Por: José Morais
A ausência de Tadej Pogačar
nas semanas decisivas da temporada transformou por completo o panorama do
ciclismo internacional. Após a queda e consequente abandono na Volta a Espanha,
o domínio habitual do esloveno desapareceu do pelotão e abriu espaço a corridas
mais imprevisíveis, onde a estratégia, o suspense e a luta pela vitória
regressaram ao centro do espetáculo.
Quem o afirma é Luke Tuckwell,
corredor da Red Bull-BORA-hansgrohe, que acompanhou de perto o incidente que
afastou o campeão esloveno da competição. Apesar de considerar Pogačar como “o
melhor ciclista de todos os tempos”, o australiano reconhece que a sua ausência
trouxe um nível de incerteza raramente visto nas principais provas da
temporada.
Vuelta
ganhou nova vida sem o campeão esloveno
Segundo Tuckwell, a Vuelta
mudou radicalmente após a saída de Pogacar. O que poderia ter sido mais uma
demonstração de força do líder da UAE Team Emirates transformou-se numa batalha
aberta, onde vários corredores alimentaram legítimas ambições de conquistar a
camisola vermelha.
As etapas de montanha deixaram
de estar sob o controlo absoluto de uma única equipa, permitindo ataques
inesperados, fugas bem-sucedidas e triunfos de corredores de diferentes
gerações. Jovens talentos emergiram, veteranos reencontraram o caminho da vitória
e a classificação geral manteve-se em aberto até aos momentos decisivos da
prova.
“O mais especial era
acordarmos sem saber o que iria acontecer nesse dia”, recordou o australiano,
destacando que essa incerteza tornou a corrida particularmente envolvente para
quem a viveu dentro do pelotão.
Mundial
de Montreal ofereceu um espetáculo imprevisível
A mesma sensação repetiu-se
nos Campeonatos do Mundo disputados em Montreal. Tuckwell revelou que a seleção
australiana passou dias a analisar cenários possíveis, algo que, na sua
opinião, seria muito mais difícil de imaginar caso Pogačar estivesse presente.
Corredores como Remco
Evenepoel, Isaac del Toro e Paul Seixas surgiam entre os favoritos, mas ninguém
conseguia antecipar como a corrida se desenrolaria. A diversidade de
estratégias e ataques manteve a incerteza até ao final.
O australiano recorda ainda
que muitos adeptos consideraram esta edição do Campeonato do Mundo uma das mais
emocionantes dos últimos anos. O triunfo de Brandon McNulty, por exemplo,
surgiu num contexto de corrida aberta e agressiva, marcado por sucessivas
movimentações ofensivas e constantes mudanças de cenário.
Lombardia
confirmou uma nova realidade
A última grande clássica da
temporada também refletiu essa transformação. Sem o vencedor das últimas cinco
edições, o Il Lombardia apresentou um leque muito mais vasto de candidatos ao
triunfo.
Entre as grandes incógnitas
estavam a postura ofensiva de Remco Evenepoel, as opções táticas da UAE Team
Emirates e o estado de forma de Paul Seixas. O jovem francês acabaria por
responder da melhor maneira, assinando uma exibição autoritária que impressionou
todo o pelotão internacional.
Para Tuckwell, o resultado
voltou a demonstrar como a ausência de uma figura dominante pode aumentar a
imprevisibilidade e criar narrativas mais ricas ao longo da corrida.
O domínio
que reduz a incerteza
Embora ninguém coloque em
causa o talento extraordinário de Pogacar, o corredor da Red Bull admite que o
ciclismo ganha uma dimensão diferente quando o esloveno não está presente. Sem
um favorito quase inevitável, as equipas são obrigadas a arriscar mais, os
ataques multiplicam-se e o vencedor permanece em dúvida até ao final.
Para muitos adeptos, é
precisamente essa incerteza que torna o ciclismo apaixonante. E, segundo
Tuckwell, foi isso que marcou algumas das provas mais memoráveis da temporada:
corridas onde ninguém sabia quem iria ganhar até ao último quilómetro.

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