Por: Miguel Marques
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A sensação crescente de perigo
no pelotão profissional voltou a ganhar destaque no arranque da época de 2026,
com um ciclista francês a alertar que a tensão dentro do grupo atingiu um nível
constante e perigoso.
Damien Touzé, que escapou por
pouco a uma queda horrível na Volta ao Omã em fevereiro, acredita que o
comportamento dos corredores no pelotão mudou de forma drástica. Em declarações
ao Le Parisien, o corredor da Cofidis sugeriu que a pressão para manter a
posição e obter resultados está a empurrar os ciclistas para situações cada vez
mais arriscadas.
“Antes, talvez houvesse mais
respeito no pelotão”, explicou Touzé, notando que, noutras épocas, existiam
figuras estabelecidas que ajudavam a impor uma ordem não escrita dentro do
grupo. “Antes havia líderes no pelotão que ditavam as regras. Agora, muitos
jovens chegam a querer conquistar o seu espaço e não ligam às regras. A tensão
é constante. Tudo vai mais depressa. Demasiado depressa”.
As declarações ganham peso
extra vindo de Touzé. A sua queda em Omã ocorreu a alta velocidade, depois de
perder o controlo da bicicleta e embater nas barreiras à beira da estrada. O
impacto causou lesões internas graves, incluindo perfuração do intestino e
rutura do baço, obrigando a cirurgia de urgência e deixando a sua época
praticamente terminada antes de a primavera começar.
Mais tarde, Touzé admitiu que
temeu pela vida durante o incidente, tornando difícil descartar os seus alertas
sobre a natureza cada vez mais agressiva das corridas como mera frustração do
momento.
Um início
de época perigoso
As suas preocupações surgem
numa altura em que a temporada europeia já registou uma série de quedas
mediáticas.
O Fim de semana de abertura na
Bélgica teve corridas caóticas, com a Omloop Het Nieuwsblad a registar, só por
si, 39 abandonos após uma edição marcada por quedas. No dia seguinte, a Kuurne
- Brussels - Kuurne também teve incidentes pesados, incluindo a queda que
acabou com a corrida do homem da UAE Team Emirates - XRG, Tim Wellens, e que
viria a exigir cirurgia.
Mesmo os corredores que
evitaram lesões graves descreveram um pelotão a roçar o limite, com lutas
constantes por posição antes dos setores de empedrado e de outros
momentos-chave da corrida.
O diretor da Groupama FDJ,
Marc Madiot, acredita que o ciclismo se aproxima de um ponto de rutura
perigoso. “Estamos sentados em cima de um barril de pólvora”, alertou numa
conversa na RMC, descrevendo o que vê como uma dinâmica cada vez mais volátil
dentro do grupo. “É uma guerra por pontos, uma guerra por lugares, uma guerra
por posições. A primeira coisa que os corredores dizem depois da corrida, no
autocarro, é: ‘Já ninguém trava’”.
Para Madiot, o problema não
resulta de um único fator, mas de uma combinação de pressões que moldam o
pelotão moderno. Os ciclistas lutam como nunca por pontos UCI, o material
permite travar mais tarde e manter mais velocidade, e as margens entre o sucesso
e o fracasso continuam a encolher.
O resultado, acredita, são
corridas simultaneamente mais rápidas e mais voláteis.
Pressão
sobre a nova geração
Touzé aponta ainda a pressão
económica sobre os jovens que entram no profissionalismo. “Antes, subias a
profissional e recebias o mínimo”, explicou. “Hoje, com 18 anos, se alguém faz
um top 10 ou ganha uma corrida com os pros, dizem que é uma pérola e assina por
muito dinheiro”.
Segundo o francês, essa
expectativa cria um ambiente em que os corredores sentem que têm de render de
imediato, muitas vezes forçando-os a assumir riscos no pelotão. “Quando chegam
ao pelotão profissional, sabem que têm de ser bons logo para ganhar dinheiro.
Inevitavelmente, isso leva a mais risco”.
Estes alertas surgem
precisamente quando a campanha das Clássicas começa a subir de intensidade. Com
as provas belgas já a produzir cenas caóticas e a Strade Bianche no horizonte,
o terreno mais perigoso da época ainda está por vir.
Para Touzé, a questão deixou
de ser teórica. Depois de uma queda que quase lhe custou a vida, a escalada de
tensão no pelotão é algo que viveu da forma mais brutal possível.

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