Por: Ivan Silva
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Christian Prudhomme, diretor
da Volta a França, vai comandar as operações pela 19.ª vez no próximo verão.
Entre críticas e debates recorrentes sobre o rumo da corrida, o francês de 65
anos, nascido em Paris, deu uma entrevista à Eurosport. Do acesso do público
aos contrarrelógios às finanças das equipas, o diretor abordou vários temas
sensíveis em torno da maior corrida do ciclismo.
Um dos principais tópicos foi
a ideia de introduzir zonas de acesso pago em determinadas etapas. Prudhomme
foi claro ao afirmar que tal medida iria contra o próprio ADN do evento.
“Rio-me, mas, na verdade,
assusta-me. É olhar para o ciclismo pelo lado errado do telescópio. Sabem qual
é a primeira razão pela qual os autarcas querem uma etapa da Volta a França,
Paris–Nice ou da Tour Auvergne Rhône-Alpes? É porque é gratuito. E há gente no
pequeno mundo do ciclismo que gostaria que funcionasse como o futebol ou o
râguebi…”
Pagar
para ver passar a caravana?
Reforçou a sua posição
sublinhando que a corrida pertence às estradas públicas e às pessoas que as
ladeiam todos os meses de julho.
“Estamos em estradas que não
nos pertencem e nunca nos pertencerão. A Volta a França dos meus sonhos é a
Volta a França que passa à porta de minha casa. Para mim, seria heresia,
heresia absoluta, cobrar às pessoas.”
Para ilustrar o ponto,
comparou o ciclismo de estrada com o ciclocrosse, disciplina onde os
espectadores frequentemente pagam para assistir.
“Vejo o sucesso do
ciclocrosse, o oitavo título de Mathieu van der Poel, as multidões, etc. Sim,
na Bélgica, sim, nos Países Baixos, é um enorme sucesso. Não necessariamente
noutros locais. Nas estradas da Volta a França, o princípio é o acesso livre.
Pelo menos comigo, será sempre assim. Não se pode agir como se o público, o
povo da Volta a França, não fosse parte integrante do seu sucesso.”
Outra crítica recorrente diz
respeito à perceção de falta de suspense em edições recentes, com a
classificação geral por vezes decidida muito antes da etapa final em Paris.
Prudhomme admitiu partilhar a frustração sentida por muitos adeptos.
“Não considerem o diretor da
Volta a França como alguém diferente de qualquer outro fã. Amo a Volta
visceralmente. Quando não há suspense, sinto exatamente o mesmo que vocês. As
minhas reações não mudaram desde a infância, quando via o Raymond Poulidor atacar
no Mont Revard.”
Suspense
e emoção até Paris
Vincou que o desenho do
percurso procura sempre incentivar batalhas, reconhecendo, porém, que o
desfecho depende, em última análise, dos corredores.
“Claro que queremos batalhas,
claro que queremos suspense. Isso pesa inevitavelmente na conceção do traçado.
Sempre. Mas depois é a famosa fórmula: os organizadores propõem, os corredores
dispõem.”
A conversa virou-se também
para os contrarrelógios, sobretudo depois de Remco Evenepoel manifestar
desilusão por a época de 2026 não incluir um longo contrarrelógio individual.
Especialista capaz de ganhar tempo substancial a rivais como Tadej Pogacar e Jonas
Vingegaard, Evenepoel vê os longos CRI como arma tática crucial.
Prudhomme explicou o
equilíbrio delicado entre criar suspense e evitar que a corrida fique, na
prática, decidida demasiado cedo.
“Se houvesse um Evenepoel
dominante, como pode ser nos contrarrelógios, contra Pogacar ou Vingegaard a
perderem muito tempo, claro que quereríamos introduzir suspense e
contrarrelógios. Hoje, só confirma e, por vezes, esmaga.”
Recordou um exemplo específico
do passado para ilustrar a preocupação.
“Lembro-me do contrarrelógio
de 2012 em Besançon com Bradley Wiggins. Tinha morto a corrida ao fim de dez
dias. Não sou certamente anti-contrarrelógio. Simplesmente, hoje não temos
aquilo que faz a força de um combate, de um duelo, uma oposição de características.
Os melhores na montanha são também quase os melhores nos contrarrelógios.”
Questões
financeiras
Por fim, abordou-se o tema das
finanças das equipas e da distribuição de receitas. O desaparecimento da
Arkéa–B&B Hotels e a fusão entre a Lotto Dstny e a Intermarché–Wanty
intensificaram as críticas de diretores desportivos aos organizadores, incluindo
a Amaury Sport Organisation.
Prudhomme reconheceu a
evolução financeira da modalidade, mas apontou um desequilíbrio estrutural.
“Vemos o desenvolvimento das
equipas e orçamentos a crescer exponencialmente, e isso é fantástico. Os
corredores ganham mais dinheiro, e eu fico quase tão contente quanto eles. Mas
os orçamentos das corridas não aumentam exponencialmente como os das grandes
equipas. Para mim, o dilema está sobretudo entre equipas apoiadas por Estados e
equipas com patrocinadores privados tradicionais que, de facto, têm dificuldade
em acompanhar.”
Ao preparar-se para a 19.ª
Volta a França ao leme, a mensagem de Prudhomme é clara: preservar o acesso
livre, manter o suspense competitivo e gerir as realidades financeiras do
ciclismo moderno continuam a ser desafios centrais para o futuro a longo prazo
da corrida.

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