Por: Miguel Marques
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A Volta a Itália de 2026 foi
um momento de viragem na carreira de Afonso Eulálio. O ciclista da Bahrain -
Victorious liderou a corrida durante nove dias, venceu a classificação da
juventude e foi uma das figuras do evento. O CiclismoAtual conversou com Eulálio
numa conferência de imprensa pós-Giro, na qual o português analisou a corrida e
as suas ambições futuras.
Eulálio falou a fundo da
preparação para a prova e de como isso pesou na decisão de apontar à geral após
vestir a maglia rosa numa fuga na 5ª etapa com final em Potenza.
O corredor de 24 anos carregou
a maglia rosa em quase metade da Corsa Rosa, resistindo a várias etapas de
montanha e ao contrarrelógio, enquanto Jonas Vingegaard se aproximava. Apesar
de muitas vezes a lógica apontar para uma postura defensiva, optou frequentemente
pelo ataque. No final, foi sexto da geral e venceu a classificação da
juventude, à frente de Davide Piganzoli, da Visma.
Eulálio explicou as razões e a
parceria com Damiano Caruso. Revelou que vai apontar às clássicas de outono e
ao Campeonato do Mundo no final do ano; e que em 2027 deverá estrear-se na
Volta a França. Em 2028, é possível que procure a dupla Giro-Vuelta, novamente
a pensar na geral.
Vários outros temas foram
abordados numa conferência de imprensa organizada esta manhã pela Bahrain -
Victorious.
Pergunta:
Quando falámos antes do Giro disseste-me que querias ganhar uma etapa. Sair com
um jersey e com o nível exibido acaba por ser ainda melhor, certo?
Resposta: Sim, queria muito
uma etapa. Acabámos por vencer com o Alec e isso deixou-me muito contente, mas
claro que queria muito a minha etapa. No fim do Giro, as coisas correram tão
bem, de forma tão grande, vestir a rosa, acabar com a branca e consegui-la no
final do Giro e ainda fazer top 10. Acho que não é nada mau ter a vitória da
equipa e eu ainda tenho muitos anos para tentar um triunfo numa grande etapa.
P: E já
percebeste que és o terceiro melhor português de sempre na Volta a Itália? Isso
dá-te muita responsabilidade, imagino.
R: Lembro-me que no ano
passado, no Campeonato do Mundo, disseram que eu tinha o segundo melhor
resultado, só o Rui Costa tinha feito melhor no Mundial, portanto as coisas têm
corrido bem. Temos trabalhado muito bem. No ano passado fui top 10 no Campeonato
do Mundo, este ano fui top 10 no Giro d’Italia e, claro, os resultados são
muito bons. Acima de tudo, temos de continuar a trabalhar e tentar aproveitar
os melhores momentos.
P: Ao
longo do Giro, muitos rivais esperavam que tivesses um dia mau e quebrasses,
mas, pelo contrário, o teu rendimento na montanha pareceu subir nas três
semanas, mesmo depois de perderes a rosa. Como foi a tua emoção na última
semana? Como foi evoluindo, vendo as tuas prestações na 16ª etapa, depois na
19ª, sobrevivendo cada vez melhor e até conseguindo melhores resultados nas
etapas?
R: Olha, não sei bem. Tinha
muitas expectativas porque era algo novo para mim. É muito diferente quando
estás num Giro a lutar por uma etapa, consegues chegar em grupo e, no dia
seguinte, voltas a lutar. Quando estás pela geral, estás constantemente a disputar
a frente e chegar à frente não é só lutar na última subida, tens de lutar todos
os dias.
Todas as subidas, todas as
descidas, todos os pontos cruciais. Foi tudo novo para mim. Estava a fazer o
meu trabalho, como equipa fizemos tudo na perfeição, tentámos ser perfeitos em
todos os aspetos, dávamo-nos tudo uns aos outros e, acima de tudo, procurámos
fazer o nosso melhor. Acho que foi um pouco como no ano passado: fui
melhorando. No ano passado também me senti muito bem na última semana, mas este
ano tive a oportunidade de correr de forma diferente e acho que fui crescendo
até ao final do Giro.
P: Isso
trouxe-te muitas comparações com o João Almeida? Presumo que sim, porque ele o
fez em 2020, ou estou enganado?
