sábado, 25 de abril de 2026

"Os ciclistas contaram toda a verdade. Eu não sabia de nada" - Adriano Quintanilha sobre o caso que abalou a W52”


Por: Ivan Silva

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O empresário Adriano Quintanilha, antigo principal responsável pela estrutura da W52-FC Porto, avançou com um recurso para o Tribunal da Relação do Porto após ter sido condenado, em primeira instância, a quatro anos e nove meses de prisão efetiva no âmbito da Operação Prova Limpa.

No documento entregue pela defesa, o ex-dirigente contesta de forma total a decisão do Tribunal de Penafiel e garante nunca ter participado num esquema de doping dentro da equipa.

A condenação de Quintanilha marcou um dos momentos centrais do processo que abalou o ciclismo português, depois de as autoridades desmantelarem uma rede de utilização e administração de substâncias proibidas ligada à formação que dominou a Volta a Portugal durante vários anos.

 

Defesa fala em erro judicial e rejeita qualquer envolvimento

 

No recurso apresentado pelos advogados Mário Santos Paiva e Maria Amaral Jorge, a defesa é perentória quanto à inocência do empresário. “A condenação de Adriano Sousa [conhecido socialmente como Adriano “Quintanilha”] é, a todos os títulos, um colossal erro da justiça portuguesa”.

Os representantes legais sustentam que o antigo dirigente nunca teve qualquer papel na obtenção, financiamento ou conhecimento de práticas dopantes no seio da equipa. “Não teve conhecimento, participação e muito menos financiou qualquer esquema de práticas dopantes e de métodos proibidos no seio da equipa W52 - FC Porto”.

Segundo os advogados, a própria prova recolhida durante a investigação não sustentaria a tese acusatória. “Nenhuma interceção telefónica, nenhuma comunicação escrita, nenhum documento, nenhuma das quase 100 testemunhas e nenhum dos demais 25 arguidos sustentam uma versão contrária, nem ao de leve, antes pelo contrário”.

 

O pagamento de 2.430 euros no centro da polémica

 

Um dos elementos considerados decisivos pelo coletivo de juízes foi um pagamento de 2.430 euros relacionado com substâncias adquiridas para a equipa. A acusação entendeu que essa transferência demonstrava conhecimento direto de Quintanilha sobre o esquema.

O empresário rejeitou essa leitura e, em declarações escritas enviadas à CNN Portugal, insiste que os próprios ciclistas o ilibaram ao ongo do processo.

“Os ciclistas contaram toda a verdade, como compravam as substâncias e o que faziam com elas, sempre referindo que eu nada sabia e que não estava minimamente envolvido”.

Quintanilha acrescenta ainda que a relevância atribuída a esse montante é desproporcionada face ao orçamento global da estrutura.

“O coletivo de juízes de Penafiel desvalorizou isto, concentrando-se apenas num pagamento de 2.430 euros, dentro de um orçamento da equipa que rondava 1,1 milhões de euros por ano. E desconsiderou também o facto de, quanto a esse pagamento, a nossa PJ ter apanhado, em escutas, o massagista da equipa a pedir aquele pagamento ao dr. Hugo Veloso, contabilista, ao que este respondeu: ‘Eu a eles [a mim e à restante gestão da Associação Calvário Várzea Clube de Ciclismo] não lhes chego a dizer o que é que é..”

Segundo a defesa, existiriam ainda escutas onde outros elementos da estrutura assumiam que não revelavam à administração o verdadeiro destino de determinados pagamentos.

 

Tribunal apontou liderança no esquema

 

Na sentença de primeira instância, os magistrados entenderam que Adriano Quintanilha desempenhava um papel nuclear no funcionamento da estrutura e nas decisões financeiras relacionadas com métodos proibidos.

O acórdão considerou que o empresário foi “um dos arguidos que engendrou o plano inicial do uso de substâncias e métodos proibidos”.

Os juízes acrescentaram que detinha o “poder de decisão final, nomeadamente no que concerne aos pagamentos dessas substâncias e métodos”.

