Por: José Morais
Paula Blasi já não pedala na
sombra. A espanhola que há poucos meses conciliava treinos com estudos e
trabalho entra este sábado no Tour de França Feminina como uma figura
observada, analisada e temida. A vitória na La Vuelta apagou o anonimato e
empurrou-a para o centro das atenções, obrigando-a a estrear-se na prova mais
longa e exigente da história recente: 1.175 quilómetros, 18.795 metros de
desnível e um juiz implacável à espera o Mont Ventoux.
A estreia chega carregada de
simbolismo. Paula Blasi continua a ser uma novata, mas já não é uma incógnita.
O paradoxo acompanha-a desde o primeiro dia: aprender enquanto todos a
observam.
O salto
para o profissionalismo
Até há pouco tempo, Paula
Blasi dividia o ciclismo com a vida académica e um emprego. A
profissionalização mudou tudo: descanso tornou-se treino, alimentação virou
estratégia, e cada detalhe passou a contar.
“Agora preciso de encarar isto
como trabalho. Não é só prazer, há partes duras que também fazem parte”,
admite.
Num Tour de nove etapas, essa
gestão invisível dormir bem, recuperar, controlar o desgaste pesa tanto quanto
a força das pernas.
Uma
estreante com estatuto
Blasi não chega sozinha ao
desafio. No UAE Team ADQ, partilha responsabilidades com Elisa Longo Borghini e
Mavi García, duas veteranas que lhe oferecem margem para errar, aprender e
arriscar.
Mavi García, aos 41 anos,
funciona como bússola: lê fugas, percebe o vento, antecipa o caos do pelotão.
Blasi observa, absorve, replica.
A rota
mais dura de sempre
O percurso desta edição é um
teste de resistência e nervos:
Etapas planas três dias para
ganhar ritmo e evitar quedas.
Média montanha três etapas
onde o desgaste começa a pesar.
Contrarrelógio em Dijon o
primeiro momento de verdade.
Jura e Mont Ventoux dois
monstros que decidem destinos.
Final em Nice explosivo,
técnico, com o col d’Èze repetido até à exaustão.
O Ventoux, com 15,7 km a 8,8%,
será o ponto de viragem para todas.
As rivais
que moldam o Tour
A luta pela camisola amarela
promete intensidade máxima:
Pauline Ferrand-Prévot a
defensora do título.
Demi Vollering sempre à caça
da coroa perdida.
Kasia Niewiadoma imprevisível,
ataca onde ninguém espera.
Anna van der Breggen, Marlen
Reusser, Longo Borghini, Backstedt, Gery um pelotão sem espaço para distrações.
Paula Blasi entra como
aprendiz… e ameaça.
O
verdadeiro desafio
O Tour não exige que Paula Blasi
vença. Exige que sobreviva:
às primeiras etapas nervosas, ao
contrarrelógio que revela demasiado, ao Ventoux que destrói ilusões, e ao dia
seguinte, sempre ao dia seguinte.