R: O João é o João, não há
comparação. Se eu tivesse as pernas dele, teria feito muito melhor. O João é um
dos melhores ciclistas de sempre, não só de Portugal. É um dos poucos que
muitas vezes consegue discutir com o Jonas [Vingegaard]. O João não tem comparações
e tenho a certeza de que nos vai dar muitas alegrias até ao fim do ano.
P: O
Joaquim Andrade diz que, não fosse o Blockhaus dois dias depois da fuga [na 5ª
etapa], teria sido possível acabares no top 5 e que, no futuro, poderás lutar
pelo pódio numa grande volta. O que dizes?
R: Antes de mais, quero
agradecer. Tive muitos bons momentos com o Joaquim Andrade. É sempre difícil
adivinhar o que teria acontecido. Sem a fuga, não teria ganho tempo. Mas claro
que me senti mais cansado por causa do Blockhaus e precisei de alguns dias para
recuperar. Acabou por ser bom ter o dia de descanso e o contrarrelógio, foram
dois dias mais curtos e deu para respirar um pouco.
Mas não sei e, para o futuro,
vou continuar a trabalhar. Vou continuar a fazer os meus resultados. Acima de
tudo, gosto de fazer as clássicas e tenho a certeza de que estarei bem. Pelo
menos, vou dar o meu melhor e lutar por isso. E depois, numa grande volta, quem
sabe? No futuro, não sei. Provavelmente só vou fazer uma grande volta [pela
geral] daqui a dois anos. Mas quem sabe?
P:
Passaste mais duas semanas a ir ao pódio, algo novo para ti. Gostaste? Não te
tirou tempo de descanso?
R: Prefiro ir ao pódio do que
não ir. Preferia lá estar todos os dias com a rosa e a branca. Mas, no fim, uma
grande volta faz muita diferença, porque tive pódio todos os dias, controlo
[antidoping] todos os dias, centenas de entrevistas diárias, tínhamos sempre
entrevistas para a Eurosport. Tínhamos conferências de imprensa no final,
televisões, muitas entrevistas também…
E claro, quando chegava ao
hotel tinha massagem, fisioterapia, tudo isso, e quando ia jantar comia sozinho
ou com o nosso nutricionista, ou com um colega que esperava por mim. Os outros
já tinham chegado, jantado e estavam a descansar, e como eu passava mais tempo,
acabava por chegar bastante tarde e não tinha o mesmo tempo de recuperação. Mas
a equipa tentou sempre apoiar-me e também, quando se luta pela geral, tens de
estar mais controlado pela equipa. Cheguei a acordar às 6:00 e havia dias em
que ia jantar às 21:00.
Claro, tudo junto tirou-me
recuperação. Deixou-me mais stressado. Achava que ia jantar às 21:00 e acabava
às 22:00. Outros dias pensava que ia dormir até às 9:00 e às 6:00 já estava
acordado. Mudou muita coisa. Mas, acima de tudo, acho que recuperei bastante
bem e as coisas correram bem.
P:
Tiveste várias conversas com o Vingegaard. Sobre o que falavam? Qual era a
ideia?
R: Ele é uma pessoa muito
simples. Falámos de coisas normais da corrida, do nosso futuro, dos planos.
Falámos de ciclismo, da nutrição que usámos, fomos trocando ideias. Mas
falávamos de coisas gerais e, às vezes, em tom de brincadeira, eu estava na
luta com o Piganzoli pela branca e, por piada, dizia-lhe para pôr o Piganzoli a
trabalhar no início das etapas para me ajudar. Acima de tudo, tentámos estar
relaxados e ter conversas mais leves, não tão loucas.
P: O que
queria perceber é se na equipa já fica pré-acordado o tipo de táticas a usar.
Para ti é diferente em termos táticos e físicos teres a camisola de líder ou
ires ao trabalho de endurecer a corrida, como disseste antes. Fica tudo
preparado antes? Já sabes o que tens de fazer e mudar de um dia para o outro?
R: Claro que não estava
preparado para correr pela geral. Já tínhamos falado disso, mas sobretudo em
tom de brincadeira. Tentaram que eu corresse pela geral, mas nunca pensámos
verdadeiramente nisso, era um pouco a brincar. Claro que, ao perdermos o nosso
líder (Santiago Buitrago, ed.), as coisas mudaram e não estávamos preparados,
mas assim que o perdemos abriram-se oportunidades e falámos logo sobre isso.
