Por: Miguel Marques
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O Campeonato do Mundo de
Florença de 2013 continua a ser uma corrida que não se explica com uma única
imagem. Não basta rever o final ou isolar o último movimento decisivo. Joaquim
Rodríguez analisou, no seu canal de YouTube, a prova que marcou parte da sua
carreira, dissecando um Mundial que, para si, ficou decidido muito antes da
fase final. Uma corrida em que Rui Costa acabou por superar o catalão e
Alejandro Valverde com inteligência tática.
O ‘Purito’ insiste que uma
corrida assim tem de ser entendida como um todo. Não começa na última subida
nem se decide apenas com a aceleração final. Começa no quilómetro zero, quando
o pelotão ainda está compacto, mas a batalha invisível já começou.
“As pessoas precisam de
contexto. Para mim, a corrida divide-se em três zonas”. Desde o início, o
catalão sublinha um ponto-chave: a colocação. Num Mundial, explica, não se pode
correr ao acaso se és um dos marcados. Cada metro mal colocado paga-se mais tarde,
quando já não há espaço para recuperar.
“Se és líder, tens de estar
bem colocado para evitar o chicote, para prevenir cortes, para não teres de
perseguir demasiado, sobretudo no início, porque tens de guardar muito para o
final”.
Os quilómetros iniciais não
são mera formalidade. São terreno de controlo constante, onde as seleções se
testam sem mostrarem todas as cartas. É quando se forma a fuga e, com ela, uma
das decisões mais importantes do dia.
“Por volta do quilómetro 15,
20, 25 costuma sair a fuga”. Aí começa o equilíbrio delicado entre as equipas
que querem ganhar o Mundial. Não se trata só de deixar sair, mas de ver quem
vai na frente. Purito explica a partir da perspetiva de quem alinhou muitas
vezes como favorito.
Equilíbrios
para vencer um Mundial
“Tentas evitar que outra
equipa com ambição, a Liquigas com o Vincenzo no nosso caso, o Valverde com a
Movistar, meta alguém na fuga, porque caso contrário és tu que ficas obrigado a
trabalhar”.
Colocar um corredor na frente
não é um gesto menor. É um investimento para mais tarde. Se não o fazes,
assumes um encargo de trabalho que, numa corrida tão longa e dura, pode ser
decisivo. “Ou se metes alguém lá, poupas trabalho no final. Neste caso, não
metemos ninguém”.
Esse detalhe molda a narrativa
do Mundial. A partir daí, a corrida entra numa segunda fase, em que o terreno
começa a doer e a margem de erro desaparece. “Depois esperas pela segunda
parte, que costuma ser numa zona muito dura. A cem da meta, uma zona muito
dura”.
Florença não ofereceu
descanso, com um circuito que tinha duas subidas exigentes e muita chuva,
tornando também as descidas perigosas. O percurso estreitava quando ainda
faltava muito, obrigando a gastar energia antes do previsto. A dificuldade não
estava só nos números, mas na tensão constante para manter a posição.
“Muito dura e com uma luta
stressante para entrar ali, pelas razões de que falamos sempre”. Nessa altura,
Purito desenha um quadro que mostra como a corrida se rarefez. Um olhar rápido
em redor, uma fotografia do grupo da frente, e a sensação de que muitos
favoritos já estavam fora de posição.
“Chegámos lá os da Katusha e
eu olhei para os vinte primeiros, estávamos lá os nossos oito, e não via
líderes à minha volta. E continuei a olhar e a pensar ‘bolas, este já foi,
aquele também’”.
O ritmo imposto cedo
transformou o Mundial numa corrida sem pausas. Não houve tempo para reorganizar
ou recuperar o que se perdeu. Tudo aconteceu demasiado depressa. “Foi um dia
bastante rápido. Não tínhamos ninguém na fuga. E a fuga também não ia muito longe”.
O moedor
de Florença
Cada um destes fatores
acumulou fadiga, decisões forçadas e situações no fio da navalha. Florença
tornou-se um teste de resistência em que o vencedor nem sempre é o mais forte,
mas quem melhor gere o dia inteiro.
Com o tempo, o Mundial de 2013
foi analisado de todos os ângulos. Ainda assim, quando Purito é questionado
diretamente sobre essa corrida, a resposta não deixa espaço para dúvidas ou
arrependimentos públicos. “Cometeste um erro em Florença? Não”.
O espanhol atacou nos
quilómetros finais, mas foi alcançado por Rui Costa. O incomum foi que, no
pequeno grupo perseguidor, onde apenas Vincenzo Nibali os acompanhava,
Alejandro Valverde não respondeu ao ataque de Costa na última zona plana.
Esse erro permitiu a Costa
alcançar Rodríguez e depois sprintar para a vitória, enquanto Valverde foi
terceiro ao sprint. O desastre tático da seleção espanhola colocou os dois no
pódio, mas custou o triunfo em Florença.





