Por: Miguel Marques
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O Paris-Roubaix Feminino
ofereceu o habitual espetáculo de dureza e caos, mas a edição deste ano teve um
peso emocional adicional. Pauline Ferrand-Prévot alinhou com um propósito que
ia além da competição: apoiar Marianne Vos após o recente falecimento do pai,
Henk.
A francesa deixou essa
intenção clara antes da partida. “Quando soube que o Henk tinha falecido,
liguei imediatamente à equipa e disse que queria fazer Roubaix pela Marianne.
Para a apoiar e ajudá-la neste período difícil”, contou à domestique. A motivação
era profundamente pessoal: “Sabia que era um sonho para ela vencer e queria que
ela ganhasse pelo pai”.
O vínculo de Ferrand-Prévot
com a família Vos vem de longe, dando ainda mais significado ao gesto. “Tenho
memórias muito calorosas da família Vos. Quando me tornei profissional na
Rabobank, tinha 18 anos e passei todo o inverno numa autocaravana com a família
Vos. O Henk a conduzir a autocaravana, a mãe dela a fazer bolonhesa… Guardo
recordações tão boas deles”.
Para ela, a corrida tornou-se
também um momento de despedida. “Hoje foi também uma forma de dizer adeus e
agradecer-lhe. Por isso queria que a Marianne ganhasse. Não resultou, mas demos
tudo e acho que ele teria orgulho”.
Dinâmica
de corrida e momentos decisivos
Na estrada, a prova começou a
ganhar forma após Mons-en-Pévèle, quando Ferrand-Prévot desferiu um ataque
chave. Vos, Koch e Blanka Vas juntaram-se na frente, formando o grupo que
acabaria por decidir a corrida. Vas cedeu mais tarde, deixando um duelo a três
rumo a Roubaix.
Em inferioridade numérica,
Koch manteve a calma e a lucidez tática. Percebeu cedo que a corrida se
desenrolava a seu favor. “Antes dos setores de empedrado foi mesmo guerra, mas
enquanto equipa estivemos sempre bem colocadas e fora de problemas. No empedrado
andei sempre nas dez primeiras”, explicou à cyclingnews.
A situação na frente jogou na
perfeição a seu favor. “Queríamos endurecer a corrida. Acabámos por ficar no
grupo perfeito. É sempre um desafio quando tens duas corredoras da mesma equipa
na frente, mas por outro lado também foi uma vantagem porque deixei de ter de
trabalhar”.
Um sprint
decidido por margens
No icónico velódromo de
Roubaix, tudo se resumiu ao timing e às forças remanescentes. Vos, conhecida
pela sua rapidez final, tentou ultrapassar Koch, mas a alemã encontrou uma
aceleração extra no momento crucial.
“Senti-a a chegar, mas por
sorte consegui acelerar um pouco mais”, disse Koch na entrevista pós-corrida.
Ainda a digerir o resultado, acrescentou: “Custa um pouco a acreditar. Sonhei
com isto, tinha muita esperança que resultasse, mas Roubaix é uma corrida onde
tudo pode acontecer. Que no fim tenha dado certo é um sonho”.
Vos, por seu lado, foi franca
quanto às limitações após um período emocional e fisicamente exigente. “Estou
desapontada por não ter conseguido finalizar para a equipa”, admitiu. “Tem sido
um período duro, mas tentei manter-me o mais em forma possível. Fisicamente não
era o ideal, mas estou muito feliz por poder estar aqui. O apoio da equipa
deu-me motivação extra hoje”.
Nos metros finais, percebeu
que faltava algo. “No sprint senti que me faltava e não tinha a velocidade para
bater a Koch. Podemos sempre ajustar o sprint, mas não sei se teria sido
melhor. Simplesmente não consegui fazer velocidade suficiente”.
Reflexão
e reconhecimento
A opção tática de guardar
energia para o sprint acabou por falhar. “Foi uma decisão consciente não o
fazer, para poupar as pernas para o sprint. Mas, no fim, continuou a não ser
suficiente”, explicou Vos.
Destacou ainda a entrega de
Ferrand-Prévot, sublinhando o espírito de equipa por trás do esforço. “Essa foi
uma decisão da Pauline. Ela esteve mesmo totalmente por mim. Estou muito grata
pela sua dedicação e ajuda. Isso é uma razão extra, por isso sinto-me um pouco
em falta para com a equipa e para com ela. Mas foi a primeira a dizer que
devíamos estar orgulhosas do que fizemos, por isso vou tentar ver as coisas
assim também”.
Ao revisitar o sprint, Vos
refletiu sobre os detalhes e a experiência envolvidos. “Talvez, em
retrospetiva, devêssemos ter feito as coisas de forma diferente, mas também já
comecei o meu sprint demasiado cedo aqui [no passado]. Todos os anos se
aprende”, sustentou. “Claro que não é um sprint normal. É depois de uma corrida
dura, depois destes setores de empedrado. Ganha quem tem as melhores pernas.
Hoje não fui eu”.
Na derrota, foi rápida a
creditar a vencedora. “Também é importante reconhecer o quão forte ela esteve.
Acho que ela própria percebeu isso”, notou Vos. “Ela atacou na última parte a
subir, deixou a Pauline para trás e depois fez uma finalização incrível. Hoje
vimos uma ciclista fantástica vencer a Paris-Roubaix”.
Num dia brutal no norte de
França, Koch levou a vitória, mas a corrida ficará também na memória pela sua
humanidade, trabalho de equipa e silenciosos gestos de lealdade no pelotão.

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