sábado, 25 de abril de 2026

"Não foi um milhão, foram só 500 mil" Quintanilha denunciou em tribunal chantagem de Nuno Ribeiro ao Porto”


Por: Ivan Silva

Em parceria com: https://ciclismoatual.com

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Meses depois de o julgamento de primeira instância ter exposto em detalhe um dos maiores escândalos do ciclismo português, continuam a emergir passagens marcantes do processo Operação Prova Limpa.

A investigação, amplamente acompanhada pela CNN Portugal, revelou não apenas o alegado esquema de doping na estrutura da W52 - FC Porto, mas também um episódio de presumida chantagem que surpreendeu a sala de audiências.

 

Chamado a reunião de urgência com Pinto da Costa

 

No Tribunal de Penafiel, Adriano Quintanilha descreveu o momento em que, segundo o próprio, foi convocado de urgência para uma reunião no Estádio do Dragão por Jorge Nuno Pinto da Costa.

“Sr. dr. juiz, eu estava a chegar de uma viagem de Itália e sou chamado ao gabinete do nosso presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa. Chamou-me ao gabinete dele e disse-me: ‘Sr. Quintanilha, o que é que se está a passar?’”

Quintanilha explicou que, sem perceber o motivo da reunião, perguntou de imediato o que se passava. A resposta, garantiu, deixou-o incrédulo.

“Chegou-me aqui uma novidade, que eu até penso que isto é para os apanhados”, recordou, dizendo que Pinto da Costa lhe terá acrescentado: “Chegou-me aqui um pedido de um milhão de euros”.

Segundo o depoimento, a reação foi imediata. “Ó presidente, isso não pode ser, isso é impossível. Isso não é verdade.”

Mas, de acordo com Quintanilha, Pinto da Costa insistiu: “É verdade. Chegou-me pelos meus advogados aqui um pedido.”

Foi então que decidiu, nas suas palavras, “tirar isso a limpo”.

O momento em que o juiz interrompeu

Durante o testemunho, o juiz Miguel Paredes procurou clarificar quem estaria por trás dessa exigência milionária.

“Mas quem é que foi pedir um milhão de euros? É isso que eu não estou a perceber.”

Quintanilha respondeu sem hesitar: “Foram pedir um milhão de euros ao Porto.”

O magistrado voltou a insistir: “Quem, quem?”

E recebeu a resposta direta: “O Sr. Nuno Ribeiro.”

Nuno Ribeiro era uma das figuras centrais do processo e antigo diretor desportivo da equipa.

 

O encontro no armazém

 

Quintanilha contou ainda que decidiu confrontar Nuno Ribeiro pessoalmente. Segundo relatou, o encontro aconteceu em março de 2024, pouco antes das eleições presidenciais do FC Porto, nas quais Pinto da Costa acabaria derrotado por André Villas-Boas.

“Chega ao meu armazém e eu fui mais o meu filho, António Jorge, e o Sr. David.”

Quando o encontrou, lançou-lhe a pergunta diretamente: “Nuno, o que é que se passa? Tu foste ao Porto pedir isto?”

Segundo Quintanilha, a resposta foi reveladora. “Não foi um milhão, foram 500 mil, foi só…”

O empresário disse então ter exigido explicações:

“Mas o que é que se passa aqui? Explica-me. Porque é que estás a pedir isso? É por causa das eleições? O que é que o Porto tem a ver com este caso?”

A resposta atribuída a Nuno Ribeiro apontava para o processo judicial e para os depoimentos prestados perante a Autoridade Antidopagem de Portugal.

“Ah, os ciclistas foram para a ADoP dizer tudo, botar tudo para cima de mim, eu não posso ficar com estas coisas…”

Quintanilha afirmou ter reagido em tom duro: “Quem tem de pagar por isto tudo és tu e os ciclistas, se houver alguma coisa a pagar. És tu e os ciclistas.”

Segundo disse ao tribunal, a conversa terminou aí. “Falei mais alto um bocadinho e ele veio-se embora, fugiu. E a partir daí não tive mais conversa com o Sr. Nuno Ribeiro.”

 

Como nasceu a Operação Prova Limpa

 

A investigação judicial começou após uma denúncia enviada em fevereiro de 2020 ao inspetor-chefe Luís Ribeiro, então ligado ao conselho consultivo da Autoridade Antidopagem de Portugal.

A W52 dominava então o ciclismo nacional, com sucessivos triunfos na Volta a Portugal. O alegado esquema foi desmontado através de vigilâncias prolongadas e milhares de horas de escutas telefónicas.

No acórdão de primeira instância ficou assente que, “pelo menos desde o ano de 2020”, dirigentes ligados à estrutura teriam procurado aumentar artificialmente o rendimento competitivo dos ciclistas para obter melhores resultados desportivos.

 

Os códigos usados ao telefone

 

Uma das partes mais impressionantes do processo passou pela linguagem codificada utilizada, segundo o tribunal, para esconder referências a substâncias proibidas.

Entre os termos identificados surgiam:

“Branca”, “Dipro”, “Profes”, “Riscos” ou “Corticoides”, associados à Betametasona

“Força”, “F” ou “FR”, associados à hormona de crescimento

“Feminina”, “Femenina” ou “Meno”, associados à Menotropina

“TB”, para TB-500

“Insu”, para insulina de ação rápida

O acórdão refere ainda que aplicações como WhatsApp e Telegram eram usadas para dificultar o rastreio das comunicações.

 

A defesa contestou a gravidade social do caso

 

No recurso para a Relação do Porto, a defesa de Adriano Quintanilha contestou a forma como o tribunal avaliou o impacto público do processo.

Os advogados sustentaram que a decisão exagerava os efeitos sociais das práticas dopantes e argumentaram que uma intensa cobertura mediática não equivale automaticamente a alarme social.

Foram mais longe: admitindo que o doping prejudica a justiça competitiva, defenderam que o tribunal nunca provou que atletas de outras equipas estivessem limpos, colocando em causa a avaliação da igualdade competitiva.

 

Um caso que continua a marcar o ciclismo português

 

Anos depois do início da investigação e meses após o julgamento, o processo continua a ser uma referência inevitável quando se fala de credibilidade no ciclismo nacional. Entre escutas, códigos secretos, substâncias proibidas e alegações de chantagem envolvendo centenas de milhares de euros, a Operação Prova Limpa deixou marcas profundas no desporto português.

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