Por: Ivan Silva
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O ciclismo português atravessa
um momento de reflexão profunda. Três jovens ciclistas anunciaram recentemente
a retirada da modalidade, justificando a decisão com a falta de condições e com
um cenário que consideram pouco favorável à continuidade de uma carreira
profissional.
As palavras que deixaram,
marcadas por frustração e desencanto, não surgem isoladas. Pelo contrário,
encaixam num padrão que se tem vindo a acentuar nos últimos anos: nas últimas
cinco épocas, 30 corredores com menos de 25 anos abandonaram as equipas continentais
portuguesas.
O pelotão nacional,
tradicionalmente reconhecido pela sua capacidade de resistência e pela paixão
que move os seus protagonistas, tem-se transformado, nas palavras de muitos
intervenientes, num verdadeiro ‘cemitério’ de jovens carreiras.
Ferreira,
Gonçalves e Sousa
Hélder Gonçalves, José Sousa e
António Ferreira são apenas os exemplos mais recentes de um fenómeno que
levanta sérias interrogações sobre o modelo atual. Todos decidiram desistir do
sonho profissional, invocando falta de condições, desmotivação e ausência de
perspectivas de evolução.
A tendência não é nova, mas
tornou-se particularmente visível no final da temporada passada. Hélder
Gonçalves, de 25 anos, e José Sousa, de 26, anunciaram com poucos dias de
diferença o fim das respetivas carreiras. As publicações que partilharam
revelaram desilusão com o rumo do ciclismo português e expuseram um mal-estar
que já circulava nos bastidores do pelotão.
Semanas depois, foi a vez de
António Ferreira, também de 25 anos, pendurar a bicicleta. O seu abandono
acentuou a percepção de que o problema não se trata de casos isolados, mas de
um padrão que se repete e que compromete a renovação geracional.
Os números são elucidativos.
Nas últimas cinco épocas, três dezenas de ciclistas com menos de 25 anos
abandonaram as equipas continentais portuguesas. Alguns deixaram
definitivamente o ciclismo, optando por seguir outras carreiras profissionais.
Outros mantiveram-se ligados à modalidade, mas em formações amadoras,
afastando-se do circuito profissional. Em qualquer dos casos, o resultado é o
mesmo: o pelotão perde juventude, perde talento e perde potencial de
desenvolvimento.
Em declarações à agência Lusa,
o agora engenheiro de software não escondeu a tristeza perante esta realidade.
Considerou lamentável que corredores “com muita qualidade e jovens que
supostamente deveriam estar agora a atingir a maturidade máxima no desporto”
tenham decidido acabar a carreira.
“Neste momento, a única coisa
que devemos fazer é perceber porque é que os atletas novos desistiram. Há
alguns casos que foi mesmo por saturação máxima, mas sei que há atletas, meus
colegas, que tinham todo o prazer e gostavam de continuar, mas é impensável. As
equipas que estiveram envolvidas nesses processos deviam perceber o que é que
deveriam melhorar, se deveriam ter dado mais ou menos condições, o que
aconteceu”, defendeu.
As palavras apontam para uma
necessidade urgente de introspeção. A decisão de abandonar uma modalidade tão
exigente como o ciclismo raramente é tomada de forma leviana. Exige ponderação,
implica abdicar de anos de sacrifício e de investimento pessoal, e representa,
muitas vezes, o fim de um projeto de vida iniciado na adolescência.
Anos de
sacrifício para quê?
Também ouvido pela Lusa, José
Sousa deixou críticas claras à estrutura do ciclismo nacional. Para o antigo
ciclista, não basta apontar responsabilidades individuais, é preciso uma
análise abrangente que envolva equipas, federação e organizadores.
“Isto também é um mal que não
é de agora e que se vai resolver daqui a um ou dois anos. Isto foram erros, na
minha opinião, que foram cometidos, que nos trouxeram onde estamos agora”,
afirmou. A sua leitura é de que o problema resulta de decisões acumuladas ao
longo do tempo, que fragilizaram a base formativa e reduziram as oportunidades
para os mais jovens.
