Por: Ivan Silva
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A ascensão de Kim Le Court ao
topo do ciclismo feminino levou‑a das
etapas de BTT na África do Sul a vitórias nas maiores corridas da modalidade.
Mas muito antes de se tornar uma das ciclistas mais reconhecidas no World Tour
Feminino, a sua história quase terminou antes de começar.
A ciclista mauriciana revelou
no podcast Radio Peloton que uma luta de infância contra a malária deixou os
médicos a temer o pior, depois de uma série de erros de diagnóstico que
permitiram à doença sair de controlo.
“Foi aí que apanhei malária”,
explicou Le Court, recordando a mudança, em criança, da África do Sul para
Madagáscar, que rapidamente passou de aventura a crise.
A doença acabaria por deixá‑la a lutar pela vida.
Um
diagnóstico que chegou 'quase tarde demais'
Quando Le Court regressou a
França, a gravidade da doença passou inicialmente despercebida. Médicos, pouco
familiarizados com a patologia tropical, julgaram que os sintomas eram muito
menos sérios. “Lá, disseram que era só gripe”, recordou.
O erro revelou‑se crítico. Duas vezes foi
mandada para casa enquanto o estado se agravava, até a situação atingir o ponto
de rutura. “Já não conseguia andar. Uma ambulância teve de vir buscar‑me porque eu tinha entrado em
coma.”
Só quando os médicos
perceberam que tinha estado recentemente em Madagáscar surgiu o verdadeiro
diagnóstico. Nessa altura, o prognóstico era sombrio. Le Court recebeu apenas
dez por cento de hipóteses de sobrevivência.
A família foi forçada a
preparar‑se para a possibilidade de que
não recuperasse.
Numa última tentativa de
salvar a vida, os médicos obtiveram em Madagáscar uma medicação arriscada. O
tratamento não funcionava com todos, e o pai de Le Court teve de assinar uma
declaração assumindo total responsabilidade antes de ser administrado. “Chamaram
o meu irmão e disseram‑lhe
que devia ir despedir‑se de
mim”, lembrou Le Court.
Um
momento que antecipou a futura ciclista
Na manhã seguinte, aconteceu o
inesperado.
Depois de receber o
tratamento, Le Court acordou no corredor do hospital, numa cena que, em
retrospetiva, parece quase surreal. “Na manhã seguinte, acordei numa bicicleta
no corredor do hospital. O que me lembro é que tinha um soro na veia, mas tinha
de manter o braço esticado enquanto estava na bicicleta.”
Foi um momento que hoje soa
estranhamente simbólico, tendo em conta a carreira que se seguiu.
Na altura, no entanto, a
experiência marcou sobretudo a família. “Foi um período muito difícil para os
meus pais e para o meu irmão. Eles lembram‑se de
tudo. Eu ainda era jovem.”
De
origens improváveis ao World Tour
O caminho de Le Court para o
ciclismo profissional esteve longe de ser linear.
Nascida na África do Sul e
criada em parte nas Maurícias, cresceu fora dos corredores tradicionais que
alimentam o pelotão europeu. As primeiras tentativas de afirmação na Europa, a
meio da última década, foram difíceis, e a carreira afastou‑se temporariamente da estrada.
Em alternativa, construiu
reputação no BTT, onde a endurance e a técnica se tornaram marcas distintivas.
O ponto de viragem chegou com a vitória na Cape Epic em 2023, uma das mais
prestigiadas corridas por etapas da modalidade.
Esse sucesso ajudou a reabrir
a porta do ciclismo de estrada.
Um ano depois, garantiu
contrato com a AG Insurance - Soudal Team, e o impacto foi imediato. Le Court
rapidamente mostrou capacidade para competir ao mais alto nível do Women’s
WorldTour, somando vitórias e exibições de afirmação que elevaram o seu perfil
no pelotão.
Os resultados, entretanto,
consolidaram a reputação de uma das ciclistas mais entusiasmantes a surgir fora
dos redutos tradicionais do ciclismo, uma atleta mauriciana capaz de desafiar
as potências europeias estabelecidas.
Perspetiva após a
sobrevivência
Hoje, a história que começou
com uma emergência médica em criança faz parte da identidade que molda a
carreira de Le Court.
O episódio deixou marcas na
família, mas também serviu de lembrete de quão improvável tem sido a sua
trajetória desportiva.
Agora, consegue olhar para a
experiência com algum distanciamento e até humor. “Entretanto, deixei de ser
picada por mosquitos.”
Para uma ciclista que um dia
teve apenas dez por cento de hipóteses de sobreviver, chegar ao topo do
ciclismo profissional representa um regresso que poucos poderiam imaginar.

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