Por: Ivan Silva
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A observação foi serena, mas a
mensagem inequívoca. A falar em Omã, Nairo Quintana não enquadrou as suas
preocupações como nostalgia ou queixa. Descreveu antes um pelotão que já não se
comporta como dantes, moldado por pressão constante e tensão elevada.
“Hoje, os ciclistas assumem
riscos desnecessários a mais; há muita tensão em momentos que não são
importantes”, disse Quintana em conversa com a Marca. “Torna o ciclismo mais
interessante, mas em termos de segurança percebemos que é muito mais perigoso.”
Para um corredor que passou
mais de uma década no topo da modalidade, o aviso tem peso.
Quintana não reage a um
incidente isolado, mas a uma mudança que, acredita, se enraizou no quotidiano
das corridas.
Um
pelotão sob pressão permanente
Segundo Quintana, a estrutura
moderna do ciclismo profissional alterou o comportamento dos corredores ao
longo de todo o dia de corrida, não apenas nos momentos decisivos. Aponta em
particular à influência do sistema de pontos, que intensificou a competição
muito para lá dos habituais pontos de fricção.
“Vemos quedas todos os dias e,
embora tenham sido tomadas medidas, não chegam para evitar toda essa tensão
provocada pela tentativa de somar pontos que são tão valiosos para cada equipa
e cada corredor”, disse.
O resultado, no seu entender,
é um pelotão permanentemente em alerta, onde se arriscam manobras mesmo quando
a importância desportiva não o exige.
Correr
por instinto, não por nostalgia
Apesar das preocupações,
Quintana não corre com distanciamento. Aos 36 anos, iniciou a época cedo,
escolhendo deliberadamente condições que lhe permitem construir forma e
manter-se competitivo, em vez de apenas cumprir um papel de apoio.
“Quis começar cedo para
aproveitar o calor e começar a andar bem”, explicou. “Ainda estou a um bom
nível e tenho de o aproveitar.”
Essa abordagem levou-o a ser
ativo na Volta a Omã, uma prova cujo terreno favorece as suas características e
oferece uma medida útil de onde se posiciona no pelotão atual.
A
experiência como referência
Na Movistar, o papel de
Quintana é fluido, moldado pelas exigências de cada etapa e não por
expectativas fixas. Fala abertamente em ajudar sprinters e colegas mais jovens
quando necessário, mantendo-se pronto para dar um passo em frente quando surgem
oportunidades. “Quando chega a nossa oportunidade, temos de estar com os
melhores”, disse.
Essa elasticidade vai além da
tática. Quintana tornou-se uma referência para os mais jovens, não só na sua
equipa como no pelotão, muitos dos quais continuam a procurá-lo apesar do
quadro competitivo ter mudado.
“A alegria de partilhar com os
mais jovens é que continuas a sentir-te jovem”, disse. “Motivam-me muito e
permitem-me orientá-los nos momentos em que precisam.”
Um
desporto mudado, mas o instinto de sempre
Embora reconheça que o
desporto à sua volta evoluiu, a sua abordagem continua enraizada no instinto e
na competição, não na prudência.
“Sou um leão”, disse. “Todos
os dias em que prendo um dorsal, penso em estar na frente, em a minha equipa
ganhar, em lutar, defender-me e, porque não, atacar.”
Esse instinto não desapareceu,
mesmo reconhecendo que o ambiente geral se tornou mais volátil.
Olhar em
frente sem forçar um fim
A conversa inevitavelmente
toca o tema do tempo e da longevidade, embora Quintana evite encarar a época
como uma despedida.
“Vamos ver como corre o ano”,
disse. “Sinto-me bem, estou em muito boa condição, pedalo bem e feliz. Para já,
estou muito focado em fazer a época toda e veremos mais à frente.”
Por agora, o foco mantém-se em
correr dentro de um pelotão que considera ter mudado de forma estrutural,
gerindo os riscos com a vantagem da experiência e competindo segundo os seus
próprios termos.

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