Por: José Morais
Uma investigação conduzida
pelos meios de comunicação holandeses NOS e In de Waaier lançou uma sombra
pesada sobre a equipa Picnic PostNL. Setenta e um antigos ciclistas e
funcionários denunciaram alegadas práticas de intimidação, controlo excessivo e
um ambiente laboral que, segundo vários testemunhos, terá afetado profundamente
a saúde mental de quem integrou a estrutura.
As acusações surgem numa
altura particularmente delicada para a formação neerlandesa, apenas um dia após
alcançar a sua primeira vitória da temporada no World Tour e quando atravessa
uma das fases mais difíceis da sua história em termos desportivos.
Testemunhos
revelam clima de medo e falta de liberdade
Os relatos recolhidos
descrevem uma cultura interna caracterizada por uma forte centralização das
decisões, alegadamente liderada pelo diretor-geral Iwan Spekenbrink e pelo
diretor desportivo Rudi Kemna. Diversos antigos elementos da equipa afirmam que
qualquer opinião contrária à linha definida pela direção era mal recebida e
podia ter consequências na carreira dos atletas.
Entre os casos mais marcantes
está o de Martijn Tusveld, antigo corredor da equipa, que revelou ter perdido a
confiança para expressar as suas opiniões após contestar opções táticas durante
o Giro de Itália de 2020. Segundo o próprio, esse episódio marcou uma mudança
profunda na forma como passou a ser tratado dentro da estrutura.
Tusveld afirmou que, a partir
desse momento, optou por deixar de questionar decisões e limitar-se a cumprir
instruções. O ex-ciclista chegou mesmo a admitir que atravessou um período de
depressão e que enfrentou pensamentos relacionados com automutilação durante os
últimos anos da sua ligação à equipa.
Mudanças
após o triunfo de Dumoulin
Vários depoimentos apontam
para uma transformação significativa da cultura interna após a conquista do
Giro de Itália de 2017 por Tom Dumoulin.
Adriaan Helmantel, antigo
treinador do vencedor da prova italiana, recorda que a comunicação entre
corredores e treinadores passou a ser rigidamente controlada. Segundo a sua
versão, qualquer diálogo relevante deveria passar previamente pela
administração, reduzindo a autonomia dos profissionais que trabalhavam
diretamente com os atletas.
Para Helmantel, a nova
filosofia privilegiava uma abordagem excessivamente hierarquizada e afastava os
corredores dos processos de decisão relacionados com o seu próprio rendimento.
Acusações
de desumanização dos atletas
Muitos dos testemunhos
coincidem numa crítica recorrente: a ausência de flexibilidade e de atenção às
necessidades individuais dos corredores.
Antigos membros da equipa
descrevem um ambiente em que os protocolos eram considerados mais importantes
do que as circunstâncias pessoais de cada atleta. Alguns chegaram mesmo a
afirmar que os ciclistas eram tratados como peças substituíveis dentro de um
sistema altamente controlado.
Um antigo corredor relatou que
pediu apoio psicológico à estrutura e recebeu como resposta uma demonstração de
desconfiança em relação à utilidade desse acompanhamento. Outros asseguram que
procuraram ajuda especializada apenas depois de abandonarem a equipa.
Nicolas
Roche confirma experiência difícil
O irlandês Nicolas Roche, que
representou a equipa nas últimas temporadas da sua carreira, também deu a
conhecer a sua experiência.
Segundo Roche, os primeiros
tempos foram positivos, mas a situação alterou-se significativamente a partir
de 2020. O antigo profissional recorda episódios em que foi repreendido por
realizar sessões de treino diferentes das planeadas pela equipa, apesar de
acreditar que essas adaptações eram benéficas para a sua preparação.
Na sua opinião, o ciclismo
exige capacidade de adaptação permanente e não pode ser gerido exclusivamente
através de protocolos rígidos ou modelos teóricos.
Crise
desportiva agrava pressão sobre a estrutura
As revelações surgem num
momento em que a Picnic PostNL enfrenta uma acentuada quebra competitiva.
Depois de anos de sucesso e de passar pela equipa talentos como Tom Dumoulin,
Marcel Kittel, Jai Hindley, Felix Gall, Marc Hirschi ou Thymen Arensman, a formação
neerlandesa ocupa atualmente os últimos lugares da hierarquia do World Tour.
O fraco desempenho da equipa
alimentou recentemente especulações sobre uma eventual descida voluntária ao
escalão Pro Team, cenário que acabou por ser rejeitado pela direção.
Confronto
com jornalistas gera polémica
A investigação ganhou ainda
maior dimensão devido à forma como elementos da equipa terão reagido à presença
dos jornalistas responsáveis pela reportagem.
Segundo os autores da
investigação, a tentativa de obter esclarecimentos na sede da formação acabou
por ser marcada por momentos de tensão, com relatos de comportamentos hostis e
confrontos verbais dirigidos aos repórteres.
Picnic
anuncia investigação independente
Perante a repercussão das
denúncias, a Picnic PostNL divulgou um comunicado no qual rejeita a imagem
retratada pela investigação, mas reconhece a gravidade das alegações
apresentadas.
A equipa informou que irá
promover uma investigação independente para avaliar como a cultura
organizacional é vivida internamente e verificar se essa realidade corresponde
aos valores que pretende defender.
A formação neerlandesa afirmou
ainda que pretende compreender por que motivo alguns colaboradores e atletas se
sentiram inseguros ou entenderam não ter tido espaço suficiente para expressar
as suas preocupações, garantindo total colaboração no processo de análise que
agora será iniciado.

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