quarta-feira, 29 de julho de 2026

“Markel Beloki assume o comando do Tour de l’Ain”


Por: José Morais

O espanhol de 21 anos viveu um dia de afirmação absoluta no Tour de l’Ain. Markel Beloki, jovem promessa da EF Education–EasyPost, transformou uma fuga ousada numa vitória categórica na segunda etapa e, com ela, conquistou a liderança geral da prova francesa. Foi o seu primeiro triunfo como ciclista profissional um marco que confirma o talento já anunciado quando venceu o Tour da Alsácia em 2025 e o título espanhol júnior de contrarrelógio em 2023.

 

Etapa marcada pelo Col de Portes e pela coragem

 

A jornada entre Saint-Vulbas e Lagnieu, com 161,9 km, prometia abalar a classificação geral graças à dupla ascensão ao Col de Portes (14,6 km a 5,4%). Depois de um primeiro dia reservado aos sprinters, o terreno montanhoso abriu espaço para os escaladores e para quem ousasse atacar de longe.

Nos primeiros 70 km, o pelotão manteve-se compacto. Só na aproximação à primeira subida surgiu a fuga inicial, composta por Jason Tesson, Kenny Molly, Morné van Niekerk e Maximilien Juillard este último a passar em primeiro no topo da montanha. Atrás, Wout Poels e a formação Unibet tentaram controlar, mas só na segunda passagem pelo Col de Portes a perseguição resultou.

 

Beloki muda o ritmo… e muda a corrida

 

A EF Education acelerou de forma decisiva na segunda subida. A seleção natural deixou na frente um grupo reduzido, onde Beloki se juntou ao equatoriano Jefferson Alexander Cepeda vencedor do Tour de l’Ain em 2024 e ao brasileiro Henrique Bravo, da Soudal Devo.

Beloki começou por trabalhar para Cepeda, mas rapidamente percebeu que tinha melhores pernas. Avançou com Bravo e Jamie Meehan, antes de serem alcançados pelos franceses Axel Mariaul e Rémi Arsac. O grupo parecia destinado a discutir a etapa ao sprint… até que Beloki decidiu escrever outro final.

A menos de 10 km da meta, o espanhol lançou um ataque seco, irresistível. Ninguém respondeu. Cruzou a meta isolado, com 54 segundos de vantagem sobre o grupo perseguidor, onde Noa Isidore foi segundo e Nicola Conci terceiro.

 

Último dia promete decisão em alta montanha

 

A etapa final, entre Oyonnax e Lélex Monts-Jura (131,5 km), inclui sete subidas categorizadas e termina no duríssimo Col de Menthières primeira categoria, 9,1 km a 7%. Beloki parte de amarelo, mas terá de defender a liderança num terreno que pode virar a corrida do avesso.

“Triunfo de Raça: Thomas Silva domina Lubián e volta a erguer os braços na Castilha y León”


Por: José Morais

Thomas Silva, da XDS Astana, voltou a mostrar que atravessa uma semana de ouro. Depois da vitória em Ordizia, o uruguaio assinou nova exibição ao conquistar a XL Clássica Ciclista Castilha y León, cruzando a meta em 4h23m41s, a impressionantes 43,3 km/h de média.

 

A fuga madrugadora que incendiou a corrida

 

Logo após os 5,3 km neutralizados em Benavente, o pelotão lançou-se rumo a Santa Cristina de la Polvorosa e a fuga do dia nasceu quase de imediato. Oito ciclistas animaram a frente da corrida:

Ronan Augé: Unibet Rose Rockets

Rayan Boulahoite: TotalEnergies

Adrián Benito: Polti VisitMalta

Leangel Linárez: Tavfer Ovos Matinados Mortágua

Lucas Grieco: AVC Aix-en-Provence

Viacheslav Ivanov: Feirense Beeceler

Edson Corbadora: Victoria Sports

Jaume Espuis: Meridian Racing

Linárez brilhou nas metas intermédias de Mózar e El Puente de Sanabria, enquanto Ivanov colecionou pontos decisivos na montanha, vencendo em Ferreras de Arriba (4.ª cat.) e Padornelo (2.ª cat.). Foi aí que a fuga começou a ruir, deixando apenas Benito, Boulahoite e Ivanov na dianteira.

 

Astana assume o comando e muda o rumo da corrida

 

Na primeira passagem por Lubián e já a subir para A Canda, o trio começou a perder terreno. O ritmo imposto pela XDS Astana reduziu a vantagem e Ivanov ainda garantiu pontos suficientes para vencer a classificação da montanha.

