sexta-feira, 14 de agosto de 2026

“O que comem os corredores durante a Volta a Portugal?”


A alimentação é uma parte essencial da estratégia de corrida e ajuda os corredores a manter a energia, a concentração e a capacidade de recuperação ao longo de quase duas semanas de competição. Com a ajuda de Pedro Meirinhos, nutricionista especializado em desportos de endurance e fundador do projeto Fuel the Excellence®, fomos perceber como se alimentam os corredores ao longo da maior e mais exigente prova do ciclismo português.

Os treinos são fundamentais, mas disputar uma Volta a Portugal, com mais de 1.400 quilómetros percorridos ao longo de quase duas semanas, exige também uma estratégia nutricional rigorosa e adaptada ao esforço de cada etapa.

Durante a prova, os corredores precisam de manter elevados níveis de potência, resistência e concentração, recuperando diariamente para voltarem a competir poucas horas depois. Neste contexto, comer deixa de ser apenas uma necessidade básica: passa a fazer parte da própria estratégia de corrida.

O objetivo da alimentação durante a corrida não é propriamente aumentar a força do ciclista, mas sim atrasar a fadiga e preservar a capacidade de produzir energia até ao final da etapa. Em termos simples: menos cansaço, o mesmo desempenho.


O princípio não é muito diferente daquele que se aplica a qualquer pessoa que pratique ciclismo durante várias horas. O que muda no alto rendimento é a quantidade de energia necessária, o grau de planeamento e a precisão com que tudo é executado.

Uma quebra de rendimento nos quilómetros finais nem sempre significa falta de preparação física. Muitas vezes, como explica o nutricionista Pedro Meirinhos, a quebra resulta de uma ingestão insuficiente de energia (nomeadamente, alimentos ou produtos fornecedores de hidratos de carbono) ou de líquidos ao longo da etapa.

 

Comer antes de ter fome

 

Durante a corrida, os corredores alimentam-se e hidratam-se regularmente, muitas vezes em intervalos de 20 a 30 minutos, mesmo quando ainda não sentem fome ou sede. O objetivo, segundo o nutricionista, é evitar que as reservas de energia (principalmente, glicogénio muscular) diminuam excessivamente e garantir que o organismo continua a receber combustível ao longo de toda a etapa.

Nas provas de longa duração, acima das três horas, as recomendações habituais situam a ingestão de hidratos de carbono à volta das 90 gramas por hora, podendo variar consoante a duração e a intensidade do esforço. No ciclismo profissional, alguns corredores podem ultrapassar os 90 gramas por hora, chegando a consumir 120 ou até 150 gramas por hora, mas apenas através de estratégias individualizadas e previamente treinadas.

 

Hidratos de carbono em diferentes formatos

 

Ao longo de uma etapa, os corredores combinam alimentos sólidos, semissólidos e líquidos, escolhidos de acordo com o momento da corrida, a intensidade do esforço e a tolerância individual.

4ª Etapa Figueiró dos Vinhos – Covilhã/Torre 154,6Km, 09.08.2026 da 87ª Volta a Portugal, de 05 a 16 de Agosto de 2026 Foto: Igor Martins / FPC

Entre as opções mais frequentes encontram-se os géis de hidratos de carbono, as bebidas desportivas, as barras e gomas energéticas, fruta e outros alimentos de digestão fácil como os purés de fruta, rice cakes, marmelada e aletria, por exemplo.

Nas primeiras horas da etapa é habitual existir maior recurso a alimentos sólidos. À medida que a intensidade aumenta e a meta se aproxima, ganham importância os géis e as bebidas com hidratos de carbono, por serem mais fáceis e rápidos de consumir.

 

Cafeína, eletrólitos e hidratação

 

A cafeína pode ser utilizada através de géis, bebidas, barras, gomas ou cápsulas, para ajudar a manter o estado de alerta e apoiar o desempenho em momentos específicos da corrida. A sua utilização é planeada em função do corredor, da etapa e do momento competitivo.

Os eletrólitos, sobretudo o sódio, ajudam a repor parte dos minerais perdidos através da transpiração e são particularmente relevantes em etapas longas ou disputadas sob temperaturas elevadas. A hidratação deve, contudo, ser ajustada às condições meteorológicas, à duração da etapa, à taxa e ao tipo de transpiração de cada corredor.

Nada é deixado ao acaso. A quantidade e o tipo de alimentos e bebidas são definidos pelos nutricionistas e pelas equipas, tendo em conta o percurso, o clima, a intensidade prevista e as características de cada ciclista.

 

O intestino também se treina

 

Os corredores não começam a ingerir grandes quantidades de hidratos de carbono apenas durante a competição. Ao longo da época, treinam o sistema digestivo para tolerar alimentos, géis e bebidas durante esforços prolongados e de elevada intensidade.

Este processo, frequentemente designado por “treino do intestino”, permite aumentar a capacidade de absorção de hidratos de carbono e reduzir o risco de desconforto gastrointestinal durante a corrida.

Na Volta a Portugal, cada gel, cada bidão e cada alimento entregue na zona de abastecimento fazem parte de um plano cuidadosamente preparado. Tal como a escolha da bicicleta, a estratégia da equipa ou o momento de atacar, a alimentação também pode fazer a diferença entre chegar ao fim do grupo da frente ou perder contacto nos quilómetros decisivos.

Fonte: Volta Portugal

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