Por: José morais
A União Ciclista Internacional
(UCI) deu o primeiro passo para uma das mais profundas transformações
regulamentares da história do ciclismo moderno, ao anunciar a revisão integral
da chamada Carta de Lugano, o documento que, há cerca de 30 anos, define as
regras fundamentais para as bicicletas e equipamentos utilizados nas
competições oficiais.
Criada para garantir condições
de igualdade entre os corredores e evitar que a tecnologia se sobreponha ao
talento dos atletas, a regulamentação manteve praticamente intactos os seus
princípios essenciais desde meados da década de 1990. Contudo, a rápida
evolução dos materiais, da engenharia e do desenvolvimento tecnológico levou a
que muitos setores da indústria considerem hoje essas normas desajustadas à
realidade atual.
A revisão agora anunciada
poderá abrir caminho a alterações significativas em várias áreas, incluindo o
peso mínimo das bicicletas, a geometria dos quadros, os sistemas de transmissão
e outros componentes técnicos utilizados no pelotão profissional.
Peso
mínimo volta ao centro do debate
Entre os temas que mais
atenção despertam encontra-se a possível revisão do limite mínimo de 6,8
quilogramas, estabelecido no ano 2000. Quando esta regra foi introduzida, a
utilização da fibra de carbono encontrava-se ainda numa fase inicial e existiam
preocupações legítimas relacionadas com a resistência e a segurança dos
equipamentos.
Hoje, porém, os avanços
tecnológicos permitem fabricar bicicletas extremamente leves sem comprometer a
fiabilidade estrutural. Por essa razão, engenheiros, fabricantes e
especialistas têm vindo a questionar a pertinência de manter um limite definido
há mais de duas décadas.
Uma eventual alteração desta
norma poderá representar uma mudança significativa na conceção das bicicletas
de competição dos próximos anos.
Novas
regras para quadros e transmissões em discussão
Apesar de a Carta de Lugano
ter permanecido praticamente inalterada, a UCI foi introduzindo ao longo do
tempo algumas adaptações técnicas relacionadas com a aerodinâmica, as
proporções dos tubos, a geometria dos quadros e a posição dos ciclistas sobre a
bicicleta.
As futuras alterações poderão
aprofundar ainda mais essa modernização, permitindo uma atualização abrangente
das regras que regulam os equipamentos utilizados nas provas internacionais.
Durante o Congresso da UCI
realizado em Montreal, à margem dos Campeonatos do Mundo, o organismo
reconheceu que a evolução da modalidade exige uma análise profunda do atual
enquadramento regulamentar.
Segundo a federação
internacional, três décadas após a adoção da Carta tornou-se indispensável
reavaliar o seu conteúdo, tendo em conta as mudanças tecnológicas, as novas
exigências de segurança e os desafios atuais enfrentados pelo ciclismo.
Indústria
terá voz ativa no processo
Uma das novidades mais
relevantes deste processo será o maior envolvimento dos fabricantes e dos
restantes intervenientes do setor. A UCI pretende criar um novo modelo de
consulta permanente com a indústria, através da constituição de vários comités
técnicos especializados.
Esses grupos de trabalho irão
analisar áreas específicas como quadros, rodas, pneus, vestuário e equipamentos
de proteção, permitindo que as decisões futuras resultem de uma colaboração
mais próxima entre reguladores e fabricantes.
A medida foi recebida de forma
positiva pelo setor, sobretudo após alguns episódios de tensão registados nos
últimos anos entre a UCI e determinadas marcas. Um dos casos mais mediáticos
envolveu a norte-americana SRAM, na sequência das regras que limitaram
determinadas configurações de transmissão e acabaram por gerar um conflito
jurídico.
Objetivo:
implementar novas regras em 2028
A UCI garante que a revisão
será conduzida de forma equilibrada, procurando preservar valores fundamentais
como a segurança dos atletas, a justiça desportiva, a universalidade da
modalidade e a sustentabilidade.
O organismo prevê apresentar
uma proposta preliminar da nova Carta de Lugano no início do próximo ano. A
versão definitiva deverá ficar concluída até ao final de 2027, com entrada em
vigor apontada para 2028.
Caso as alterações avancem
conforme previsto, o ciclismo poderá assistir à maior revolução tecnológica das
suas bicicletas desde a introdução das atuais regras, marcando o início de uma
nova era para equipas, fabricantes e corredores.


