Por: Letícia Martins
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Ontem assistimos a uma
exibição histórica de Tadej Pogacar na Volta à Flandres, ao juntar-se ao clube
exclusivo dos tricampeões do Monumento belga. O esloveno voltou a deixar
Mathieu van der Poel para trás nas rampas brutais do Oude Kwaremont e do Paterberg,
obrigando-o a contentar-se com o segundo lugar numa corrida onde Remco
Evenepoel e Wout van Aert foram também protagonistas.
Lance Armstrong, George
Hincapie, Johan Bruyneel e Spencer Martin analisaram a corrida no podcast The
Move, dissecando uma corrida dominada por Tadej Pogacar com a mesma receita de
2025, uma sequência de ataques nas colinas empedradas que acabou por deixar
todos os rivais para trás.
Armstrong foi o mais
categórico. A sua análise não deixa espaço para ambiguidades ou comparações
abertas: “Temos de acabar com este debate. Para mim, está encerrado. Este tipo
é assim tão bom. É o maior de todos os tempos, de longe.” Não é apenas uma reação
quente após uma vitória, mas uma conclusão que, no seu entender, assenta em
padrões repetidos. Pogacar não só vence, como o faz em cenários completamente
distintos, sempre com sensação de controlo.
Essa perceção ganha força
quando Armstrong descreve o que acredita estar a acontecer dentro do pelotão:
“Vê-se nos outros corredores… eles sabem. Sabem como isto vai. O único fator
que poderia mudar algo seria uma queda ou azar, e mesmo isso pode não o travar.”
A ideia de inevitabilidade não é apenas mediática ou externa. É, na sua
análise, parte da psicologia competitiva do grupo. Os rivais não correm apenas
contra Pogacar, mas também contra a expectativa de que, mais cedo ou mais
tarde, ele vai impor-se.
Na mesma linha, Armstrong leva
o problema a quase absolutos: “É quase impossível batê-lo.” Longe da retórica,
a afirmação foi reforçada pela forma como a corrida decorreu na Flandres, onde
as manobras táticas não conseguiram desviar o guião esperado.
Numa perspetiva mais
estrutural, Bruyneel acrescenta um ponto-chave: o domínio de Pogacar não está
confinado a uma única especialidade. “O facto de ele poder ganhar e dominar
praticamente qualquer corrida… não corre muito, mas quando corre, é para ganhar.
E quase sempre ganha.” Esta versatilidade, combinada com uma calendarização
seletiva, aumenta a taxa de sucesso e amplifica a sensação de superioridade.
Uma Volta
à Flandres brutal
A corrida, por si, reforçou
essa ideia. Bruyneel sublinhou um detalhe elucidativo: “O facto de os cinco
primeiros chegarem um a um é um claro indicador de como a corrida foi
brutalmente dura. É pura eliminação.” Não se decidiu num único golpe tático,
mas por desgaste extremo onde, progressivamente, só os mais fortes
sobreviveram. Entre eles, Pogacar voltou a fazer a diferença.
Nem todas as análises se
focaram apenas na superioridade individual. Hincapie introduziu um ponto
crítico sobre o comportamento coletivo do grupo: “Eles limitaram-se a rodar e a
manter a diferença… fizeram a corrida dura, o que basicamente significa correr
para o Pogacar.”
A sua leitura aponta para um
paradoxo. Ao endurecer a corrida sem um plano alternativo, os rivais acabaram
por jogar a favor do corredor mais forte. Isso também se aplicou à última hora
de corrida, onde Remco Evenepoel e Mathieu van der Poel colaboraram com o
Campeão do Mundo apesar de saberem que isso podia sair caro mais tarde.
Daí, propôs uma opção que
considerou subutilizada: “Porque não enviar outros corredores para a frente e
deixar de puxar naquele grupo? Isso obriga o Pogacar a perseguir.” A ideia
sugere uma abordagem mais agressiva e menos previsível, transferindo para o
favorito a responsabilidade de controlar a corrida.
Ainda assim, Bruyneel trouxe
uma dose de realidade que limita esses planos: “A maioria desses corredores já
ia no limite só para estar ali. Para atacar era preciso ter pernas, e muitos
estavam apenas a aguentar.” Em suma, a teoria tática colide com a fisiologia.
Numa corrida tão exigente como a Volta à Flandres, nem sempre há margem física
para executar estratégias ideais”.
O debate, portanto, não é
apenas tático, é cultural. Hincapie explicou-o a partir da mentalidade do
profissional: “Não está no ADN deles não trabalhar. Quando estão na frente,
trabalham. Querem uma corrida justa e são todos muito confiantes.” Isso revela
uma lógica interna do pelotão que dificulta a cooperação estratégica contra um
dominador claro. Mesmo quando correm uns contra os outros, os corredores seguem
certos códigos que moldam as suas decisões”.
Ciclismo
moderno
Bruyneel alargou o ponto com
uma reflexão sobre o ciclismo moderno: “Hoje em dia as táticas estão
sobrevalorizadas… cada equipa cumpre o seu plano e não há cooperação para ir
contra um corredor.” Neste contexto, a fragmentação estratégica beneficia figuras
como Pogacar, que não precisam de alianças para impor a sua vontade.
O resultado é um cenário onde,
como admite Bruyneel, as ambições dos restantes se ajustam a outra realidade:
“A partir de certa altura, todos tentam consolidar a sua posição e obter o
melhor resultado possível… tens de pensar em estar no melhor lugar para ser
segundo caso aconteça algo ao Pogacar.” Essa linha sintetiza uma mudança
profunda na lógica competitiva. Quando vencer parece fora de alcance, o
objetivo passa a ser maximizar o resultado dentro desse limite.