José Sousa foi ainda mais
direto ao abordar a aposta na juventude. Na sua perspetiva, neste momento, essa
aposta é “zero”. E deixou um aviso que soa a alerta estratégico: dentro de 10
anos, “não há gente que queira ser ciclista, nem há ciclistas, nem há matéria-prima
para trabalhar”.
O antigo corredor recordou o
seu percurso e a evolução das provas de formação para ilustrar a mudança de
paradigma. “Em 2018, quando subi a profissional, ainda como sub-23 no
Miranda-Mortágua, a Volta a Portugal do Futuro tinha uma dimensão que tem agora,
se calhar, uma corrida normal de profissionais. Morreu um bocadinho a Volta a
Portugal do Futuro e, depois, […] muitos diretores fazem as equipas [sub-23]
para encher os bolsos e não é para formar os miúdos”, denunciou.
As declarações deixam
transparecer a percepção de que o ciclismo de formação perdeu protagonismo e
qualidade competitiva. Se as provas destinadas a sub-23 deixam de representar
um verdadeiro laboratório de desenvolvimento, a transição para o escalão profissional
torna-se mais abrupta e menos sustentada.
Cândido
Barbosa admite precariedade
A Federação Portuguesa de
Ciclismo acompanha com preocupação esta realidade. Em declarações à Lusa, o
presidente Cândido Barbosa admitiu estar “efetivamente” inquieto com “alguma
precariedade” na modalidade, “desde logo na formação”.
“Não têm ‘nascido’ novos
atletas. Temos a pirâmide demasiado alta, porque temos campeões da Europa,
campeões do Mundo e campeões olímpicos, e não temos uma base sustentável”,
avaliou o dirigente. A imagem da pirâmide demasiado alta é esclarecedora: o topo
apresenta resultados de excelência, mas a base não acompanha o mesmo ritmo de
crescimento.
Cândido Barbosa reconheceu
ainda que o ciclismo português precisa de se “atualizar”, embora tenha
sublinhado que o país está a “exportar ciclistas” para “o mais alto nível como
nunca esteve”. Este contraste, entre sucesso internacional e fragilidade interna,
evidencia uma dualidade difícil de gerir.
Sobre a vaga de retiradas
precoces, o presidente da federação considerou que o fenómeno poderá ter também
“a ver um pouco com a geração”. Ainda assim, deixou uma crítica estrutural: “O
ciclismo português não está de todo a acompanhar o que é a evolução do ciclismo
lá fora. Por isso é que estamos a fazer um trabalho na base”.
O desafio, portanto, não é
apenas reter talentos, mas modernizar processos, criar condições de
estabilidade e garantir percursos progressivos que permitam aos jovens
ciclistas acreditar que vale a pena insistir. O ciclismo é uma modalidade de
maturação tardia, onde muitos atletas atingem o pico competitivo depois dos 25
ou 26 anos. Quando jovens abandonam antes dessa fase, o sistema perde
investimento e reduz o seu próprio potencial de sucesso futuro.
Um alerta
que já tem anos
A síntese do que aconteceu é
clara: três jovens ciclistas decidiram abandonar a modalidade por falta de
condições e por desmotivação perante um modelo que consideram pouco
sustentável. O que está em causa, porém, vai muito além de casos individuais.
Trata-se de um sinal de alerta sobre a formação, o apoio estrutural e a
capacidade do ciclismo português em acompanhar a evolução internacional.
Se a aposta na juventude
continuar a ser percecionada como “zero”, o risco é real: a médio prazo, o
pelotão poderá enfrentar uma escassez de talentos formados internamente. E
quando a base enfraquece, todo o edifício competitivo fica ameaçado. O momento exige
autocrítica, planeamento e ação concreta. Caso contrário, o ‘cemitério’ de
jovens carreiras poderá continuar a crescer, silenciosamente, temporada após
temporada.