Por: José Morais
Durante vários anos, o nome de
Sam Bennett foi sinónimo de velocidade pura. O ciclista irlandês protagonizou
algumas das épocas mais dominadoras entre os sprinters do pelotão
internacional, acumulando triunfos nas maiores corridas do calendário e rivalizando
com os melhores finalizadores da sua geração. No entanto, o cenário em 2026 é
muito diferente: o antigo vencedor da camisola por pontos do Tour de France
enfrenta a possibilidade de encerrar a carreira longe dos holofotes que um dia
conquistou.
Entre
problemas de saúde e falta de oportunidades: uma época para esquecer
A temporada de 2026 ficou
marcada por dificuldades em série para Bennett. Uma intervenção cardíaca,
através de uma ablação, atrasou o arranque da sua época e comprometeu a
preparação física. O regresso à competição aconteceu mais tarde do que o
habitual e, desde então, o irlandês nunca conseguiu recuperar os níveis que o
transformaram num dos velocistas mais temidos do mundo.
Ao serviço da equipa suíça
Q36.5, os resultados ficaram aquém das expectativas. Sem alcançar qualquer
vitória, Bennett passou grande parte do ano longe da discussão dos triunfos.
Ainda assim, nos meses finais, deixou alguns sinais encorajadores, conseguindo
classificações dentro do top 10 em provas como o Renewi Tour e o Tour da
Grã-Bretanha.
Esses desempenhos, contudo,
parecem não ter sido suficientes para garantir o futuro. A estrutura liderada
por Tom Pidcock continua a evoluir e a aumentar a competitividade interna,
reduzindo drasticamente o espaço para veteranos. Aos 36 anos, e com apenas 52
pontos UCI conquistados ao longo de 38 dias de competição oficial, o irlandês
encontra-se numa posição delicada num mercado já praticamente fechado.
Uma
carreira marcada por vitórias memoráveis
Independentemente do desfecho,
o currículo de Bennett continua a impressionar. Ao longo da carreira somou 71
vitórias profissionais, incluindo alguns dos maiores sucessos disponíveis para
um velocista.
Entre os resultados mais
marcantes destacam-se as vitórias em etapas das três Grandes Voltas: três no
Giro d'Italia, cinco na Vuelta a España e duas no Tour de France. A estas
juntam-se ainda triunfos em corridas prestigiadas como a Paris-Nice, a Eschborn-Frankfurt
e a Clássica Bruges-De Panne.
O seu momento mais alto surgiu
quando conquistou a classificação por pontos da Volta a França, superando nomes
históricos da especialidade, entre eles Peter Sagan. Nessa fase da carreira,
Bennett era apontado como uma das referências absolutas da velocidade mundial.
O peso da
saída da Quick-Step
A trajectória do irlandês
também voltará a alimentar o debate em torno do chamado "efeito
Quick-Step". Muitos corredores brilharam intensamente com a formação
belga, mas poucos conseguiram manter o mesmo nível competitivo depois de a
abandonarem.
O próprio Bennett admitiu, ao
longo dos anos, que algumas decisões tiveram impacto na sua carreira,
nomeadamente as ausências no Tour de France em momentos importantes da sua
passagem pela Quick-Step e também no regresso à BORA. Curiosamente, uma das frases
que deixou ficou gravada como uma espécie de previsão involuntária: não queria
ser visto como mais um dos corredores que saíram da Quick-Step e deixaram de
vencer.
Hoje, essa realidade parece
difícil de ignorar.
Ainda
haverá uma última oportunidade?
Apesar das dificuldades, o
mercado de transferências nem sempre fecha todas as portas. A experiência, o
nome e o histórico de Bennett continuam a ter valor no pelotão internacional, e
não seria surpreendente que alguma equipa lhe oferecesse uma derradeira
oportunidade.
Ainda assim, o cenário mais
provável aponta para uma despedida discreta de um corredor que, durante alguns
anos, foi simplesmente um dos melhores velocistas do planeta. Um final agridoce
para uma carreira que conheceu o topo do ciclismo mundial e que merece ser
recordada muito para além dos resultados das últimas temporadas.

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