sábado, 25 de julho de 2026

“Tour França: Richard Carapaz domina o dia mais cruel do Tour enquanto o sonho de Kuss se desfaz no Alpe d’Huez”


Por: José Morais

O penúltimo capítulo do Tour de França transformou-se numa epopeia de sofrimento, coragem e reviravoltas brutais. Richard Carapaz emergiu como o herói de um dia que parecia escrito para Sepp Kuss, até que a montanha decidiu mudar o rumo da história. No Alpe d’Huez, o equatoriano assinou uma das vitórias mais intensas desta edição, num cenário onde a glória e o abismo caminharam lado a lado.

 

A etapa que triturou corpos e ambições

 

Foram 170,9 km, mais de 5.400 metros de desnível e três gigantes alpinos que não perdoaram ninguém. Carapaz atacou desde cedo, colecionou pontos, reforçou a camisola da montanha e mostrou que não estava ali para sobreviver estava ali para incendiar a corrida. No Télégraphe, no Galibier, na Croix de Fer, o equatoriano foi sempre presença agressiva, sempre à frente, sempre a testar limites.

Mas a narrativa parecia encaminhar-se para outro protagonista.

 

O drama de Sepp Kuss: da glória iminente ao vazio

 

O americano lançou o ataque decisivo a 23,6 km da meta, no Col de Sarenne. Abriu espaço, isolou-se, coroou a última grande subida do Tour e iniciou a descida com a etapa praticamente nas mãos. Era o momento perfeito, o golpe de carreira que todos esperavam.

Até que a montanha o traiu.

A sete quilómetros do fim, Kuss perdeu o controlo da bicicleta numa curva traiçoeira. Voou para fora da estrada, embateu nas proteções e levantou-se num impulso de quem recusa desistir. Tentou continuar, mas a segunda queda, segundos depois, destruiu qualquer hipótese de vitória. Carapaz passou por ele como um fantasma que a montanha decidiu favorecer.

O que parecia uma vitória épica transformou-se numa luta para evitar algo muito pior. A sorte que lhe negou o triunfo foi a mesma que o protegeu de uma tragédia.

 

Carapaz: vitória construída, não oferecida

 

O equatoriano não recebeu um presente aproveitou uma oportunidade que só existe para quem insiste até ao limite. Resistiu quando Kuss parecia inalcançável, atacou quando todos hesitavam e manteve o ritmo quando o corpo já pedia clemência. Cruzou o Alpe d’Huez com os braços erguidos, consciente de que tinha sobrevivido ao dia mais cruel do Tour.

 

Pogacar, o líder que virou escudeiro

 

Atrás, Tadej Pogacar tomou uma decisão rara para um líder de camisola amarela: abdicou da luta pela etapa para proteger o pódio de Isaac Del Toro. Quando Paul Seixas atacou e Evenepoel respondeu, o mexicano sofreu e Pogacar ficou ao seu lado, como um guarda-costas de luxo. Um gesto de liderança que valeu mais do que qualquer aceleração.

 

Ayuso e a fuga dos inconformados

 

Juan Ayuso tentou redimir a frustração da véspera entrando numa fuga repleta de nomes pesados: Kuss, Carapaz, Hindley, Jorgenson, Healy, Arensman, Pedersen. Mas o Galibier, implacável como sempre, colocou cada um no seu lugar.

 

A lição do dia

 

O Tour voltou a lembrar que força não basta. É preciso sobreviver às curvas, às descidas, às armadilhas invisíveis e ao acaso que decide destinos.

Carapaz encontrou glória onde Kuss encontrou o precipício.

E o ciclismo, mais uma vez, mostrou porque continua a ser o desporto mais humano de todos.

“Blackjack-Bairrada vence contrarrelógio coletivo e coloca Martim Campos na liderança do GP Terras de Trás-os-Montes”


Fotos: Rodrigo Rodrigues / Cyclingvision

A Blackjack-Bairrada foi a equipa mais forte no contrarrelógio coletivo que marcou o arranque do Grande Prémio Terras de Trás-os-Montes Sub-19, disputado esta sexta-feira em Vila Real. A formação portuguesa completou os 6,45 quilómetros do contrarrelógio por equipas em 8m30s, assumindo a liderança coletiva da corrida e colocando Martim Campos no comando da Classificação Geral.


A primeira etapa da edição de 2026 da prova foi um esforço coletivo contra o cronómetro, pelas ruas de Vila Real, onde a coordenação e a velocidade média superior a 45 km/h fizeram as primeiras diferenças entre as equipas. A Blackjack-Bairrada confirmou o favoritismo neste exercício, impondo-se com três segundos de vantagem sobre a espanhola Picusa Academy e oito segundos sobre a neerlandesa Willebrord Wil Vooruit.

Além do triunfo coletivo, a equipa vencedora ocupou os cinco primeiros lugares da Classificação Geral Individual. Martim Campos enverga a Camisola Amarela, seguido pelos companheiros Guilherme Santos, Rodrigo Conceição e André Jarmela, todos creditados com o mesmo tempo do líder, 8m30s, sendo Vasco Silva quem fecha o top-5, neste caso a 8m33s do comando.


A Picusa Academy confirmou a competitividade internacional do pelotão, ao colocar seis corredores entre os onze primeiros classificados, enquanto a Willebrord Wil Vooruit encerrou o pódio coletivo do dia.

