sexta-feira, 6 de março de 2026

“Chamaram uma ambulância porque eu tinha entrado em coma” Como Kim Le Court passou de 10% de probabilidades de sobreviver ao topo do ciclismo feminino”


Por: Ivan Silva

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A ascensão de Kim Le Court ao topo do ciclismo feminino levoua das etapas de BTT na África do Sul a vitórias nas maiores corridas da modalidade. Mas muito antes de se tornar uma das ciclistas mais reconhecidas no World Tour Feminino, a sua história quase terminou antes de começar.

A ciclista mauriciana revelou no podcast Radio Peloton que uma luta de infância contra a malária deixou os médicos a temer o pior, depois de uma série de erros de diagnóstico que permitiram à doença sair de controlo.

“Foi aí que apanhei malária”, explicou Le Court, recordando a mudança, em criança, da África do Sul para Madagáscar, que rapidamente passou de aventura a crise.

A doença acabaria por deixála a lutar pela vida.

 

Um diagnóstico que chegou 'quase tarde demais'

 

Quando Le Court regressou a França, a gravidade da doença passou inicialmente despercebida. Médicos, pouco familiarizados com a patologia tropical, julgaram que os sintomas eram muito menos sérios. “Lá, disseram que era só gripe”, recordou.

O erro revelouse crítico. Duas vezes foi mandada para casa enquanto o estado se agravava, até a situação atingir o ponto de rutura. “Já não conseguia andar. Uma ambulância teve de vir buscarme porque eu tinha entrado em coma.”

Só quando os médicos perceberam que tinha estado recentemente em Madagáscar surgiu o verdadeiro diagnóstico. Nessa altura, o prognóstico era sombrio. Le Court recebeu apenas dez por cento de hipóteses de sobrevivência.

A família foi forçada a prepararse para a possibilidade de que não recuperasse.

Numa última tentativa de salvar a vida, os médicos obtiveram em Madagáscar uma medicação arriscada. O tratamento não funcionava com todos, e o pai de Le Court teve de assinar uma declaração assumindo total responsabilidade antes de ser administrado. “Chamaram o meu irmão e disseramlhe que devia ir despedirse de mim”, lembrou Le Court.

 

Um momento que antecipou a futura ciclista

 

Na manhã seguinte, aconteceu o inesperado.

Depois de receber o tratamento, Le Court acordou no corredor do hospital, numa cena que, em retrospetiva, parece quase surreal. “Na manhã seguinte, acordei numa bicicleta no corredor do hospital. O que me lembro é que tinha um soro na veia, mas tinha de manter o braço esticado enquanto estava na bicicleta.”

Foi um momento que hoje soa estranhamente simbólico, tendo em conta a carreira que se seguiu.

Na altura, no entanto, a experiência marcou sobretudo a família. “Foi um período muito difícil para os meus pais e para o meu irmão. Eles lembramse de tudo. Eu ainda era jovem.”

 

De origens improváveis ao World Tour

 

O caminho de Le Court para o ciclismo profissional esteve longe de ser linear.

Nascida na África do Sul e criada em parte nas Maurícias, cresceu fora dos corredores tradicionais que alimentam o pelotão europeu. As primeiras tentativas de afirmação na Europa, a meio da última década, foram difíceis, e a carreira afastouse temporariamente da estrada.

Em alternativa, construiu reputação no BTT, onde a endurance e a técnica se tornaram marcas distintivas. O ponto de viragem chegou com a vitória na Cape Epic em 2023, uma das mais prestigiadas corridas por etapas da modalidade.

Esse sucesso ajudou a reabrir a porta do ciclismo de estrada.

Um ano depois, garantiu contrato com a AG Insurance - Soudal Team, e o impacto foi imediato. Le Court rapidamente mostrou capacidade para competir ao mais alto nível do Women’s WorldTour, somando vitórias e exibições de afirmação que elevaram o seu perfil no pelotão.

Os resultados, entretanto, consolidaram a reputação de uma das ciclistas mais entusiasmantes a surgir fora dos redutos tradicionais do ciclismo, uma atleta mauriciana capaz de desafiar as potências europeias estabelecidas.

Perspetiva após a sobrevivência

Hoje, a história que começou com uma emergência médica em criança faz parte da identidade que molda a carreira de Le Court.

O episódio deixou marcas na família, mas também serviu de lembrete de quão improvável tem sido a sua trajetória desportiva.

Agora, consegue olhar para a experiência com algum distanciamento e até humor. “Entretanto, deixei de ser picada por mosquitos.”

Para uma ciclista que um dia teve apenas dez por cento de hipóteses de sobreviver, chegar ao topo do ciclismo profissional representa um regresso que poucos poderiam imaginar.

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