Para o tribunal, o facto de ser presidente da associação responsável pela equipa agravava a sua responsabilidade, por lhe caber a proteção dos ciclistas e restantes elementos da formação.

 

Nuno Ribeiro também visado no recurso

 

Outro dos eixos centrais do recurso passa pelo ataque à credibilidade de Nuno Ribeiro, antigo diretor desportivo da W52 - FC Porto, figura igualmente central no processo.

A defesa de Quintanilha entende que o antigo responsável técnico tentou apresentar-se como vítima para escapar a uma pena mais pesada.

“As declarações do arguido Nuno Ribeiro foram pautadas por um constante recurso a uma retórica ad misericordiam, de se apresentar perante o Tribunal como alguém que era intimidado por Adriano Sousa a obter resultados a qualquer custo e que apenas estava para ser mandado embora da equipa por se ter insurgido contra as práticas dopantes, tudo com o objetivo não da descoberta da verdade, mas de não ser condenado em pena privativa da liberdade”.

Nuno Ribeiro já havia sido alvo de sanção disciplinar pesada por parte da Autoridade Antidopagem de Portugal, com suspensão de 25 anos da atividade.

 

Defesa relativiza impacto social do caso

 

No recurso, os advogados contestam ainda a forma como o tribunal avaliou a gravidade social do processo e os efeitos do doping na comunidade desportiva.

“O acórdão recorrido revela uma clara tendência para elevar esses efeitos a uma proporção quase cataclísmica”.

A defesa acrescenta que a ampla cobertura mediática não significa, por si só, existência de verdadeiro alarme social.

“Já que, se assim fosse sempre, qualquer fenómeno de histeria mediática significaria necessariamente a existência de alarme social-comunitário – o que bem se sabe não ser assim”.

Também quanto à igualdade competitiva, os advogados sustentam que não ficou demonstrado que apenas a W52-FC Porto recorresse a métodos proibidos.

“O tribunal (…) nunca deu como provado que os atletas das demais equipas contra as quais a W52 – FC Porto competia não utilizaram práticas dopantes para que se pudesse fazer essa avaliação da igualdade competitiva em concreto”.

 

Dois destinos opostos após o processo

 

Os relatórios sociais elaborados em 2024 traçaram retratos bem distintos dos dois principais protagonistas do caso.

Quintanilha surgia descrito como um empresário financeiramente estável, apoiado pela família e reconhecido em Felgueiras pelo sucesso empresarial no setor têxtil e comercial. Mantinha rendimentos elevados e continuava ligado à gestão de algumas empresas.

Já Nuno Ribeiro vivia uma realidade bastante diferente. Segundo o mesmo relatório, residia em Valongo com o pai idoso, trabalhava em campos agrícolas da família e recebia 776 euros mensais de subsídio de desemprego.

 

Relação do Porto terá última palavra

 

Com o recurso agora em análise, caberá ao Tribunal da Relação do Porto reavaliar a condenação e decidir se mantém, reduz ou revoga a pena aplicada ao antigo dirigente.

O desfecho poderá tornar-se um novo capítulo num dos maiores escândalos da história recente do ciclismo português, um caso que colocou sob suspeita resultados desportivos, títulos conquistados e a credibilidade de uma modalidade que durante anos viveu sob o domínio da W52 - FC Porto.

“Resultados 3a etapa da Volta às Astúrias 2026: Filippo Baroncini regressa ao pódio meses após acidente quase fatal, com Edgar Cadena a vencer”


Por: Letícia Martins

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Filippo Baroncini assinou uma das prestações de destaque da Vuelta a Asturias até agora, sprintando para o segundo lugar na 3ª etapa, em Vegadeo, apenas meses depois do grave acidente que ameaçou a carreira e a saúde.

O corredor da UAE Team Emirates-XRG comandou a perseguição atrás e cortou a meta a 26 segundos, um passo maior no regresso à primeira linha do pelotão, enquanto Edgar Cadena resistiu na frente para conquistar uma surpreendente vitória a solo após 157 km desde Figueras.

