Por: José Morais
Num pelotão onde as grandes
estrelas escolhem cuidadosamente cada corrida para preservar a forma física e
mental, houve um ciclista que seguiu precisamente o caminho contrário. Em 2026,
o francês Baptiste Veistroffer tornou-se o corredor com mais dias de competição
em todo o ciclismo profissional, assinando uma temporada verdadeiramente fora
do comum.
A evolução do ciclismo moderno
levou a uma redução significativa do número de dias de corrida por atleta. Os
programas de altitude, a preparação científica e a gestão rigorosa do esforço
fazem com que muitos dos principais nomes do pelotão participem hoje em menos
provas do que acontecia há uma década.
Um dos exemplos mais claros é
Mathieu Van der Poel. O neerlandês concluiu a temporada de 2026 com apenas 45
dias de competição oficial, um número semelhante aos registados nos anos
anteriores. A receita tem resultado: menos corridas, maior foco nos grandes
objetivos e um impressionante nível de rendimento quando chega o momento
decisivo.
Mas enquanto os líderes
escolhem cuidadosamente o calendário, outros ciclistas assumem um papel
completamente diferente dentro das equipas. São os homens de trabalho, os
caçadores de fugas e os corredores sempre disponíveis para competir quando
necessário.
Foi nesse grupo que Baptiste
Veistroffer se destacou de forma extraordinária. O corredor da Lotto
Intermarché acumulou 89 dias de competição ao longo da época, liderando
destacadamente a classificação dos atletas mais ativos do ano. Atrás dele
surgiram o companheiro de equipa Liam Slock e nomes como Georg Steinhauser,
Dries Van Gestel, Guillaume Martin, Darren Rafferty, Rémy Rochas e Filippo
Zana, todos eles com calendários bastante preenchidos.
Apesar destes números
impressionantes, os registos atuais continuam abaixo dos que eram comuns
noutras épocas. Há pouco mais de uma década, alguns profissionais ultrapassavam
regularmente a marca das cem jornadas de competição por temporada, numa realidade
muito diferente da que se vive atualmente.
A história de Veistroffer
torna-se ainda mais peculiar quando se conhece o seu percurso fora do ciclismo.
Antes de apostar profissionalmente na bicicleta, trabalhou como engenheiro
naval. Hoje, aos 26 anos, vive o melhor momento da carreira e não esconde a
paixão pela competição.
Sempre que a equipa lhe
apresentou oportunidades para alinhar à partida, a resposta foi quase sempre
afirmativa. Para o francês, cada corrida representa uma nova possibilidade de
atacar, aprender e evoluir. Essa atitude transformou-o numa presença constante
nas fugas e num dos corredores mais combativos da temporada.
Nem sequer o período de
descanso parece abrandar o seu entusiasmo. Após o final da época, Veistroffer
planeou umas férias pouco convencionais: três semanas a percorrer mais de 2.500
quilómetros de bicicleta, uma demonstração clara de que a paixão pelas duas
rodas continua tão forte como no primeiro dia.
Com contrato renovado, margem
de progressão e uma motivação intacta, o antigo engenheiro naval prepara-se
para continuar a desafiar as tendências do ciclismo moderno, provando que ainda
existem corredores capazes de transformar cada oportunidade de competir numa
verdadeira forma de vida.

