Por: José Morais
O Giro d’Itália 2027 foi
oficialmente apresentado em Roma e deixa desde já uma certeza: os candidatos à
vitória final terão de conquistar a camisola rosa nas montanhas. Com partida
marcada para Trieste, a 8 de maio, e chegada em Roma, a 30 de maio, a próxima
edição apresenta um percurso exigente, desenhado para trepadores puros e
recheado de etapas capazes de provocar diferenças significativas na
classificação geral.
Ao longo de 3.418 quilómetros
e mais de 50.000 metros de desnível acumulado, os corredores enfrentarão sete
chegadas em alto, dois contrarrelógios individuais e algumas das ascensões mais
emblemáticas da história da corrida italiana. Entre os grandes regressos
destacam-se o Passo Gavia, ausente desde 2014, e o temível Monte Zoncolan, dois
nomes que continuam a representar o lado mais épico e brutal do ciclismo de
montanha.
Montanha
no centro das atenções
A edição de 2027 foi
claramente desenhada para favorecer os homens da classificação geral capazes de
brilhar nas subidas. Os Apeninos e os Alpes surgem como palco principal de uma
corrida que acumulará sucessivas jornadas de desgaste antes de entrar na decisiva
terceira semana.
Além das chegadas em alto,
haverá dois contrarrelógios com características muito distintas. O primeiro
será uma prova de escalada até Campo di Giove, enquanto o segundo, totalmente
plano, ligará Monza a Milão e poderá beneficiar os especialistas contra o
cronómetro.
Esta será também a primeira
edição concebida sem a intervenção de Mauro Vegni, histórico diretor da prova,
que terminou funções após mais de uma década à frente da organização.
Quem pode
lutar pela camisola rosa?
Entre os nomes apontados como
possíveis protagonistas surge naturalmente Remco Evenepoel. A presença do belga
continua incerta, sobretudo devido às características favoráveis do Tour de
France, mas a combinação entre montanha e contrarrelógio torna o Giro
particularmente atrativo para o campeão olímpico.
Jonas Vingegaard aparece
igualmente entre os potenciais candidatos. O dinamarquês poderá optar por
centrar a temporada numa Grande Volta alternativa ao Tour, encontrando em
Itália uma oportunidade para enriquecer o seu palmarés.
Já Paul Seixas poderá apostar
numa preparação orientada para o Campeonato do Mundo, enquanto equipas como UAE
Team Emirates, Red Bull-Bora-Hansgrohe e Lidl-Trek deverão apresentar líderes
alternativos de grande qualidade. Isaac del Toro, Florian Lipowitz, Giulio
Pellizzari e Mattias Skjelmose são alguns dos nomes que poderão assumir papel
de destaque.
Por outro lado, Tadej Pogacar
dificilmente marcará presença. O esloveno deverá concentrar os seus objetivos
no Tour e na Vuelta, depois de ter visto fugir o sonho de conquistar as três
Grandes Voltas.
Sprinters
terão vida difícil
Apesar de existirem várias
etapas teoricamente favoráveis aos velocistas, o percurso está longe de ser
amigável para os homens rápidos. Muitas jornadas apresentam finais acidentados,
subidas próximas da meta e terreno ideal para ataques tardios de puncheurs e
escapados.
Na prática, as oportunidades
para chegadas ao sprint poderão ser bastante inferiores às inicialmente
previstas pela organização.
Primeira
semana já promete seleção
A corrida arranca em Trieste
com uma etapa nervosa e propícia a diferenças imediatas entre os favoritos.
Logo nos primeiros dias surgem percursos ondulados capazes de favorecer
corredores explosivos, antes da primeira chegada em alto na subida para Sassotetto.
Outro dos momentos marcantes
da semana inaugural será o contrarrelógio de montanha até Campo di Giove, a
primeira grande oportunidade para os candidatos à geral medirem forças
individualmente.
O encerramento da primeira
semana acontecerá em Monte Livata, numa chegada em altitude que poderá
consolidar os primeiros homens fortes da corrida.
Segunda
semana combina equilíbrio e armadilhas
Depois do primeiro dia de
descanso, o Giro entra numa fase mais equilibrada, alternando oportunidades
para fugitivos, velocistas resistentes e candidatos à classificação geral.
A chegada ao Passo Due Santi
deverá provocar nova seleção entre os favoritos, enquanto o contrarrelógio de
37,3 quilómetros entre Monza e Milão poderá alterar significativamente as
posições na luta pela camisola rosa.
Mortirolo,
Gavia e Zoncolan: a trilogia do sofrimento
A
terceira semana concentra os momentos mais aguardados da corrida.
A etapa com chegada a Aprica
deverá ser uma das mais difíceis da última década. O percurso inclui duas
passagens pelo Mortirolo e uma travessia do lendário Passo Gavia, ultrapassando
os 5.700 metros de desnível acumulado. Trata-se de uma jornada concebida para
destruir resistências e criar diferenças substanciais entre os favoritos.
Poucos dias depois, Madonna di
Campiglio servirá de cenário para mais um duro teste de montanha, antes do
derradeiro confronto na subida ao Monte Zoncolan.
Com rampas que rondam os 12%
de inclinação média, o Zoncolan voltará a assumir o papel de juiz supremo da
corrida. A subida poderá decidir definitivamente o vencedor do Giro ou
confirmar a superioridade de quem chegar vestido de rosa à última montanha.
Roma
volta a fechar a festa
Após três semanas de grande
dureza, a corrida terminará novamente em Roma. A capital italiana receberá a
tradicional etapa final, destinada aos velocistas sobreviventes e às
celebrações do vencedor da classificação geral.
Tudo aponta para um Giro d’Itália
2027 construído à medida dos grandes escaladores, com uma combinação rara de
montanhas históricas, etapas extremamente exigentes e um percurso capaz de
proporcionar uma das lutas pela camisola rosa mais emocionantes dos últimos
anos.

Sem comentários:
Enviar um comentário