Quais eram as etapas no início, porque ao princípio estávamos focados em
proteger o Santiago e, mais tarde, eu correria pelas minhas etapas, mas assim
que o perdemos abriram-se oportunidades e analisámos o percurso inicial e eu
disse à equipa que queria a etapa 5.
Era uma etapa que me assentava
muito bem e a equipa disse que sim. Analisámos tudo ao detalhe: a chegada, a
partida, toda a etapa, e ficámos muito focados nessa jornada, por isso fui
all-in. As coisas correram quase na perfeição para nós, só faltou a vitória de
etapa. E, claro, depois disso era impossível não tentar correr pela geral, dado
o tempo que eu tinha de vantagem.
Claro que não ia correr pela
vitória final, mentalmente, mas as coisas foram acontecendo e eu sabia que
estava pronto, não como no ano passado, porque desta vez fizemos tudo perfeito,
preparação ideal. Foi mais um “porque não”.
P: Foste
top 10 no Campeonato do Mundo 2025, foste campeão nacional sub-23 [no passado].
Pretendes voltar ao campeonato nacional de estrada?
R: Daqui a duas semanas vou
fazer a Volta à Suíça só para estar com o Lenny [Martínez] e o [Antonio]
Tiberi, para os apoiar. Esta semana vou parar, na próxima vou muito devagar e
depois faço a Suíça a 100% só para os ajudar. Vou chegar com atraso de forma,
apenas para os apoiar, e vou fazer essa corrida a pensar nos Nacionais, porque
acaba de forma mais agressiva e acho que me vai ajudar a chegar aos Nacionais.
E nos Nacionais vou fazer o
contrarrelógio. Sei que será muito difícil ganhar, quase impossível, mas serve
para treinar, porque treinar crono é complicado: nunca temos estradas fechadas,
não dá para treinar a 100%. Ter uma corrida contra o tempo, os Nacionais, é o
local ideal para um treino perfeito, porque simulamos competição com estradas
fechadas, carros, motos, tudo perfeito. Nos Nacionais vou tentar dar o meu
melhor, sabendo que não estou no meu auge, mas acho que posso fazer algo.
P: Como
reagiu a equipa às tuas prestações no Giro? Em algumas etapas queriam que
tivesses mais calma.
R: Vamos dizer que é a minha
forma de correr e os meus diretores e colegas estão a conhecer-me. Claro que
ficariam mais felizes se eu corresse de forma mais conservadora, mas já sabem
como gosto de competir, sabem que cometo erros em alguns momentos, que ataco,
mas é o meu estilo e nem sempre vai mudar. É um pouco como no dia da queda:
ataquei porque estava nos meus planos. Na minha cabeça, tinha tudo analisado, a
equipa não estava 100% de acordo porque nunca pensámos que a etapa voltasse [ao
pelotão].
Achávamos que voltaria, mas eu
já tinha estudado tudo; a equipa não pensava que viesse o grupo dos favoritos
disputar a etapa e as coisas acabaram assim. A equipa é, por vezes, mais calma,
mas é a minha maneira de correr: gosto muito de atacar; quando não tenho
pernas, não dá. Com o meu crescimento, acho que vou começar a acalmar um pouco.
P: Tinhas
noção da loucura que foi aquela etapa em que primeiro estavas atrás e depois
acabaste por atacar duas vezes (18ª etapa)?
R: Sim, essa etapa foi uma
loucura dentro do carro. Lembro-me de, quando estava a chegar aos carros e à
frente, ter o meu carro ali, eu ia na frente e tinha o carro à frente. Quando
os diretores chegaram, disseram-me para ter calma, que estava cheio de dores,
mas que estava bem, que não me forçasse, que só precisava de respirar um pouco
e estava outra vez na frente. O maior problema foi que a corrida foi muito
rápida, mas tive a equipa perfeita comigo e consegui chegar àquela subida final
para disputar a etapa. Claro, se me tivesse acalmado um pouco, estaria mais
feliz.
P:
Renovaste antes do Giro. Se só renovasses agora, não terias um contrato melhor?
R: Olha, já tinha renovado em
dezembro. Renovei há bastante tempo, as coisas já estavam alinhadas. Já tinha
tido muitas propostas no ano passado, no Campeonato do Mundo, e ficou assim.
