Por: José Morais
O pelotão começa a admitir
aquilo que muitos já murmuravam nos bastidores: para travar o domínio de Tadej
Pogacar e da poderosa UAE Team Emirates, talvez seja preciso mexer nas regras
do próprio Tour de França. A proposta que ganha adeptos não é nova, mas
regressa com força: reduzir ainda mais o número de ciclistas por equipa.
Uma
solução drástica para um problema crescente
Enquanto alguns defendem tetos
salariais para equilibrar o poder financeiro das equipas, outros acreditam que
a resposta está na estrada: equipas mais pequenas, menos controlo, mais
imprevisibilidade.
Entre estes está Bauke
Mollema, veterano da Lidl-Trek, que vive os últimos meses da carreira e observa
com preocupação o efeito Pogacar no Tour.
“Equipas de seis ciclistas no
Tour era isso que eu gostaria de ver”, afirmou o holandês, que nunca escondeu a
frustração por ter sido deixado de fora de grandes voltas em anos recentes.
Para Mollema, a equação é simples: com menos homens, até Pogacar teria de
escolher melhor quem o acompanha e quando controla a corrida.
Segurança:
o argumento que convence quase todos
Mollema reforça a ideia com um
ponto sensível: a segurança.
Segundo ele, pelotões mais
pequenos reduzem o risco de quedas e tornam a corrida mais fluida.
Recordou o Tour de Romandia,
disputado com equipas de sete ciclistas e menos formações no conjunto: “Era um
pelotão de cerca de 100 corredores. A dinâmica mudou. Não houve quedas. Foi
maravilhoso.”
A UCI já tinha reduzido o
número de ciclistas nas Grandes Voltas em 2018 de nove para oito precisamente
com esse objetivo. Mas o impacto foi limitado: as equipas mais fortes
adaptaram-se e continuaram a dominar.
O poder
dos Emirados: “Não faz sentido”
O tema ganhou ainda mais força
depois de declarações duras de José Joaquín Rojas, diretor desportivo da
Movistar, que verbalizou o desconforto generalizado no pelotão.
“Falo por 85% dos ciclistas: o
que a UAE fez não faz sentido. Para correr assim, muitos preferem ficar em
casa”, disse o espanhol, referindo-se ao controlo quase absoluto da equipa,
capaz de neutralizar fugas sem necessidade estratégica evidente.
Com apenas seis ciclistas,
esse tipo de domínio seria praticamente impossível. Não haveria dias em que um
corredor como Tim Wellens controlaria a fuga “porque sim”, acabando depois por
pagar o esforço com doença ou quebra física.
Tadej Pogacar continua
intocável, mas o Tour França precisa de ar fresco
A verdade é que, mesmo com
menos apoio, ninguém sabe quem conseguiria bater Pogacar nas montanhas ou no
contrarrelógio.
Mas muitos acreditam que
equipas mais pequenas abririam portas a estratégias diferentes, ataques mais
ousados e classificações gerais menos previsíveis.
Em 21 dias de corrida, Tadej Pogacar
venceu cinco etapas e poderia ter vencido oito, não fosse a ajuda prestada ao
jovem Isaac Del Toro em três jornadas decisivas.
O que
está realmente em jogo
Reduzir o número de ciclistas
por equipa não é apenas uma questão de competitividade.
É uma discussão sobre:
Segurança no pelotão
Equilíbrio competitivo
Espetáculo desportivo
A sustentabilidade de um Tour
dominado por uma única equipa
E, acima de tudo, sobre o
futuro de uma prova que vive da imprevisibilidade algo que, para muitos, está a
desaparecer.

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