segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

“A diferença para o Jonas não é muito grande” João Almeida quer vencer a Volta a Itália inspirado por Tadej Pogacar e Cristiano Ronaldo”


Por: Ivan Silva

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

João Almeida já não fala como quem está só para fazer número. Quando olha para a Volta a Espanha 2025 e para a Volta a Itália 2026, a mensagem é clara. Acredita que a distância até ao topo é pequena, controlável e está a encurtar.

Na Vuelta da última época, Almeida foi segundo na geral atrás de Jonas Vingegaard, a exatamente 1 minuto e 16 segundos após três semanas de corrida. Esse resultado molda agora a forma como vê o seu futuro. O ciclista português não se sente desmotivado por ter sido vice. Vê-o como prova de que vencer uma Grande Volta é realista.

“O objetivo no Giro será vencê-lo e farei tudo o que puder para o concretizar”, disse João Almeida à Gazzetta dello Sport. Ao refletir sobre o duelo com Vingegaard em Espanha, acrescentou: “Na Vuelta, há poucos meses, não houve grande diferença para o Vingegaard. Ele vinha do Tour e provavelmente não estava no topo da forma… Mas eu também não.”

Estas palavras assentam na experiência, pois João Almeida já subiu ao pódio duas Grandes Voltas e passou um largo período com a camisola da liderança. Mas foi a Volta a Itália de 2020 que o convenceu de que pertencia ao mais alto nível. “Sim, foi uma experiência decisiva para mim”, disse sobre essa corrida. “Era jovem, tinha muito para aprender e aquelas três semanas foram uma belíssima viagem de crescimento.”

 

A bitola Vingegaard

 

Vingegaard é agora a referência. Na Volta a Espanha 2025, a rivalidade tornou-se um duelo a dois durante grande parte da prova, com João Almeida suficientemente perto do dinamarquês, para acreditar que o último degrau já não está tão longe de alcançar. “Todos os anos tenho melhorado e sinto que isso pode voltar a acontecer em 2026. Digo-o com realismo.”

Esse realismo é central na forma como fala em vencer uma Grande Volta. Não há fatalismos nem garantias. Só evolução, detalhe e confiança construída em evidências. “Conheço muito bem o meu corpo. Sei ouvi-lo. Tenho uma perceção clara de até onde posso ir”, explicou quando questionado sobre a sua maior força como atleta.

 

Aprender com Pogacar

 

Dentro da UAE Team Emirates - XRG, Almeida tem acesso aos padrões mais elevados da modalidade. Tadej Pogacar, seu colega de equipa, é mais do que um rival em corrida: é uma referência no treino, recuperação e mentalidade. “Antes de mais, simplesmente por… genética, ele é o melhor de todos”, disse Almeida sobre Pogacar. “A isso, junta o facto dele trabalhar imenso.”

A diferença entre ambos, aos olhos do João, não é o talento, é imersão total. “Não acho que tenha uma obsessão com o ciclismo, no sentido em que não é 100 por cento da minha vida”, afirmou. “O Tadej tem isso, para ele é. Continua a ser um tipo normal, mas é como se respirasse ciclismo, que é a sua única verdadeira paixão.”

 

Inspirado por Ronaldo

 

Essa mentalidade não vem só do ciclismo. Uma das maiores inspirações de João Almeida chega de outro ícone para o povo português. “Porque ele veio do nada, trabalhou de forma incrível para lá chegar”, disse sobre Cristiano Ronaldo. “E também representa grandes valores e pode ser considerado o maior futebolista de todos os tempos.”

Para Almeida, Ronaldo simboliza o que a crença a longo prazo e o trabalho duro podem produzir. “Para mim será sempre o número um”, afirmou. “Ainda não o conheci pessoalmente, espero que mais cedo ou mais tarde isso aconteça.”

Essa combinação de referências internas, Pogacar dentro da equipa e Ronaldo no seu país, molda o caminho que Almeida desenha para si.

 

Assente numa obsessão silenciosa

 

A relação de Almeida com o ciclismo sempre foi intensa, mesmo que não lhe chame obsessão. “Sempre fui desportista, desde pequeno”, disse. “Experimentei futebol, natação, mas desde que me lembro… andava de bicicleta. Todos os dias.”

Na adolescência, isso significou treinar até tarde, mesmo com condições longe das ideais. “Aconteceu e com bastante frequência”, disse quando questionado sobre treinar de noite. “Saía às 19h30, comia qualquer coisa rapidamente e depois ia pedalar até às 21h30–22h.”

Por vezes, nem as luzes ajudavam. “Às vezes acontecia, a luz não funcionava e eu vinha para casa às escuras. Perigoso? Sim, mas foi o que me aconteceu.”

Essa persistência continua visível quando fala do seu futuro. Não há dramatização nas suas ambições. Apenas mantem firme a insistência de que o passo final está ao seu alcance. Depois de terminar a 1 minuto e 16 segundos de Jonas Vingegaard na Volta a Espanha de 2025, João Almeida já não corre como quem vai atrás de um milagre. O seu discurso é de alguém que já mediu bem o fosso e acredita que ele é suficientemente pequeno para o fechar.

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