Ex-ciclista denuncia ambiente de pressão e afirma que muitas vítimas foram desacreditadas
Por: José Morais
A controvérsia em torno da
estrutura da Picnic PostNL continua a ganhar dimensão. Depois da divulgação de
uma investigação que reuniu testemunhos de dezenas de antigos corredores e
funcionários, descrevendo um ambiente marcado por medo, controlo excessivo e
pressão constante, surgiram também vozes em defesa da equipa. No entanto, a
antiga ciclista Molly Weaver decidiu responder publicamente a essas posições,
afirmando que a sua experiência pessoal foi muito diferente.
A britânica, que integrou as
equipas Liv-Plantur e Sunweb entre 2015 e 2017, utilizou as redes sociais para
contestar as declarações de John Degenkolb e Warren Barguil, dois nomes
históricos ligados à formação. Segundo Weaver, o facto de alguns atletas não
terem vivido situações negativas não invalida os relatos daqueles que alegam
ter sido prejudicados.
“O facto de algo não vos ter
acontecido não significa que os outros estejam a mentir”, escreveu a
ex-corredora, acrescentando que alguns atletas podem simplesmente ter tido uma
experiência mais favorável dentro da estrutura.
“Fui
desacreditada quando denunciei o que vivi”
Weaver afirmou ainda ter
ficado surpreendida ao ver antigos e actuais membros da equipa rejeitarem as
acusações reveladas pela investigação. Para a antiga atleta, este tipo de
reacção não é novidade.
Segundo explicou, quando expôs
as dificuldades que enfrentou durante a sua passagem pela organização, também
foi alvo de críticas e descrença. A ex-ciclista garante que ninguém tem
interesse em inventar histórias deste género e recorda que falar publicamente
sobre o assunto acabou por trazer consequências negativas para a sua própria
carreira.
“Partilhar estas experiências
nunca foi vantajoso para quem as viveu”, defendeu, sublinhando que a decisão de
falar teve custos pessoais e profissionais significativos.
Apesar das críticas dirigidas
ao funcionamento da equipa, Weaver fez questão de salientar que nem tudo foi
negativo. Recorda com apreço algumas pessoas com quem trabalhou e reconhece que
existiram momentos positivos durante os anos passados na estrutura.
Acusações
de vigilância permanente e controlo rigoroso
Entre os aspectos mais
polémicos apontados pela antiga corredora está o nível de supervisão exercido
sobre os atletas.
De acordo com o seu
testemunho, existia a expectativa de uma disponibilidade quase permanente,
obrigando os corredores a responder rapidamente a mensagens e a justificar
frequentemente actividades e deslocações. Qualquer atraso ou incumprimento
poderia resultar em sanções internas.
Para Weaver, este modelo de
gestão criou um ambiente excessivamente controlador e acabou por afectar o
bem-estar de vários atletas.
“As
consequências foram reais”
A ex-ciclista considera que o
debate vai muito além das discussões nas redes sociais. Na sua opinião, as
marcas deixadas por determinadas práticas organizacionais tiveram impacto
profundo na vida de várias pessoas.
Segundo afirmou, algumas
carreiras ficaram comprometidas e muitos atletas sofreram consequências
psicológicas e físicas duradouras. Weaver defende que a forma como os
corredores são tratados dentro das equipas deve ser uma prioridade e alerta
para os efeitos que ambientes de elevada pressão podem ter a longo prazo.
A polémica continua, assim, a
dividir opiniões no pelotão internacional, entre os que defendem a estrutura da
Picnic PostNL e os que consideram que a investigação revelou problemas que não
podem ser ignorados. O caso promete continuar a gerar debate no mundo do
ciclismo profissional.

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