“Quando corri pela PDM, percebi que era a primeira verdadeira equipa com doping organizado”: Greg LeMond reflete sobre o início da era da EPO”
Por: Miguel Marques
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Greg Lemond, o único
norte-americano a vencer oficialmente a Volta a França, descreveu a imensa
pressão e confusão que marcaram o pelotão no início da década de 1990. Numa
recente entrevista com Anthony Walsh, o tricampeão do Tour explicou como a
chegada da EPO transformou gregários medianos em estrelas e empurrou os
ciclistas limpos para negociações impossíveis só para manterem o salário.
A carreira de Lemond
atravessou a transição da velha guarda dos anos 80 para a era da EPO,
hiperpotenciada, dos anos 90. Recordou a mudança súbita de níveis de
rendimento, destacando em particular a transformação do italiano Claudio
Chiappucci.
O choque
de Sestriere
Para Lemond, a Volta a França
de 1992 foi um ponto de viragem. Recorda ter visto Chiappucci, um corredor que
conhecera como gregário em meados dos anos 80, assinar uma fuga lendária até
Sestriere que deixou o norte-americano estupefacto e muito para trás.
“Corri com o Chiappucci desde
1986. Era um gregário. Lamento, não era assim tão bom corredor”, atirou LeMond
sem rodeios. “E lembro-me de que, em 1992, ele atacou rumo a Sestriere. Eu já
tinha vencido o Tour três vezes. Fui o último a concluir essa etapa. Cheguei
uma hora atrás dele”.
A disparidade de rendimento
foi não só desmoralizante, como teve consequências financeiras. LeMond revelou
uma negociação tensa com a sua equipa, em que a direção ameaçou cortar salários
em 50% devido à falta de resultados.
“[A minha equipa disse]:
‘Vamos ter de reduzir o teu salário. Isto está mesmo a acontecer nas equipas,
eles estão a tomar EPO, estão a tomar testosterona’”, recordou LeMond.
Explicou como combateu o
corte, argumentando que não devia ser penalizado por competir limpo num pelotão
contaminado. “Ou aliviam e deixam-nos correr sem mudanças no salário, ou então
entregam o mesmo médico”, disse-lhes, esclarecendo que não estava a pedir para
se dopar, mas a expor a hipocrisia de exigir vitórias sem fornecer o “apoio
médico” que outras equipas utilizavam.
A
tragédia da PDM
LeMond refletiu também sobre a
passagem pela equipa holandesa PDM no final dos anos 80, que identificou como o
início do doping sistemático a nível coletivo. “Quando corri na PDM, percebi
que era a primeira verdadeira equipa com doping organizado. E saí de lá por
essa razão”, afirmou.
As consequências dessas
experiências foram por vezes fatais. LeMond partilhou a memória dolorosa de
Johannes Draaijer, jovem neerlandês seu colega na PDM, que morreu a dormir em
1990, aos 27 anos. A causa oficial foi insuficiência cardíaca, mas os rumores
sobre uso de EPO, que espessa o sangue e pode provocar paragem cardíaca em
repouso, envolveram sempre a tragédia. “A esposa dele ligou à minha mulher a
meio da noite porque o marido tinha falecido. Tão triste”, recordou LeMond.
LeMond acredita que muitos
corredores daquela era foram cobaias involuntárias. Apontou o Professor
Francesco Conconi, mentor do infame Dr. Michele Ferrari, que trabalhava
oficialmente no desenvolvimento de testes de deteção de EPO para o Comité
Olímpico.
“Acredito que alguns ciclistas
nem faziam ideia do que lhes estavam a dar, porque o Conconi na altura
trabalhava para o Comité Olímpico a tentar desenvolver testes sobre ‘como
detetar a EPO’. Mas usava profissionais como cobaias”.


