sábado, 12 de novembro de 2016

“Como um simples hábito cultural holandês ajuda a salvar vidas de ciclistas no trânsito”

Por: Ana Freitas

Na Holanda, um costume antigo faz com que motoristas obrigatoriamente olhem na direção oposta da via antes de abrir a porta do carro, evitando colisões com bicicletas.

Quem usa bicicleta como veículo em grandes cidades já percebeu: há uma lista de acidentes mais comuns envolvendo bicicletas. Grande parte deles acontece quando um motorista faz uma manobra sem perceber a presença do ciclista ou não cumpre as leis de sinalização para conversões.

Um deles é conhecido em inglês como "dooring", quando um motorista ou passageiro abre a porta do carro na lateral da via e atinge o ciclista com ela.

Com o ciclista trafegando pela direita em uma ciclovia, por exemplo, isso pode acontecer quando um passageiro desce do carro em direção à calçada. Quando há carros estacionados do lado direito, um motorista ou passageiro desatento, que tente sair do carro pelo lado da via, também pode provocar esse tipo de acidente.

Em Chicago, nos EUA, 1 a cada 5 acidentes com bicicletas acontece dessa maneira - em 2012, houve um acidente do tipo a cada dois dias na cidade.

Os números inspiraram cicloativistas norte-americanos a buscarem uma solução na Holanda, país onde 27% de todos os deslocamentos são feitos de bicicleta e há quase uma bike para cada habitante.

Lá, apesar do número muito maior de ciclistas, uma diferença cultural simples faz com que os acidentes do tipo sejam raros: os holandeses sempre abrem a porta do carro usando a mão do lado oposto àquele que estiver encostado na porta. O vídeo a seguir, com legendas em inglês, ilustra a técnica:

Esse gesto simples força o passageiro ou motorista a girar o corpo e o olhar em direção à mão da via - o que permite que ele veja, pelo retrovisor e diretamente, se há um ciclista vindo ou não. Assim, é possível antecipar o acidente e evitá-lo.

A origem da "pegada holandesa"

Os norte-americanos batizaram o estilo holandês de abrir portas de "Dutch Reach", ou "pegada holandesa", em tradução livre. No entanto, na Holanda, o hábito não tem um nome e sequer é visto como algo especial ou diferente: é simplesmente como se abrem portas de carros.

Assim como somos ensinados desde pequenos que é preciso olhar para os dois lados antes de atravessar a rua - e, na vida adulta, isso se torna automático - é um dado cultural holandês que é necessário abrir a porta de carros dessa forma.

Afinal, na Holanda, com a grande quantidade de ciclistas a chance de atingir um ao abrir a porta do carro é mais alta. Por isso, os holandeses já crescem com a "pegada holandesa" como uma norma cultural enraizada. A "pegada holandesa" é cobrada até durante o exame oficial de habilitação do país.

“A ideia é substituir um hábito automático por outro hábito automático, sendo que o segundo é mais seguro. Esperamos que [a 'pegada holandesa'] seja incorporada em nossa sociedade como foi com os holandeses.”

Michael Charney, médico aposentado, ciclista e criador da campanha pela adoção da "pegada holandesa" nos EUA

No Brasil

A regulamentação que determina como motoristas devem se comportar em relação a ciclistas no Código de Trânsito Brasileiro diz, no artigo 49, que "motoristas e passageiros são obrigados a verificar o perigo causado pela abertura da porta antes de abri-la."

Essa diretriz não garante somente a segurança do ciclista, mas assegura a do motorista e do passageiro, já que não apenas ciclistas transitam pelas vias, mas também outros veículos grandes e em alta velocidade.

Para os ciclistas, não há recomendação específica no CTB que faça referência a esse tipo de acidente. Cicloativistas brasileiros, no entanto, como o site Vá de Bike, recomendam àqueles que pedalam no trânsito que ocupem a faixa da direita integralmente, mantendo distância dos carros estacionados, ainda que isso possa incomodar alguns motoristas.

Outra dica do site diz respeito à iluminação dianteira - "à noite, os motoristas buscam uma luz se aproximando para saberem se podem abrir a porta", explica o texto.

Por fim, como a "pegada holandesa" não é costume no Brasil, é especialmente importante que os ciclistas em ciclovias redobrem a atenção com carros parados a seu lado esquerdo - sobretudo em frente a locais tradicionais de desembarque, como, por exemplo, estações de metrô, pontos de ônibus e portas de escolas e faculdades. Nesses casos, o CTB define que a prioridade é sempre do pedestre que está desembarcando.

Fonte: Expresso