marcado pontos”, afirmou. “A equipa manteve-se praticamente igual e isso é também um elogio ao pessoal de apoio: treinadores, nutricionistas e o psicólogo desportivo. Essa estrutura faz diferença.”

Depois de anos no World Tour, Tusveld terminou a carreira a competir pela BEAT Cycling Club, equipa continental neerlandesa, onde encontrou um ambiente mais próximo e humano, algo que segundo ele, falta em muitas estruturas de topo.

“A diferença entre o World Tour e as equipas continentais é que, nas mais pequenas, os ciclistas correm muitas vezes para os resultados pessoais. No World Tour, há mais espírito colectivo, e isso ajuda a evoluir como equipa. Essa abordagem é fundamental.”

 

O lado invisível do alto rendimento

 

Tusveld, agora com 32 anos, está a realizar um estágio com o psicólogo da sua antiga equipa e acredita que esse é um campo onde o ciclismo tem muito a aprender.

“Vejo um futuro nesta área, porque noto que há pouca atenção para ela. Há muito foco no treino e na nutrição, mas o apoio mental e pessoal continua a ser negligenciado”, explicou.

Segundo o holandês, apenas a Lidl–Trek dispõe de um psicólogo a tempo inteiro no World Tour. “No World Tour, só há uma equipa que emprega um psicólogo desportivo a tempo inteiro. É a Lidl–Trek, e sei que querem fazer mais. Existe procura por esse apoio, mas a maioria das equipas ainda o ignora. No entanto, acredito que chegará o momento em que esse suporte será parte integrante das estruturas.”

 

Um tabu que persiste

 

Num ambiente cada vez mais profissionalizado, onde os ganhos marginais determinam a diferença entre vencer e perder, Tusveld considera “surpreendente” que equipas com orçamentos de dezenas de milhões de euros continuem a desvalorizar a vertente mental.

“Veja-se o medo de cair é algo comum, mas que ainda não pode ser discutido abertamente. É um tema tabu. E enquanto isso não mudar, os ciclistas continuam a carregar esse peso em silêncio.”

Além da componente psicológica, o ex-ciclista identifica também lacunas na cultura interna das equipas, onde a pressão constante e a ausência de espaços seguros agravam o problema.

“Ainda há muito a ganhar nessas áreas. O mesmo se aplica à cultura de equipa. No ciclismo, continua a existir uma mentalidade conservadora, mas vejo que, aos poucos, estão a surgir mudanças. E isso é um bom sinal.”

Pode visualizar este artigo em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/no-worldtour-so-ha-uma-equipa-que-tem-um-psicologo-a-tempo-inteiro-ex-profissional-denuncia-falhas-graves-nas-equipas-de-topo

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