Concordámos em continuar na equipa, porque as coisas estão a correr muito bem e
trabalham muito bem comigo. Acima de tudo, não me chateiam muito. Vamos
trabalhando passo a passo. Agora já me conhecem bem, sabem que cometo muitos
erros, que tenho muito para aprender, que estou bem fisicamente, acima de tudo.
Temos de trabalhar na
perfeição, fazer as coisas passo a passo, e não me exigem demasiado. Acho que
está tudo bem. Quanto ao contrato, acho que as coisas estão a alinhar-se para
ser melhorado e talvez acrescentar um ou dois anos, não sei, mas não estou muito
preocupado. A minha agência e a equipa tratam de tudo, informam-me e eu só digo
sim ou não.
P: Os
prémios, segundo o habitual das equipas, são distribuídos por todos e são
apenas 12 000 €. Tens algum prémio extra da equipa?
R: Nas equipas funciona assim:
partilhamos os prémios e não são só entre nós [corredores], também com o staff.
Partilhamos tudo e depois entre os ciclistas que estiveram na corrida. O
ciclista é basicamente mais um do staff e depois divide-se por todos. E sim,
acho que os prémios nem chegam a 10.000 € para cada um e, depois, claro, há
outros prémios.
Acho que teria mais a fazer,
mais criteriums, mas escolhemos ficar em casa e descansar. Claro que há mais
prémios, mas não ligo muito a isso.
P: Que
Grande Volta gostarias de fazer agora?
R: Na minha cabeça, e penso
que na da equipa, os planos vão mudar muito este ano. Vou focar-me nas
clássicas até ao fim do ano. Para o próximo ano, acho que vou fazer o Tour, uma
das melhores corridas do mundo. Nem todos querem fazê-lo, eu vou ao Tour 100%
tranquilo e vou tentar apoiar os meus líderes. Vou dar o meu melhor e, daqui a
dois anos, talvez faça o mesmo [que no Giro], mas estamos a falar de planos
para daqui a um e dois anos… Os planos mudam muito.
Este ano sei que vou às
clássicas no final da época, focado nas corridas de um dia, e vou continuar a
trabalhar. Vou continuar a trabalhar a alta montanha, talvez daqui a dois anos.
P: Estás
a pensar no Campeonato do Mundo?
R: Sim, no Campeonato da
Europa também… Vamos ver o que posso fazer com a equipa e a seleção. Sei que o
Mundial será no Canadá, depois das clássicas, por isso acho que vou conseguir
fazer ambos.
P:
Parabéns pelo sucesso no Giro e por todo o tempo de rosa. Como é que isso mudou
a tua carreira e também a tua vida? E como mudou a projeção da tua carreira
daqui para a frente?
R: O Giro é o Giro e, para
mim, nunca o vou esquecer. O futuro não me podem perguntar, porque não sei.
Vamos ver. Eu e a equipa continuamos a trabalhar, vamos dar o nosso melhor. Não
posso dizer qual será o meu futuro.
P: Essa é
a tua abordagem à vida? Em corrida procuras o melhor, mas aceitas o que
acontece?
R: Olha, vamos dar o nosso
melhor, continuar a trabalhar bem. Não sei, provavelmente vou mais motivado,
acredito mais em mim agora, e a equipa também acredita muito em mim.
Continuamos a trabalhar e veremos o meu futuro.
P: Sentes
que, desde que chegaste à maglia rosa e à maglia bianca, a tua vida mudou?
R: Olha, certamente mudou
algo. Neste momento não sinto tanto, gosto de estar calmo e relaxado, apenas
apreciar a vida. Veremos no futuro o que muda.
P:
Afonso, tive oportunidade de falar contigo e com os teus colegas em dezembro,
em Espanha, e um deles foi o Damiano Caruso. Vi o quão importante foi o papel
dele como mentor do Antonio Tiberi no ano passado e percebi a mesma evolução
contigo ao longo deste Giro. Que desenvolvimento teve a vossa relação durante a
corrida?
R: Acho que durante a corrida
nada mudou porque estamos juntos há quase dois anos. No ano passado fiz mais de
metade do meu calendário com ele. E este ano, meia época juntos. Passei mais
tempo com ele do que com a minha família, por isso não mudou nada. Continuámos
a fazer o que fazíamos, a desfrutar da vida, a correr juntos e, acima de tudo,
eu já tinha preparado o Giro com ele. Já tínhamos corrido nos EAU juntos, já
tinha estado com ele a preparar o Giro; na etapa antes da [etapa 5] e depois
estivemos basicamente a preparar tudo na perfeição, em conjunto, e acho que
preparámos mesmo bem. Porque às vezes acabavam por correr de forma quase
perfeita para nós.
