Por: José Morais
O português Iúri Leitão, de 27
anos, nunca ousou sonhar com a presença na Volta a França. Mas o cenário mudou
de forma inesperada. Com a confirmação da espanhola Caja Rural–Seguros RGA como
uma das equipas convidadas para a 113.ª edição da Volta a França, o ciclista
vianense admite que a possibilidade de alinhar na mais mediática corrida do
mundo o deixa entusiasmado ainda que com os pés bem assentes na terra.
“Nunca foi um sonho, porque
nunca sequer cogitei que isso pudesse acontecer. A notícia caiu um bocado do
ar. Ninguém estava à espera, nem a própria equipa. E, de repente, é uma
possibilidade”, confessou.
A estreia da formação
espanhola na mais icónica prova do calendário mundial foi anunciada a 30 de
janeiro pela organização francesa, abrindo um leque de hipóteses para os 26
corredores do plantel. Mas apenas oitos terão lugar à partida da chamada
‘Grande Boucle’.
“Claro que os 26 querem ir e
só podem ir oito. É sempre difícil prever. Depende da minha capacidade, das
decisões da equipa e dos objetivos traçados”, sublinha o corredor natural de
Viana do Castelo.
“É todo
um espetáculo”
Para Leitão, o Tour representa
muito mais do que uma simples corrida. “É uma prova que todos nós vemos desde
pequenos. Brilham-nos os olhos ao ver as montanhas, os grandes sprinters a
discutir etapas, a camisola amarela, a camisola verde… enfim, é todo um
espetáculo.”
A experiência recente na
Paris–Nice considerada por muitos um “mini Tour” reforçou-lhe essa perceção.
“Já foi uma experiência fantástica”, recorda.
Contudo, a filosofia da Caja
Rural tem privilegiado, nos últimos anos, os trepadores em detrimento dos
sprinters. Um fator que pode pesar nas escolhas finais. Ainda assim, o cenário
pode estar a mudar.
“Temos dois bons sprinters
este ano, pode ser que isso altere um pouco a abordagem. Está tudo em aberto.
Resta-me trabalhar e esperar pela oportunidade.”
Trabalho
de equipa acima de tudo
Caso seja chamado para a Volta
a França e tenha de desempenhar funções de apoio ao colombiano Fernando
Gaviria, um dos nomes mais sonantes do sprint internacional, Leitão garante
total compromisso.
“Estamos aqui para representar
a equipa e cumprir ordens. Se me disserem para trabalhar para o Gaviria, não é
vergonha nenhuma. Estamos a falar de um dos melhores sprinters da história.
Nunca me negarei a trabalhar. Claro que, se puder ter a minha oportunidade,
ficarei muito contente.”
Confiança
reforçada na pista
Enquanto o calendário de
estrada não está totalmente definido, o português apresenta-se motivado pelos
resultados recentes nos Europeus de pista, onde se sagrou campeão no omnium e
vice-campeão no madison, ao lado de Diogo Narciso.
Leitão, que fez história ao
tornar-se o primeiro português a conquistar duas medalhas na mesma edição dos
Jogos Olímpicos, em Jogos Olímpicos de Paris 2024 ouro no madison com Rui
Oliveira e prata no omnium acredita que o trabalho de inverno está a dar frutos.
“Os resultados do início da
temporada são reflexo da preparação. As sensações têm sido boas e espero que se
traduzam em bons desempenhos.”
Algarve,
o regresso às etapas
Nos bastidores da Volta ao
Algarve, a sua primeira corrida por etapas desde a última Volta a Portugal,
Leitão destacou o “charme especial” deste tipo de provas.
“Sou mais adepto das
clássicas, mas as provas por etapas trazem imprevisibilidade e são mais
completas. Têm uma beleza própria.”
Entre a prudência e a ambição,
Iúri Leitão mantém o foco no trabalho diário. O sonho pode nunca ter sido
assumido, mas agora que o Tour está no horizonte, a possibilidade é real. E no
ciclismo, como na vida, as oportunidades inesperadas são muitas vezes as que
fazem história.

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