Por: José Morais
O Tour de França deixou para
trás o brilho catalão do Grand Départ e mergulhou, sem cerimônia, no território
onde a corrida realmente fala: as montanhas. Entre Granollers e Les Angles, a
terceira etapa nasceu abrasadora, tensa e imprevisível e terminou com Tadej
Pogacar reclamando o que parecia inevitável desde o primeiro metro: vitória e
liderança geral.
O ritmo explodiu logo na
largada. O pelotão avançou como se alguém tivesse acendido um pavio, com
ataques sucessivos, quedas, furos e uma disputa feroz para entrar na fuga.
Ninguém queria esperar, ninguém queria economizar forças. O cheiro de
oportunidade estava no ar.
Entre os mais insistentes
surgiu Raúl García Pierna, que tentou, falhou, tentou de novo até finalmente se
instalar numa escapada numerosa e de forte presença espanhola, ao lado de Álex
Aranburu e Abel Balderstone. A fuga ganhou corpo com nomes como Pedersen, Cort,
Plapp, Schmid, Bennett e Tejada. Egan Bernal até tentou juntar-se ao grupo, mas
um furo o tirou da jogada no momento decisivo.
O dia, porém, não estava para
calmaria. Um acidente coletivo deixou Bruno Armirail com o joelho comprometido.
A estrada catalã, quente e irregular, castigava sem piedade. A Movistar dividiu
esforços: García Pierna e Nelson Oliveira na frente, enquanto Cian Uijtdebroeks
sofria atrás antes de conseguir se recompor.
A fuga, inicialmente robusta,
começou a perder peças na Collada de Toses, o primeiro grande teste da etapa.
García Pierna atacou com coragem logo no início da subida, abrindo espaço como
quem quer deixar sua assinatura antes que os favoritos entrem em cena. No topo,
restavam apenas seis sobreviventes da aventura.
Mas atrás deles, algo maior se
movia. A Visma-Lease a Bike controlava o ritmo com Jonas Vingegaard de amarelo,
até que os Emirados Árabes Unidos decidiram mudar a música. Vermeersch, Wellens
e Politt aceleraram um após o outro, transformando perseguição em aviso:
Pogacar queria o dia para si.
A fronteira simbólica apareceu
em Puigcerdà. O Tour deixou a Catalunha e entrou na França, onde a corrida
sempre parece pesar mais. O Col du Calvaire aguardava como um presságio: dali
em diante, só sobreviveria quem tivesse fé, força e pulmão.
Na frente, Baudin tentou
resistir com Prodhomme, mas o trem dos Emirados devorava segundos sem piedade.
A vantagem caiu para menos de um minuto, e a chegada em Les Angles já se
desenhava como palco para os grandes nomes.