P: Em que
momentos da corrida sentiste que a presença dele foi mais importante?
R: Principalmente nas subidas,
quando eu estava um pouco sozinho. Isso muda muito, não só pelo sofrimento, mas
porque, se estás sozinho a meio de uma subida, é mau para a cabeça, sentes que
vais perder tudo, e tê-lo ao meu lado ajudava-me muito a aguentar. Mas, claro,
durante toda a corrida, nos momentos de mais tensão, quando estamos a lutar
pela posição… Depende, em muitos momentos: na leitura da corrida, quando ele
vai para a fuga…
Não é só por causa dele; para
mim, são coisas que mudam bastante o rumo da corrida. Nas nossas provas, não é
só chegar à última subida e dar o máximo. Há muitos momentos importantes,
chaves, e temos de estar à frente nesses pontos. Tê-lo ali ajuda-me e facilita
o meu trabalho. Estar à frente com ele torna o meu trabalho mais simples.
P: Há
menos de dois anos lideravas a Volta a Portugal. Alguma vez pensaste que, dois
anos depois, estarias nove dias de rosa no Giro?
R: Quando liderava a Volta a
Portugal nunca imaginei isso, porque nunca imaginei ir para o World Tour.
Durante a Volta, o meu agente disse-me que já havia equipas interessadas, mas
nunca imaginei que fosse uma equipa World Tour. Pensei numa Pro Continental ou
numa espanhola. Quando me falaram do World Tour, pensei: como é possível? Nunca
imaginei, porque não imaginava correr no World Tour, por isso era impossível
imaginar, vestir a rosa e acabar com a branca no Giro.
P: O teu
resultado dá esperança aos ciclistas da Volta a Portugal, porque foste dos
poucos, nas últimas duas décadas, a sair de equipas continentais para o
estrangeiro. Acreditas que isso envia uma mensagem de esperança aos ciclistas
da Volta a Portugal?
R: O que complica muito a vida
aos ciclistas da Volta a Portugal é que quase não corremos fora. As equipas
portuguesas fazem corridas internacionais, mas quase todas dentro do país, e
não mostramos o nosso valor. Tive sorte no meu ano, porque acabámos por correr
pela seleção quando era sub-23, e no ano seguinte a Feirense fez o esforço de
dividir a equipa: quando havia corridas em Portugal, dividíamos e íamos correr
em Espanha.
Fizemos algumas provas
internacionais importantes e eu consegui dar nas vistas nessas corridas,
fechando top 10 em internacionais fora de Portugal. Acho que foi isso que me
permitiu sair, e a Feirense ajudou-me muito, porque a equipa se dividiu e fez
um grande esforço para competir fora. Neste momento, o que não ajuda as nossas
equipas é termos calendários muito centrados em Portugal. Torna-se difícil
correr fora e, assim, é complicado mostrar o nosso valor fora do país.
P: O que
aprendeste nessas 3 semanas de Giro? Que bons e maus momentos te deu como
pessoa, ser humano e, principalmente, como ciclista?
R: Como ciclista, aprendi que
ainda não estou pronto para um pódio. O nível ainda está um pouco acima e não
sei… tenho de ganhar experiência, ser mais calmo. Acho que as coisas que se
aprendem no alto nível são detalhes que fazemos durante a corrida e que, no
futuro, me vão fazer correr de forma diferente. Mas acontece de forma natural:
não se diz, o corpo é que aprende.
P: Qual
foi a importância da experiência da Volta a Portugal 2024 nesta luta pelo top
10?
R: Olha, no pós-corrida foi
relativamente semelhante: pódio, entrevistas, controlo, e lembro-me de chegar
ao hotel e ser exatamente igual. Quando cheguei, os colegas já jantavam. Foi um
pouco assim, mas acho que em ambos os momentos estive completamente calmo.
Durante a corrida não dá para comparar, é muito diferente em termos de nível.
Claro que na Volta também há nível, mas o pelotão tem 90 ou 80 corredores, 20
descolam e fica 50, 60…
E no World Tour são 150 ou
mais. E são 150 a querer estar na frente em todos os momentos. As formas de
correr são muito diferentes entre a Volta a Portugal e o Giro.

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