Por: Ivan Silva
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O ciclismo francês esperou
décadas por um corredor capaz de redefinir as suas ambições nas Grandes Voltas.
Após uma tarde extraordinária nas colinas da Ardèche, há quem acredite que a
espera pode, enfim, ter terminado.
O ex-profissional Jérôme
Pineau não conteve o entusiasmo ao comentar a mais recente exibição de Paul
Seixas, cuja vitória autoritária na Faun-Ardèche Classic reacendeu antigas
esperanças num novo campeão francês.
Em declarações ao Super
Moscato Show da RMC, Pineau foi ao ponto de situar o jovem de 19 anos num
contexto histórico raramente invocado no ciclismo francês moderno.
“Desde Bernard Hinault, nenhum
francês tem dominado as corridas como o Paul Seixas começa a fazer. Sobretudo
com esta idade”, proclamou Pineau.
Uma
exibição que mudou o tom da conversa
A dimensão do triunfo de
Seixas na Ardèche explica a intensidade da reação. Atacando de forma decisiva
no final, o corredor da Decathlon CMA CGM Team afastou os rivais um a um antes
de cortar a meta com quase dois minutos de vantagem sobre um trio perseguidor
com Jan Christen, Lenny Martinez e Matteo Jorgenson.
Para Pineau, a impressão
deixada foi além das diferenças registadas na estrada.
“Acho que no sábado todos
sentimos que tínhamos assistido a algo excecional e histórico”, disse. “Foi a
primeira vez que estávamos realmente à espera dele e queríamos ver o que faria
contra ‘os outros’, ou seja, corredores fora do patamar Pogacar, Evenepoel e
Vingegaard.”
A força da start list apenas
reforçou o significado da performance aos seus olhos. “Havia um vencedor da
Amstel Gold Race, um bicampeão da Paris-Nice… e ele humilhou-os. Humilhou-os.”
Um padrão
familiar em formação
O que mais impressionou Pineau
não foi só o ataque de Seixas, mas a clareza com que o jovem francês o
executou.
“Atacou como o Tadej Pogacar.
Explicou a sua corrida antes e foi cristalino. Quis fazer aquilo, e fez. Os
outros não tiveram hipótese. Foram encostando, um a um.”
A descrição ecoa um padrão já
visível no arranque da carreira profissional de Seixas. Do pódio no Campeonato
da Europa ao top 10 no Il Lombardia e ao recente segundo lugar geral na Volta
ao Algarve, a trajetória tem sido sempre ascendente.
Mesmo em corridas muito além
da distância de uma clássica de um dia como a Ardèche, Pineau acredita que
Seixas já mostrou que consegue resistir entre os melhores.
“Dizem que é preciso vê-lo em
corridas com mais de 260 quilómetros. Mas no ano passado, com apenas 18 anos e
meio, o Il Lombardia teve 277 quilómetros e ele foi dos poucos que conseguiu
responder ao ataque do Pogacar.”
O mesmo padrão apareceu no UCI
Road World Championships em Kigali.
“No Campeonato do Mundo também
foi dos únicos a tentar seguir o Pogacar”, acrescentou Pineau. “Nunca vimos
isto em França. Nunca o vimos com os nossos próprios olhos no ciclismo
moderno.”
A longa
espera de França por um candidato ao Tour
Declarações assim conduzem
inevitavelmente à pergunta que os adeptos franceses fazem desde a era de
Bernard Hinault: poderá um francês voltar a vencer a Volta a França?
O triunfo de Hinault em 1985
continua a ser a última vez que um francês subiu ao topo do pódio do Tour.
Vários ameaçaram intrometer-se desde então, mas nenhum dominou como o cinco
vezes vencedor o fez.
Para Pineau, Seixas tem os
atributos para, pelo menos, entrar nessa conversa. “Agora a questão é no que se
vai tornar”, refletiu. “Mas sente-se que está confortável na sua pele, tem uma
equipa muito forte, sabe o que quer e lida muito bem com a pressão.”
Essas qualidades, acredita,
poderão levá-lo ao patamar mais alto da modalidade. “Vai tornar-se no que está
destinado a ser: um dos melhores corredores da sua geração, atrás desses
monstros.”
Uma nova
geração a ganhar forma
Seixas entra num pelotão ainda
moldado por figuras extraordinárias como Tadej Pogacar, Remco Evenepoel, Jonas
Vingegaard e Mathieu van der Poel.
Ainda assim, Pineau acredita
que a progressão de Seixas o colocará em breve firmemente nessa conversa da
elite. “Muito rapidamente, vamos esperar que o Paul Seixas lute pelo pódio e
depois pela vitória na Volta a França. É óbvio.”
Num país que se tornou
prudente ao proclamar cedo demais o próximo grande campeão, tal confiança é
invulgar. O próprio Pineau reconheceu que, em França, há relutância em abraçar
previsões ousadas.
“Se ele fosse espanhol ou
italiano, provavelmente já se diria ainda mais sobre ele”, afirmou.
Se as expectativas se
confirmarão, resta saber. Mas, pela primeira vez em muitos anos, a conversa em
torno de um candidato francês ao Tour soa diferente.
E, com apenas 19 anos, Paul
Seixas já se colocou no centro dela.

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