Por: Miguel Marques
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
A Noruega consegue colocar
ciclistas no topo da Volta a França, mas Jonas Abrahamsen acredita que o
ciclismo no país está, silenciosamente, a ser privado da visibilidade de que
precisa para sobreviver.
A preocupação não gira em
torno de medalhas, prestígio ou sequer da sua própria época de afirmação.
Abrahamsen questiona antes o que vem a seguir, e quem se inspira, se o ciclismo
profissional continuar a desaparecer dos ecrãs da televisão norueguesa.
Em entrevista à Domestique, o
corredor da Uno-X Mobility deixou um alerta que vai muito além de uma corrida
ou de uma decisão de calendário.
“Se não tens uma corrida
profissional na TV, as crianças não conseguem ver as estrelas”, disse
Abrahamsen, apontando para um fosso crescente entre o sucesso internacional e a
exposição doméstica.
Visibilidade, não sucesso, é o
verdadeiro problema
O argumento de Abrahamsen
assenta na ausência, não no fracasso. O desaparecimento da Volta à Noruega do
calendário, a transmissão intermitente e a atenção limitada dos media
generalistas deixaram o ciclismo cada vez mais marginalizado num país dominado
pelos desportos de inverno.
A dimensão do problema
frustra-o precisamente porque é resolúvel. “Será talvez um milhão de euros. Não
é nada para a Noruega”, afirmou, defendendo que o custo de manter uma corrida
profissional e uma cobertura consistente é irrisório face ao impacto de longo
prazo na participação e na formação. “É tão importante para a modalidade”.
Para Abrahamsen, as
consequências são geracionais. Sem modelos visíveis, o ciclismo luta por
atenção, independentemente do rendimento dos noruegueses lá fora. “A Noruega
sempre adorou os desportos de inverno”, acrescentou. “Também pode adorar o
ciclismo”.
Uma época
que mostra o que é possível
Estas palavras ganham peso à
luz do trajeto do próprio Abrahamsen. A sua vitória de etapa em Toulouse, na
Volta a França, não foi um golpe de sorte, mas o produto de experiência
acumulada e correção. Falou abertamente sobre lições de Tours anteriores, ajustando
o timing do sprint depois de ter arrancado cedo demais em 2023 e abordando os
momentos decisivos com mais contenção.
“Se gastasse a energia antes
do sprint, não conseguia ganhar”, avaliou, descrevendo um triunfo assente na
paciência e no cálculo, não no impulso.
A mesma lucidez aplicou-se ao
regresso de lesão no início da época. Após fraturar a clavícula pouco antes do
Tour, Abrahamsen procurou uma resposta médica definitiva em vez de arriscar por
instinto. “Soube bem ter um especialista a dizer estás apto ou não”, explicou,
antes de voltar quase de imediato aos treinos. O resultado não foi apenas
participar, mas vencer no maior palco do ciclismo.
Uno-X,
padrões e responsabilidade
A perspetiva de Abrahamsen
também é moldada pela longa ligação à Uno-X Mobility, um projeto que viu
crescer das raízes domésticas até à presença no WorldTour. Credita a influência
de figuras experientes como Alexander Kristoff na imposição de padrões de exigência
e profissionalismo, explicando como o comportamento, mais do que a retórica,
define o tom dentro da equipa. “Sempre que ele corre, dá tudo”, disse
Abrahamsen.
Com esse progresso, porém,
chega a expectativa. “Precisamos de mais corredores a dar o passo para as
vitórias”, acrescentou, reconhecendo que a oportunidade, por si só, não garante
resultados. O estatuto WorldTour da equipa foi conquistado sob pressão constante
e lutas por pontos no fim da época, não oferecido pela reputação.
Um aviso,
não uma queixa
Abrahamsen evita enquadrar as
suas palavras como ressentimento. Lêem-se como um aviso de quem conhece os dois
lados do sistema. Internacionalmente, o ciclismo norueguês prospera. Em casa,
teme que esteja a tornar-se invisível.
“É uma merda”, disse sobre a
situação atual, regressando ao ponto central da exposição. Sem corridas na
televisão, sem presença doméstica consistente, o funil arrisca estreitar antes
sequer de começar.
Para Abrahamsen, o perigo é
simples. O sucesso que não se vê custa a inspirar, e uma modalidade sem
estrelas visíveis raramente produz novas.
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