Por: José Morais
O ciclismo nacional perde mais
um rosto jovem. Aos 26 anos, José Sousa decidiu colocar um ponto final numa
carreira profissional que prometia mais tempo e outras conquistas, mas que
acabou travada por um conjunto de fatores estruturais, financeiros e emocionais
que, segundo o próprio, tornaram impossível continuar.
Depois de oito temporadas no
pelotão, o ciclista optou por “encostar a bicicleta” no final de uma época
marcada por problemas de saúde e por um calendário competitivo limitado, que
lhe retirou margem de negociação para renovar contrato. A decisão, amadurecida
ao longo de 2024, foi tornada pública a 29 de novembro, através das redes
sociais, num texto onde já se percebia uma rutura profunda com a modalidade.
Instabilidade
como regra
A precariedade dos contratos
foi um dos pontos centrais na decisão. No ciclismo português, os vínculos
anuais continuam a ser a norma, dificultando qualquer planeamento de vida fora
da estrada. Com novas responsabilidades pessoais casamento, casa e contas
fixas, Sousa sentiu que a modalidade já não lhe oferecia a mínima segurança
financeira.
A situação agravou-se após uma
época discreta, que o deixou dependente de propostas consideradas pouco dignas
para um atleta profissional. Sem poder negocial e perante salários baixos, a
saída acabou por ser encarada como a única solução para não ficar “parado” à
espera de uma oportunidade que podia nunca surgir.
Relação
desgastada com as equipas
Integrado na Anicolor-Tien21,
o corredor sentiu que o seu crescimento competitivo entre 2023 e 2024 não teve
o reconhecimento esperado. A exclusão de provas-chave, como a Volta a Portugal,
teve um impacto psicológico determinante e alterou de forma irreversível a
forma como passou a olhar para o ciclismo.
Antes disso, havia construído
o percurso na Miranda-Mortágua, em 2018, e passado cinco épocas na Oliveirense,
onde consolidou a sua presença no pelotão nacional. Entre os principais
resultados, ficam a medalha de bronze na prova de fundo sub-23 dos Nacionais de
2020 e a vitória numa etapa do Grande Prémio Douro Internacional, em 2023.
Um
ciclismo que perdeu brilho
Para além da experiência
pessoal, Sousa deixa críticas mais amplas ao estado do ciclismo em Portugal. Na
sua visão, a modalidade perdeu carisma, competitividade e capacidade de
renovação. Dirigentes, organizadores e estruturas mantêm-se praticamente inalterados
há anos, criando um ambiente pouco propício à inovação.
Essa estagnação reflete-se
também no desinteresse dos próprios ciclistas em participar ativamente na
resolução de problemas coletivos. Enquanto representante da equipa na
Associação de Ciclistas, Sousa recorda reuniões com fraca adesão e pouca
vontade de discutir temas como segurança em corrida ou pagamento de prémios.
Pressão
externa e concorrência desigual
Outro fator apontado é a
crescente entrada de ciclistas estrangeiros, muitos deles com passagem pelo
World Tour, que aceitam competir em Portugal por valores residuais ou apenas em
troca de material. Esta realidade cria uma concorrência difícil para os corredores
nacionais, que veem as equipas optar por soluções mais baratas, mesmo que isso
implique desvalorizar talento local.
Num mercado já frágil, pedir o
salário mínimo praticado na modalidade torna-se, muitas vezes, inviável face a
atletas dispostos a correr apenas pela oportunidade de relançar a carreira.
O futuro
fora da bicicleta
Apesar da saída precoce, José
Sousa não corta laços com o ciclismo. Assume sentir saudades da competição, mas
garante não estar arrependido. Mantém-se ligado à modalidade através do
trabalho como massagista na NSN, do World Tour e integra também o projeto
InGamba, dedicado a experiências de ciclismo de luxo.
Visto de fora, acredita ter
tomado a melhor decisão possível. Financeira, emocional e psicologicamente,
entende que continuar a competir nas atuais condições seria insustentável. A
sua história acaba por ser mais do que um caso individual: é um sinal de alerta
sobre a dificuldade crescente em ser ciclista profissional em Portugal mesmo
quando o talento e a vontade ainda existem.

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