Por: Ivan Silva
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Num ciclismo cada vez mais
dominado por dados, medições fisiológicas e análise de desempenho, Axel Merckx
continua a defender que as bases da modalidade permanecem surpreendentemente
simples.
No estágio de pré-época da sua
equipa em Itália, o belga falou sobre a formação de jovens ciclistas, a
evolução do ciclismo moderno e os princípios que guiam o seu trabalho como
líder da Hagens Berman Jayco, a equipa de desenvolvimento da Team Jayco AlUla.
Filho do lendário Eddy Merckx,
Axel construiu uma carreira sólida no pelotão internacional, destacada por uma
vitória em etapa na Volta a Itália e participações competitivas nas Clássicas e
nas Grandes Voltas.
Depois de terminar a carreira,
escolheu dedicar-se à formação de jovens talentos, um caminho que o levou a
descobrir e orientar ciclistas que mais tarde se tornaram figuras de topo do
ciclismo mundial como João Almeida, Jasper Philipsen, Tao Geoghegan Hart, entre
muitos outros.
Estágio
em Itália é como estar em família
Hoje, a sua equipa sub-23 é
considerada uma das estruturas mais eficazes na promoção de jovens corredores.
Mais do que resultados imediatos, Merckx acredita que o verdadeiro trabalho
está no desenvolvimento global do atleta.
“Para mim, o lado desportivo é
muito importante, mas o lado humano é ainda mais importante”, explicou ao
Cyclingpro.net. “Entre os 18 e os 22 anos há um momento decisivo na carreira de
um ciclista. É aí que decide se quer mesmo tornar-se profissional e se está
preparado para o estilo de vida que isso exige.”
Essa filosofia também explica
a escolha de Itália para o estágio de preparação da equipa. O ex-ciclista
conhece bem o país, que foi igualmente base de treino durante a sua carreira
profissional.
“Vim cá muitas vezes como
ciclista e sentia-me sempre bem”, recorda. “Quando iniciámos a equipa sub-23,
voltámos à Europa e decidimos voltar a fazer aqui os estágios. Há um ambiente
muito familiar, as estradas são excelentes e, normalmente, temos boas condições
meteorológicas.”
Merckx acrescenta ainda que o
clima ameno da região oferece uma vantagem estratégica no arranque da
temporada.
“No início do ano é até
positivo que não esteja demasiado calor. Mais tarde, quando os corredores
regressam ao norte para as Clássicas, onde está mais frio, a mudança de
temperatura não é tão drástica. E além disso, aqui come-se bem, dorme-se bem e
treina-se bem.”
O nível
subiu de forma significativa
Ao longo de mais de quinze
anos a trabalhar com jovens, o belga testemunhou uma transformação profunda na
forma como os atletas chegam ao pelotão profissional. Segundo Merckx, essa
evolução começa no escalão júnior.
“Nos últimos cinco anos, a
categoria júnior praticamente atingiu o nível que a sub-23 tinha há dez anos”,
explica. “Os jovens chegam muito mais preparados, mais estruturados e com uma
base física já muito sólida.”
Essa evolução reflete-se
também na estrutura das equipas de desenvolvimento. Quando lançou o projeto, a
realidade era muito diferente da atual.
“Quando começámos, não havia
nutricionistas, cozinheiros ou treinadores dedicados. Havia o diretor
desportivo, um soigneur, um mecânico e os ciclistas”, recorda. “Hoje existe
toda uma equipa a trabalhar em torno da performance e do desenvolvimento do atleta.”
Apesar desta
profissionalização crescente, Merckx procura manter um equilíbrio entre a
ciência e a dimensão humana dentro da equipa.
“A abordagem tornou-se muito
mais científica, isso é inevitável”, reconhece. “Mas tentamos sempre preservar
um ambiente humano dentro da equipa. No fim do dia trabalhamos com pessoas, não
apenas com números.”
A parceria com a Team Jayco
AlUla, criada para reforçar a ligação entre a equipa sub-23 e o World Tour,
também ajudou a elevar o nível da estrutura.
“Desde o início passámos a ter
acesso a um nutricionista e reforçámos parcerias com patrocinadores como a
Giant”, explica. “Além disso, a Jayco ajuda-nos nas deslocações às corridas e
em estágios adicionais, incluindo estágios em altitude sempre que possível.”
Para Merckx, esta colaboração
tem sido benéfica para ambos os lados, sobretudo porque a sua equipa já tinha
larga experiência na formação de jovens corredores.
“Hoje em dia quase todas as
equipas World Tour precisam de uma equipa sub-23 associada. Não é fácil começar
do zero. Para a Jayco foi positivo encontrar uma estrutura com experiência e,
para nós, foi também uma oportunidade de crescer.”
Os
segredos? Comer, dormir e treinar
Apesar de todas as mudanças
tecnológicas e científicas no ciclismo moderno, o belga insiste que o alicerce
da modalidade permanece quase o mesmo da era do pai.
“O ciclismo mudou muito e
tornou-se muito mais científico”, admite. “Mas as bases continuam iguais:
dormir bem, comer bem e treinar bem.”
Segundo Merckx, estes três
elementos continuam a ser a pedra angular do sucesso no ciclismo profissional.
“Se fizeres bem essas três
coisas, já tens cerca de 90% do que é preciso para ser um bom ciclista”, diz.
“Depois, quando sobes de nível, procuras aquele um ou dois por cento extra
através do equipamento, estágios em altitude ou outros pormenores.”
Na gestão da equipa, o diretor
desportivo prefere evitar uma hierarquia rígida entre os ciclistas.
“Não trabalhamos com líderes
fixos”, explica. “Somos uma equipa de 13 corredores, o que significa 13
oportunidades.”
Naturalmente, alguns atletas
têm mais experiência ou resultados, mas Merckx prefere avaliar cada corrida
individualmente.
“Em certas provas podemos
apostar mais num corredor, mas gosto de dar a todos a oportunidade de lutar por
um resultado quando alinham à partida.”
No plantel estão também três
italianos: Riccardo Colombo, Giacomo Serangeli e Mattia Sambinello.
“O Mattia já esteve connosco
no ano passado e evoluiu muito”, explica Merckx. “No primeiro ano sofreu uma
queda, mas depois ficou muito mais rápido.”
Quanto aos dois novos
italianos, o responsável da equipa prefere adotar uma abordagem cautelosa.
“O Riccardo e o Giacomo foram
muito fortes como juniores e têm muito potencial”, diz. “Agora precisam de
tempo para se adaptarem à categoria sub-23. O talento está lá, mas é preciso
trabalhar e veremos como evoluem corrida após corrida.”
Next G é
o alvo
Questionado sobre os
principais objetivos para a época, Merckx não hesita em destacar uma corrida em
particular.
“Para mim e para a equipa, a
Volta a Itália Sub-23 sempre foi uma prova muito especial”, revela.
A equipa já alcançou
resultados importantes neste evento, incluindo a vitória final em 2022 com Leo
Hayter.
“No ano passado também
ganhámos uma etapa, por isso queremos voltar a lutar por um grande resultado”,
diz. “É uma corrida fantástica e esperamos estar prontos à partida e conseguir
algo importante para a equipa e para o futuro dos nossos corredores.”
Para Axel Merckx, num ciclismo
cada vez mais complexo e tecnológico, a missão mantém-se relativamente simples:
ajudar jovens corredores a tornarem-se melhores atletas, sem esquecer que o
sucesso começa sempre pelo básico.

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