Por: Miguel Marques
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A Volta à Catalunha 2026
prometia ser o ensaio geral para a Volta a Itália, a pouco mais de 1 mês da
primeira grande volta da temporada. Muita montanha, muitos ciclistas de
classificação geral, ausência de contrarrelógio, era um menu bem apresentado,
mas acabou por faltar algo à corrida, não obstante de algumas ilações
importantes poderem ser retiradas.
Dorian Godon foi o principal
protagonista da 1ª metade da corrida, com 2 vitórias, um 2º e um 4º lugar, para
uma Catalunha que se dizia um pesadelo para os homens rápidos, ofereceu 4
chegadas em pelotão compacto... calma, foram 5, já que, invulgarmente, o
circuito de Montjuic na última jornada não fez diferenças e a vitória também se
definiu ao sprint.
Posto isto, sobraram 2 etapas,
as de montanha, com denominador comum - a vitória de Jonas Vingegaard. Na
primeira, com final em La Molina, o dinamarquês dizimou a concorrência, na
segunda, com final em Queralt, limitou-se a controlar, arrancando perto da meta
para selar novo triunfo.
Estas exibições entregaram a
vitória na classificação geral, o que, perante a concorrência é um sinal muito
positivo de cara ao Giro e ao Tour. Ganhar o Paris-Nice e a Catalunha no mesmo
ano é algo que não se vê regularmente e o "alien" parece estar de
regresso ao seu melhor nível. Agora seguirá para altitude e só voltará à
competição a 8 de maio, na Bulgária, para a Grande Partenza da Volta a Itália,
onde é amplamente considerado o favorito máximo.
João
Almeida: motivos para preocupação?
Se, nas hostes da Team Visma |
Lease a Bike, o clima era de festa, no seio da UAE Team Emirates - XRG era de
desilusão, porque João Almeida, um dos principais favoritos à partida, rendeu
abaixo do esperado e terminou num longínquo 38º lugar na classificação geral.
Antes da corrida começar,
Almeida mostrava confiança, referindo que o percurso o favorecia, não obstante
da incerteza provocada pela doença, que o obrigou a saltar o Paris-Nice. Nos
primeiros dias, poucas conclusões, apenas a registar a má colocação durante as
bordures na 3ª etapa, algo que, infelizmente, continua a ser uma pedra no seu
caminho, mas não se traduziu em perdas de tempo. A tal etapa em que Remco
Evenepoel atacou e foi para a frente com Jonas Vingegaard, com o belga a acabar
por cair à entrada do quilómetro final, lembram-se?
Chegados à montanha, as
expectativas eram elevadas, mas começaram a descarrilar com uma queda antes da
subida final, a La Molina, perderia 2 minutos. O golpe maior veio no dia
seguinte, quando se esperava que desse uma resposta e tentasse lutar pela etapa...
16 minutos perdidos, não era normal, não era típico do João.
Para comprovar isto,
apresento-vos esta estatística, que enumera os resultados do ciclista natural
de A-dos-Francos nas corridas por etapas antes da Volta à Catalunha 2026, num
horizonte que remonta a março de 2024: 3º na Volta ao Algarve 2026; 2º na Volta
à Comunidade Valenciana 2026; 2º na Volta a Espanha 2025: abandono na Volta a
França 2026; 1º na Volta à Suíça 2025, 1º na Volta à Romandia 2025, 1º na Volta
ao País Basco 2025, 6º no Paris-Nice 2025, 2º na Volta ao Algarve 2025, 2º na
Volta à Comunidade Valenciana 2025, abandono na Volta a Espanha 2024, 4º na
Volta a França 2024, 2º na Volta à Suíça 2024, 9º na Volta à Catalunha 2024.
Pois bem, se excluirmos os
dois abandonos, são 12 corridas por etapas consecutivas a terminar no top 10,
isto é uma regularidade impressionante, permitam-me dizer: o João habituou-nos
mal! Não podemos escamotear que o resultado na Catalunha é negativo, mas tem
atenuantes: a doença, a falta de um estágio de altitude e uma UAE muito abaixo
do esperado.
Brandon McNulty e Adrià
Pericas nem se viram; Marc Soler, tal como tinha alertado na aproximação à
corrida, só procurou objetivos individuais e não foi capaz de os atingir,
falhando a vitória de etapa e a vitória na montanha; Vine abandonou antes de
chegar a montanha; Ivo Oliveira voltou a ser castigado pelas quedas; Filippo
Baroncini estava na primeira corrida após a grave lesão, tudo correu mal à
equipa número 1 do ranking.
Agora, Almeida seguirá para
altitude, tal como o seu rival, e só podemos esperar que melhore a sua condição
física e lute pelo pódio na Volta a Itália. Vingegaard parece estar num patamar
acima, mas o 2º lugar está perfeitamente ao alcance do homem da UAE Emirates,
que não perdeu as suas qualidades de um dia para o outro.
Além disso, preparar duas
grandes voltas numa temporada é muito exigente física e mentalmente, pode
perfeitamente tratar-se de uma estratégia para estar no pico de forma na 3ª
semana destas corridas, não me parece que este seja o cenário real, uma vez que
o próprio João Almeida admitiu não se sentir bem, questionando-se sobre o que
passava consigo. Todas as conjunturas são possíveis, mas independente da
análise, há algo que não pode ser questionado: João Almeida é um dos melhores
voltistas do pelotão!

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