Por: Ivan Silva
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
João Almeida já não fala como
quem está só para fazer número. Quando olha para a Volta a Espanha 2025 e para
a Volta a Itália 2026, a mensagem é clara. Acredita que a distância até ao topo
é pequena, controlável e está a encurtar.
Na Vuelta da última época,
Almeida foi segundo na geral atrás de Jonas Vingegaard, a exatamente 1 minuto e
16 segundos após três semanas de corrida. Esse resultado molda agora a forma
como vê o seu futuro. O ciclista português não se sente desmotivado por ter
sido vice. Vê-o como prova de que vencer uma Grande Volta é realista.
“O objetivo no Giro será
vencê-lo e farei tudo o que puder para o concretizar”, disse João Almeida à
Gazzetta dello Sport. Ao refletir sobre o duelo com Vingegaard em Espanha,
acrescentou: “Na Vuelta, há poucos meses, não houve grande diferença para o Vingegaard.
Ele vinha do Tour e provavelmente não estava no topo da forma… Mas eu também
não.”
Estas palavras assentam na
experiência, pois João Almeida já subiu ao pódio duas Grandes Voltas e passou
um largo período com a camisola da liderança. Mas foi a Volta a Itália de 2020
que o convenceu de que pertencia ao mais alto nível. “Sim, foi uma experiência
decisiva para mim”, disse sobre essa corrida. “Era jovem, tinha muito para
aprender e aquelas três semanas foram uma belíssima viagem de crescimento.”
A bitola
Vingegaard
Vingegaard é agora a
referência. Na Volta a Espanha 2025, a rivalidade tornou-se um duelo a dois
durante grande parte da prova, com João Almeida suficientemente perto do
dinamarquês, para acreditar que o último degrau já não está tão longe de
alcançar. “Todos os anos tenho melhorado e sinto que isso pode voltar a
acontecer em 2026. Digo-o com realismo.”
Esse realismo é central na
forma como fala em vencer uma Grande Volta. Não há fatalismos nem garantias. Só
evolução, detalhe e confiança construída em evidências. “Conheço muito bem o
meu corpo. Sei ouvi-lo. Tenho uma perceção clara de até onde posso ir”,
explicou quando questionado sobre a sua maior força como atleta.
Aprender
com Pogacar
Dentro da UAE Team Emirates -
XRG, Almeida tem acesso aos padrões mais elevados da modalidade. Tadej Pogacar,
seu colega de equipa, é mais do que um rival em corrida: é uma referência no
treino, recuperação e mentalidade. “Antes de mais, simplesmente por… genética,
ele é o melhor de todos”, disse Almeida sobre Pogacar. “A isso, junta o facto
dele trabalhar imenso.”
A diferença entre ambos, aos
olhos do João, não é o talento, é imersão total. “Não acho que tenha uma
obsessão com o ciclismo, no sentido em que não é 100 por cento da minha vida”,
afirmou. “O Tadej tem isso, para ele é. Continua a ser um tipo normal, mas é
como se respirasse ciclismo, que é a sua única verdadeira paixão.”
Inspirado
por Ronaldo
Essa mentalidade não vem só do
ciclismo. Uma das maiores inspirações de João Almeida chega de outro ícone para
o povo português. “Porque ele veio do nada, trabalhou de forma incrível para lá
chegar”, disse sobre Cristiano Ronaldo. “E também representa grandes valores e
pode ser considerado o maior futebolista de todos os tempos.”
Para Almeida, Ronaldo
simboliza o que a crença a longo prazo e o trabalho duro podem produzir. “Para
mim será sempre o número um”, afirmou. “Ainda não o conheci pessoalmente,
espero que mais cedo ou mais tarde isso aconteça.”
Essa combinação de referências
internas, Pogacar dentro da equipa e Ronaldo no seu país, molda o caminho que
Almeida desenha para si.
Assente
numa obsessão silenciosa
A relação de Almeida com o
ciclismo sempre foi intensa, mesmo que não lhe chame obsessão. “Sempre fui
desportista, desde pequeno”, disse. “Experimentei futebol, natação, mas desde
que me lembro… andava de bicicleta. Todos os dias.”
Na adolescência, isso
significou treinar até tarde, mesmo com condições longe das ideais. “Aconteceu
e com bastante frequência”, disse quando questionado sobre treinar de noite.
“Saía às 19h30, comia qualquer coisa rapidamente e depois ia pedalar até às 21h30–22h.”
Por vezes, nem as luzes
ajudavam. “Às vezes acontecia, a luz não funcionava e eu vinha para casa às
escuras. Perigoso? Sim, mas foi o que me aconteceu.”
Essa persistência continua
visível quando fala do seu futuro. Não há dramatização nas suas ambições.
Apenas mantem firme a insistência de que o passo final está ao seu alcance.
Depois de terminar a 1 minuto e 16 segundos de Jonas Vingegaard na Volta a Espanha
de 2025, João Almeida já não corre como quem vai atrás de um milagre. O seu
discurso é de alguém que já mediu bem o fosso e acredita que ele é
suficientemente pequeno para o fechar.
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