Nas restantes classificações, Rodrigo Conceição (Blackjack-Bairrada) é o primeiro líder da Juventude, enquanto Rodrigo Matos (Bilabiker's Cycling Team) veste a camisola reservada ao melhor atleta da região da Associação Regional de Ciclismo de Vila Real. A classificação por Pontos é também liderada por Martim Campos.



O Grande Prémio Terras de Trás-os-Montes prossegue este sábado com jornada dupla. Durante a manhã corre-se o setor matutino da segunda etapa, ligando Vila Pouca de Aguiar a Favaios, na distância de 76,7 quilómetros e cerca de 900 metros de acumulado positivo. A partida simbólica está marcada para as 10h30, na Praça Vermelha, em Vila Pouca de Aguiar, estando a chegada prevista para as 12h30, junto da Adega Cooperativa de Favaios.

Durante a tarde realiza-se o setor B da segunda etapa, uma tirada de 72,8 quilómetros, entre Alijó e o Santuário de Nossa Senhora da Guia, em Ribeira de Pena. Com cerca de 1290 metros de desnível acumulado, inclui a exigente ascensão final à Senhora da Guia, onde estará instalada a meta. A partida está marcada para as 16h30 e a chegada prevista para as 18h20.

Fonte: Federação Portuguesa Ciclismo

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Tour de França: Ascensão Implacável: Tadej Pogacar transforma o Alpe d’Huez num tribunal e sentencia o Tour de 2026”


Por: José Morais

Tadej Pogacar escreveu uma das páginas mais intensas da história recente do ciclismo ao dominar o Alpe d’Huez, quebrar o mítico tempo de Marco Pantani e selar, com autoridade, o Tour de França de 2026. A montanha esperava-o mascarada de festa, o pelotão desconfiava da fragilidade da UAE Team Emirates, e o público pressentia que algo extraordinário estava prestes a acontecer.

 

Montanhas em alerta, equipa em dúvida

 

A véspera anunciava tempestade. O “vírus” que assolara a formação dos Emirados deixara McNulty, Wellens, Yates e Vermeersch debilitados. Pela primeira vez em muito tempo, a equipa da amarela parecia vulnerável. Os rivais farejaram oportunidade. A montanha também.

O dia arrancou frenético desde Gap: 42 corredores em fuga, um enxame de ambições misturadas. Richard Carapaz, Kuss, Lenny Martínez, Arensman, Healy, Rubio, Castrillo e Yates tentavam fabricar o golpe perfeito num palco sem esconderijos. Carapaz e Paret-Peintre duelavam pela montanha; Mads Pedersen acumulava pontos para o verde; atrás, a UAE defendia-se com menos homens e mais incertezas.

O Col du Noyer começou a separar o trigo do joio. O Col d’Ornon concluiu o serviço. Carapaz, agressivo como sempre, percebeu que resistir não bastava: era preciso provocar. O equatoriano atacava como quem bate numa porta fechada até alguém ceder.

 

As 21 curvas que mudaram o Tour

 

Ao pé do Alpe d’Huez, a fuga tinha 3:25 de vantagem. Para qualquer mortal, suficiente. Para Tadej Pogacar, irrelevante.

A estrada transformou-se num túnel humano: bandeiras, água, gritos, braços, caos. A certa altura, o público fechava o asfalto, obrigando os ciclistas a atravessar uma celebração que roçava o perigo. Foi ali que começou a sentença.

A 11 km da meta, Tadej Pogacar atacou. Sem finta, sem ensaio, sem diplomacia. Ligou um modo que só ele conhece. Iniciou um contrarrelógio contra a fuga, contra Pantani, contra a doença que debilitara a sua equipa.

Adam Yates, renascido, deu-lhe alguns metros de apoio antes de o deixar seguir sozinho. A partir daí, o esloveno transformou a montanha num relógio.

A 9 km, estava a 2:27.

A 6,5 km, a 1:11.

A 5,5 km, a 52 segundos.

O Alpe d’Huez parecia encolher debaixo das suas rodas.

Carapaz resistia com heroísmo. Atacou Kuss e Martínez, abriu oito segundos a 2,8 km da meta. Era uma declaração de princípios: se Pogacar quisesse vencer, teria de arrancar-lhe a vitória das mãos.

E arrancou.

Apanhou Lenny. Apanhou Carapaz. Testou-os. Esperou. E, sob a bandeira vermelha, lançou o golpe final. Carapaz aguentou alguns segundos, até que a inevitabilidade do esloveno se impôs.

 

Evenepoel, Del Toro e as guerras secundárias

 

Atrás, Remco Evenepoel tentava limitar danos, condicionado por uma moto. Del Toro largou Seixas e perseguiu o belga para proteger o pódio. Ayuso cedeu cedo. Eram batalhas paralelas num palco dominado por um homem que subia como se a gravidade fosse apenas um rumor.

 

Tadej Pogacar reescreve o tempo

 

Pogacar cruzou a meta sozinho, conquistando a quinta vitória neste Tour e assinando nova glória no Alpe d’Huez. Mais do que vencer, superou o recorde de Pantani por 1 minuto e 27 segundos. Na montanha dos mitos, redefiniu a escala do possível.

A vitória foi uma resposta às doenças, às dúvidas, às suspeitas. A UAE chegou ferida, mas Pogacar passou o “antivírus”. E quando o sistema reiniciou, o Alpe d’Huez percebeu que a camisola amarela ainda corria numa velocidade que ninguém consegue acompanhar.

Ficha Técnica

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