Por: Miguel Marques
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Tadej Pogacar é uma das
figuras mais populares do ciclismo, mas simultaneamente uma das mais
polarizadoras. A sua dominação da modalidade deve-se ao enorme talento em cima
da bicicleta e a um fortíssimo coletivo da UAE Team Emirates - XRG; porém, o
comentador neerlandês Thijs Zonneveld argumenta que a sua forma de mandar no
pelotão tem traços semelhantes aos de Lance Armstrong nos anos 2000.
O norte-americano venceu então
sete Voltas a França consecutivas, de 1999 a 2005, exercendo um controlo de
ferro sobre a corrida, quase sinónimo do seu nome. Zonneveld comparou Pogacar a
Armstrong no sentido de perseguir corredores que falaram sobre as suas táticas
ou as da sua equipa.
A Volta a França de 2025 foi
um exemplo claro, com Pogacar a responder pessoalmente aos ataques de Matteo
Jorgenson ao longo de toda a prova. Isso prolongou-se já tarde na corrida,
quando o norte-americano, da Team Visma | Lease a Bike, já não estava na luta
pela geral e tentava entrar em fugas.
“Vai ser muito difícil para
ele quando a UAE partir com uma equipa forte. Simplesmente não o vão deixar
ganhar. Não querem acabar como o Jorgenson”, disse Zonneveld no podcast In de
Waaier. Estas ações surgiram na sequência do que Jorgenson fizera anteriormente
na corrida.
Na 7ª etapa, Pogacar acusou
diretamente Jorgenson de o impedir de apanhar um bidon na zona de
abastecimento. “Não sei qual é a intenção deles. Fazem isto muitas vezes. Vão
para a frente na zona de abastecimento como se fossem os únicos a precisar de
bidons”, disse Pogacar na altura.
“Íamos em fila na zona de
abastecimento. Indiquei a minha intenção de agarrar um bidon do meu cuidador.
Ele estava a vinte metros atrás do corredor da Team Visma | Lease a Bike. O
Jorgenson decidiu passar pela direita porque queria tirar um bidon. Não tive
alternativa senão dar-lhe um empurrão”.
Tadej
Pogacar é ‘armstrongiano’?
Em 2004, Armstrong perseguiu
de forma célebre o italiano Filippo Simeoni quando este tentou entrar numa fuga
no Tour e, mais tarde, fez um gesto de “lábios fechados” para a câmara de TV.
Foi uma mensagem clara após Simeoni testemunhar num caso de dopagem relacionado
com o Dr. Michele Ferrari, que integrava o círculo de Armstrong.
O domínio atual de Pogacar no
World Tour permite-lhe, como se viu na Volta a França, sair do seu caminho para
impedir o sucesso de outros corredores. É algo que também pode funcionar como
tática psicológica.
“Eles influenciam o desenrolar
das corridas mesmo quando ganha alguém que não seja o Pogacar. Por isso é que
os corredores querem estar entre os que ele aprecia. É bastante armstrongiano,
embora isso tenha sido num nível totalmente diferente”.
A recente Volta à Romandia
reacendeu essas preocupações. Após a 1ª etapa, em que Pogacar, Lenny Martínez,
Jorgen Nordhagen e Florian Lipowitz se destacaram na subida final do dia, o
alemão recusou colaborar. Na entrevista pós-corrida, Pogacar elogiou os outros
dois, deixando claro o reparo a Lipowitz por não ter trabalhado.
“Ele é um tipo simpático, mas
dá umas alfinetadas. Se trabalhas com ele, és ‘gajo porreiro’. Recebes um
comentário no Strava como o Seixas recebeu (depois da Liege-Bastogne-Liege) ou
um braço por cima do ombro como aconteceu com o Nordhagen. Se não trabalhas com
ele, levas uma picada na entrevista e ficas na lista negra”.
De acordo com o analista, isto
pode criar um ambiente no pelotão em que os corredores acabam por colaborar com
Pogacar, mesmo contra as suas próprias hipóteses de vencer, com receio de
retaliação futura do Campeão do Mundo e da UAE.
Recentemente, Mathieu van der
Poel recebeu fortes críticas pelas opções táticas ao colaborar totalmente com o
esloveno na Volta à Flandres, cedendo no Oude Kwaremont, num cenário
praticamente idêntico ao de há 12 meses.
No entanto, Zonneveld defende
que a popularidade de Pogacar acaba por ensombrar este tipo de ações no
pelotão, enquanto as críticas recaem muitas vezes sobre os rivais. “O Pogacar é
socialmente muito mais hábil [do que Jonas Vingegaard]. Por isso tem amigos em
todo o lado e é visto como o simpático”.