Por: Ivan Silva
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Meses depois de o julgamento
de primeira instância ter exposto em detalhe um dos maiores escândalos do
ciclismo português, continuam a emergir passagens marcantes do processo
Operação Prova Limpa.
A investigação, amplamente
acompanhada pela CNN Portugal, revelou não apenas o alegado esquema de doping
na estrutura da W52 - FC Porto, mas também um episódio de presumida chantagem
que surpreendeu a sala de audiências.
Chamado a
reunião de urgência com Pinto da Costa
No Tribunal de Penafiel,
Adriano Quintanilha descreveu o momento em que, segundo o próprio, foi
convocado de urgência para uma reunião no Estádio do Dragão por Jorge Nuno
Pinto da Costa.
“Sr. dr. juiz, eu estava a
chegar de uma viagem de Itália e sou chamado ao gabinete do nosso presidente,
Jorge Nuno Pinto da Costa. Chamou-me ao gabinete dele e disse-me: ‘Sr.
Quintanilha, o que é que se está a passar?’”
Quintanilha explicou que, sem
perceber o motivo da reunião, perguntou de imediato o que se passava. A
resposta, garantiu, deixou-o incrédulo.
“Chegou-me aqui uma novidade,
que eu até penso que isto é para os apanhados”, recordou, dizendo que Pinto da
Costa lhe terá acrescentado: “Chegou-me aqui um pedido de um milhão de euros”.
Segundo o depoimento, a reação
foi imediata. “Ó presidente, isso não pode ser, isso é impossível. Isso não é
verdade.”
Mas, de acordo com
Quintanilha, Pinto da Costa insistiu: “É verdade. Chegou-me pelos meus
advogados aqui um pedido.”
Foi então que decidiu, nas
suas palavras, “tirar isso a limpo”.
O momento em que o juiz
interrompeu
Durante o testemunho, o juiz
Miguel Paredes procurou clarificar quem estaria por trás dessa exigência
milionária.
“Mas quem é que foi pedir um
milhão de euros? É isso que eu não estou a perceber.”
Quintanilha respondeu sem
hesitar: “Foram pedir um milhão de euros ao Porto.”
O magistrado voltou a
insistir: “Quem, quem?”
E recebeu a resposta direta:
“O Sr. Nuno Ribeiro.”
Nuno Ribeiro era uma das
figuras centrais do processo e antigo diretor desportivo da equipa.
O
encontro no armazém
Quintanilha contou ainda que
decidiu confrontar Nuno Ribeiro pessoalmente. Segundo relatou, o encontro
aconteceu em março de 2024, pouco antes das eleições presidenciais do FC Porto,
nas quais Pinto da Costa acabaria derrotado por André Villas-Boas.
“Chega ao meu armazém e eu fui
mais o meu filho, António Jorge, e o Sr. David.”
Quando o encontrou, lançou-lhe
a pergunta diretamente: “Nuno, o que é que se passa? Tu foste ao Porto pedir
isto?”
Segundo Quintanilha, a
resposta foi reveladora. “Não foi um milhão, foram 500 mil, foi só…”
O empresário disse então ter
exigido explicações:
“Mas o que é que se passa
aqui? Explica-me. Porque é que estás a pedir isso? É por causa das eleições? O
que é que o Porto tem a ver com este caso?”
A resposta atribuída a Nuno
Ribeiro apontava para o processo judicial e para os depoimentos prestados
perante a Autoridade Antidopagem de Portugal.
“Ah, os ciclistas foram para a
ADoP dizer tudo, botar tudo para cima de mim, eu não posso ficar com estas
coisas…”
Quintanilha afirmou ter
reagido em tom duro: “Quem tem de pagar por isto tudo és tu e os ciclistas, se
houver alguma coisa a pagar. És tu e os ciclistas.”
Segundo disse ao tribunal, a
conversa terminou aí. “Falei mais alto um bocadinho e ele veio-se embora,
fugiu. E a partir daí não tive mais conversa com o Sr. Nuno Ribeiro.”
Como
nasceu a Operação Prova Limpa
A investigação judicial
começou após uma denúncia enviada em fevereiro de 2020 ao inspetor-chefe Luís
Ribeiro, então ligado ao conselho consultivo da Autoridade Antidopagem de
Portugal.
A W52 dominava então o
ciclismo nacional, com sucessivos triunfos na Volta a Portugal. O alegado
esquema foi desmontado através de vigilâncias prolongadas e milhares de horas
de escutas telefónicas.
No acórdão de primeira
instância ficou assente que, “pelo menos desde o ano de 2020”, dirigentes
ligados à estrutura teriam procurado aumentar artificialmente o rendimento
competitivo dos ciclistas para obter melhores resultados desportivos.
Os
códigos usados ao telefone
Uma das partes mais
impressionantes do processo passou pela linguagem codificada utilizada, segundo
o tribunal, para esconder referências a substâncias proibidas.
Entre os termos identificados
surgiam:
“Branca”, “Dipro”, “Profes”,
“Riscos” ou “Corticoides”, associados à Betametasona
“Força”, “F” ou “FR”,
associados à hormona de crescimento
“Feminina”, “Femenina” ou
“Meno”, associados à Menotropina
“TB”, para TB-500
“Insu”, para insulina de ação
rápida
O acórdão refere ainda que
aplicações como WhatsApp e Telegram eram usadas para dificultar o rastreio das
comunicações.
A defesa
contestou a gravidade social do caso
No recurso para a Relação do
Porto, a defesa de Adriano Quintanilha contestou a forma como o tribunal
avaliou o impacto público do processo.
Os advogados sustentaram que a
decisão exagerava os efeitos sociais das práticas dopantes e argumentaram que
uma intensa cobertura mediática não equivale automaticamente a alarme social.
Foram mais longe: admitindo
que o doping prejudica a justiça competitiva, defenderam que o tribunal nunca
provou que atletas de outras equipas estivessem limpos, colocando em causa a
avaliação da igualdade competitiva.
Um caso
que continua a marcar o ciclismo português
Anos depois do início da
investigação e meses após o julgamento, o processo continua a ser uma
referência inevitável quando se fala de credibilidade no ciclismo nacional.
Entre escutas, códigos secretos, substâncias proibidas e alegações de chantagem
envolvendo centenas de milhares de euros, a Operação Prova Limpa deixou marcas
profundas no desporto português.

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