Por: Miguel Marques
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
Pode visualizar este artigo
em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/debate-volta-a-flandres-2026-comissarios-de-corrida-com-medo-caos-na-passagem-de-nivel-e-vitoria-servida-em-bandeja-de-prata-a-tadej-pogacar
Carlos Silva (Ciclismo Atual)
Que dia de ciclismo. O que
mais pode pedir um adepto quando os melhores do mundo alinham nas mesmas
estradas? Passadas algumas horas desde as chegadas, fica a sensação de
satisfação, ainda a digerir tudo o que vimos.
Começo com uma palavra para os
comissários. O que foi aquilo na passagem de nível? Metade do pelotão passou, a
outra metade foi obrigada a parar. Muitos ciclistas ignoraram os sinais - luzes
e som - e atravessaram a linha mesmo assim.
Porque não aplicaram os
comissários o regulamento? E, como se não bastasse, agravaram o erro ao não
neutralizarem a fuga, que viu a vantagem saltar de três para cinco minutos.
Como é possível relançar uma corrida nestas condições?
Wout van Aert e Mads Pedersen
estiveram ao seu melhor nível. Um top 5 suado, atrás de Tadej Pogacar, Mathieu
van der Poel e Remco Evenepoel, é um resultado de grande valor. Pogacar correu
a prova que quis, a acelerar quando queria, a desmontar gradualmente o grupo de
favoritos até restar apenas o neerlandês da Alpecin.
Evenepoel ficou para trás, mas
pairou naquela zona intermédia toda a corrida, ora quase a fechar para a
dianteira, ora a perder alguns segundos. Nunca desistiu. Lutou sozinho contra
duas máquinas até às últimas subidas. Uma estreia na Flandres que deixa água na
boca.
Van der Poel foi fiel a si
mesmo: corajoso, incansável. Cerrou os dentes sempre que Pogacar atacou e
ameaçou isolar-se, nunca fugindo ao trabalho, mesmo sabendo que, se o campeão
do mundo fosse a fundo, teria dificuldades em seguir. Um verdadeiro campeão.
Ruben Silva (CyclingUpToDate)
Uma corrida que quase não
permite análise. Como adepto, foi uma grande desilusão ver “De Ronde” seguir um
guião, exatamente o mesmo de há 12 meses, quase como um criterium de pré-época
da Volta a França.
A luta pela vitória decidiu-se
nos mesmos detalhes. Pogacar ataca no 2º Oude Kwaremont e faz a seleção, ataca
no Koppenberg e segue apenas com Mathieu van der Poel; e depois, no Kwaremont
final, volta a atacar e larga van der Poel para vencer a solo. Houve apenas
dois candidatos à vitória e limitaram-se a replicar a corrida do ano passado ao
mais ínfimo pormenor.
Remco Evenepoel fez um
contrarrelógio até ao terceiro lugar, o que não surpreende, já que a corrida
quase não teve tática nem posicionamento nos momentos-chave. Pôde subir sem
precisar da experiência de estar à frente na hora certa, apenas a gerir W/kg nas
muitas colinas empedradas. Já Wout van Aert e Mads Pedersen também estiveram no
seu melhor e rodaram em modo contrarrelógio para fecharem as últimas posições
do top 5.
No balanço final, todos
terminaram exatamente onde se esperava, e da forma esperada. Tadej Pogacar era
o homem a bater e, como previsto, o mais forte nas subidas. Quando atacou no
Kwaremont, Remco Evenepoel começou a colaborar, a tentar segurar um lugar no
pódio e a mostrar rapidamente que não estava a desafiar Pogacar, enquanto
deixava Wout Van Aert para trás.
Depois, o próprio Evenepoel
cedeu, mas a diferença para Van Aert já crescera ao ponto de não encontrar um
aliado para regressar. Então Mathieu van der Poel comete exatamente o mesmo
erro. Trabalha com Pogacar, sabendo perfeitamente que, assim, é provável que
seja largado mais tarde e, no processo, afasta o único corredor que poderia ser
seu aliado.
Em qualquer caso, van der Poel
não devia ter trabalhado. Primeiro, já estava provado que era o segundo mais
forte em prova. Segundo, se não colaborasse e mesmo que vários regressassem, a
diferença entre segundo e quarto ou quinto é irrelevante para um corredor como
ele. Terceiro, PRECISAVA da presença de Evenepoel para ter hipótese de colocar
Pogacar sob pressão, forçando-o a fechar espaços ou a fazer períodos mais
longos de recuperação para readquirir explosividade.
Mas o neerlandês escolheu
trabalhar e o desfecho foi um déjà vu literal. A explicação é respeito,
presumo? Mas é uma vénia unânime a um rival superior, em vez de o colocar sob
aperto.
A corrida abriu cedo, mérito
da UAE que a partiu, e não culpo os ciclistas por não tentarem demasiado
antecipar o segundo Kwaremont, porque o ritmo era alto, mas houve ainda menos
tensão ou antecipação do que no ano passado, e nenhum dos secundários atacou
cedo, salvo algumas tentativas de Christophe Laporte.
Fica a dúvida de como se
sentirá Peter Sagan em casa a ver os rivais de Pogacar a trabalharem todos com
ele, em vez de fazerem o que podem para vencer a corrida (o que se aplica a
muitos outros cenários)… Numa corrida normal, tudo bem.
Esta tarde limitei-me a ver a
prova com a constante sensação de “sabem que não deviam fazer isso, certo?” e
completamente insatisfeito. E uma corrida que já foi espetacular, aberta e
tática conheceu o mesmo destino (ainda mais drástico) da Liège-Bastogne-Liège
ou Il Lombardia, onde quase parece que se assiste a uma exibição guionizada.
Jorge Borreguero
(CiclismoAlDia)
A vitória de Tadej Pogacar na
Volta à Flandres 2026 não é apenas mais um Monumento. É, muito provavelmente,
uma das prestações mais completas alguma vez vistas nesta corrida… e isso diz
muito.
Porque Pogacar não venceu em
contragolpe nem a capitalizar um erro. Ganhou ao impor a sua vontade de longe,
como se a Flandres fosse o domínio de um dominante corredor de etapas… quando,
na realidade, é o santuário dos especialistas.
Atacar a 57 km, sacudir todos
os favoritos e ainda ter a lucidez, e as pernas, para fechar no Oude Kwaremont
é simplesmente descomunal. O mais significativo não é ter largado Wout van
Aert, que vinha em exibições notáveis sem vitória nas provas anteriores, ou
Mads Pedersen.
É que acabou também por partir
Remco Evenepoel… e, acima de tudo, venceu o duelo direto com Mathieu van der
Poel, que é o verdadeiro barómetro neste tipo de corrida. E aqui está a chave:
Pogacar aprendeu a correr a Volta à Flandres.
Antes, era impulso puro,
ataques constantes, talvez esforço em excesso. Hoje mantém-se agressivo, mas
muito mais inteligente. Escolheu o momento exato, o terreno perfeito e o
adversário certo. E, quando abriu espaço, não ficou uma única dúvida.
Além disso, o contexto torna o
triunfo ainda mais impressionante. Tinha acabado de vencer a Milan-Sanremo, a
corrida que lhe escapava. E agora soma 12 Monumentos, aproximando-se
perigosamente da lenda de Eddy Merckx. Já não falamos apenas do melhor corredor
do momento: falamos de alguém que está a construir um legado verdadeiramente
histórico.
O mais marcante? O foco
vira-se agora para o Paris-Roubaix. E, dado este nível de rendimento, a questão
já não é se o pode vencer… mas quem o pode impedir.

Sem comentários:
Enviar um comentário