A fuga desfez-se por completo em Castromil, onde Boulahoite tentou resistir sozinho. Mas o esforço foi curto: a Euskaltel Euskadi acelerou e neutralizou o francês antes da Ponte Hermisende.

 

Ataques bascos, tensão máxima e um final explosivo

 

A equipa basca não se ficou por aí. Lançou sucessivos ataques em Hermisende e nas encostas de Castrelos, preparando um final nervoso que deixou cerca de 25 ciclistas na luta pela vitória.

Ao entrar em Lubián, Scaroni endureceu o ritmo, obrigando Roger Adrià (Movistar) a responder. O cenário estava montado para um final de força pura.

Foi então que Thomas Silva escolheu o momento perfeito: arrancou com autoridade, abriu espaço e selou uma vitória categórica, repetindo o gesto triunfal do dia anterior.

Roger Adrià foi segundo, Cristian Scaroni completou o pódio e a XDS Astana saiu da Castilha y León com uma atuação coletiva de enorme impacto.

“Pódio em Debate: Patrick Lefevere lança dúvidas sobre o brilho dos novos talentos do Tour”


Por: José Morais

O Tour de França terminou, mas o pós corrida continua a fervilhar. Entre análises, projeções e leituras técnicas, uma voz experiente voltou a marcar posição: Patrick Lefevere, figura histórica do ciclismo mundial, decidiu olhar com lupa para dois dos nomes que mais surpreenderam nesta edição Paul Seixas e Isaac Del Toro.

 

A ascensão meteórica de Paul Seixas

 

Lefevere, antigo mentor de Remco Evenepoel, não escondeu o espanto perante o desempenho do jovem francês de 19 anos. Mas, ao mesmo tempo, deixou claro que não teria tomado a mesma decisão da equipa Decathlon.

Seixas no Tour “Impressiona-me, mas eu não o levaria ao Tour tão jovem”, afirmou.

O francês terminou em 4.º lugar, sem quedas graves e com uma consistência notável ao longo das três semanas.

Patrick Lefevere reconheceu que o desgaste dos últimos dias era “normal”, mas insistiu que “não se deve saltar etapas” na formação de um talento desta dimensão.

Mesmo assim, o belga admitiu que, com Vingegaard e Lipowitz em prova, Seixas talvez tivesse sido 6.º, resultado que, no seu entender, continuaria a ser extraordinário para alguém com tão pouca experiência.

 

A polémica: Del Toro teria chegado ao pódio sem Pogacar?

 

A crítica mais dura surgiu quando Patrick Lefevere analisou o desempenho de Isaac Del Toro, terceiro classificado, vencedor de etapa e melhor jovem.

Del_Toro no pódio “Sem Pogacar, Del Toro provavelmente não teria chegado ao pódio e certamente não teria vencido a etapa”, disparou.

O mexicano enfrentou problemas de saúde na última semana, mas Patrick Lefevere sublinhou que Pogacar foi decisivo: protegeu-o na etapa da vitória e colocou-o em posição favorável nas montanhas.

Ainda assim, o veterano reconheceu que Del Toro não foi apenas passageiro no “comboio” esloveno:

Atacou Seixas quando sentiu o terceiro lugar ameaçado.

Soube responder nos momentos críticos.

E mostrou personalidade competitiva quando a corrida apertou.

Ou seja, para Patrick Lefevere, o apoio de Pogacar foi determinante, mas não suficiente para apagar o mérito próprio do jovem talento da UAE.

 

Evenepoel: o antigo pupilo que surpreendeu

 

No fecho da entrevista, Patrick Lefevere voltou-se para Remco Evenepoel, ciclista que treinou e acompanhou de perto durante anos.

Admitiu que tinha dúvidas sobre a capacidade de Remco para manter o nível durante três semanas.

Mas reconheceu que o belga “provou que ele estava errado”.

E deixou no ar uma previsão: quando Pogacar mostrar fragilidade, Evenepoel poderá finalmente disputar o Tour “de igual para igual”.

 

Para onde segue o debate?

 

As palavras de Patrick Lefevere reacendem uma discussão antiga no ciclismo: até que ponto o talento puro explica resultados extraordinários e quanto depende do contexto, da equipa e das estrelas que os rodeiam?

Ficha Técnica

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