A etapa foi agressiva desde o tiro de partida, com repetidas tentativas de fuga rapidamente anuladas. Movimentos com corredores como Urko Berrade e combinações que incluíam Aimar Tadeo e Lennart Voege foram todos neutralizados, com o pelotão a recusar qualquer vantagem inicial.

Acabaria por se formar um grupo forte de sete. Nil Gimeno, Iuri Leitao, Carlos García Pierna, Nicolás Alustiza, Miguel Heidemann, Matthew Walls e Eduardo Pérez-Landaluce construíram mais de três minutos de vantagem, com a Movistar Team a assumir a responsabilidade na perseguição.

 

A corrida explode nas subidas com a UAE a apertar o ritmo

 

O Alto de la Bobia redefiniu a corrida, reduzindo a fuga a um trio com Gimeno, García Pierna e Alustiza. A 39 quilómetros do fim, García Pierna atacou, distanciou os companheiros e seguiu sozinho na dianteira. A sua ação foi depois perturbada por uma queda na descida do Alto de Orouso, mas conseguiu voltar à bicicleta e prosseguir, mantendo vivas as hipóteses.

Atrás, a corrida era ditada por uma ofensiva sustentada da UAE Team Emirates-XRG. O ritmo subiu de forma acentuada quando a equipa procurou isolar o líder Nairo Quintana, com ataques sucessivos a esticarem o grupo e a forçarem respostas do homem da Movistar. Quintana respondeu pessoalmente a cada aceleração, mantendo o controlo, enquanto a Movistar também aproveitou o terreno para manter a corrida sob pressão.

 

Cadena aproveita a oportunidade com Baroncini a liderar a perseguição

 

A manobra decisiva surgiu a 23 quilómetros da meta, quando Edgar Cadena saltou até García Pierna e, de imediato, prosseguiu sozinho. Com os favoritos presos num jogo tático atrás, a vantagem durou mais do que o esperado. Baroncini afirmou-se como o mais forte no grupo perseguidor, comprometeu-se totalmente nos quilómetros finais e distanciou o restante grupo.

Apesar de reduzir significativamente a diferença, não conseguiu alcançar Cadena, que cortou a meta isolado para vencer a etapa. Baroncini chegou 26 segundos depois para assegurar o segundo lugar, com Jermaine Zemke a completar o pódio.

Para Baroncini, o resultado representa um marco importante, sublinhando o regresso à alta competição após meses de recuperação e sinalizando a sua crescente influência na UAE Team Emirates-XRG à medida que a época avança.

"Era e sempre foi o Sr. Adriano que pagava o adubo para a W52 ganhar" - Nuno Ribeiro”


Por: Ivan Silva

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O processo de doping que abalou o ciclismo português continua a revelar novos detalhes sobre o funcionamento interno da antiga W52-FC Porto, equipa que dominou durante vários anos o panorama nacional.

Numa investigação da CNN Portugal, um dos destaques recai sobre Nuno Ribeiro, antigo diretor desportivo da estrutura, cujo depoimento em tribunal traçou um retrato severo de Adriano Quintanilha, empresário e principal financiador da equipa.

 

Adriano Quintanilha "O ditador"

 

Perante os juízes, Nuno Ribeiro descreveu Quintanilha como uma figura dominante dentro da estrutura. “Conheci o Sr. Adriano nos anos 90, um homem forte, apaixonado, intenso, prepotente, mas também muito arrogante e cruel no que toca às suas vontades e desejos. É um homem de negócios até no desporto, gosta de ganhar, o que é de realçar, mas sendo digno de toda a vontade já deixa de ser quando exige a quem corre que ganhe contra tudo e contra todos, inclusive contra as suas convicções e medos”.

No mesmo depoimento, Ribeiro relatou um ambiente de forte pressão interna e acusou o empresário de recorrer ao poder financeiro para controlar a equipa. “É um homem que insulta, berra e dessa forma pensa que persuade e motiva. (…) O Sr. Adriano quando percebe a dependência das pessoas pelo dinheiro, ele mexe na coação, usa isso a seu favor. Já alguém disse neste tribunal e agora aqui repito, na W52 – FC Porto vivia-se uma ditadura na gestão, sendo o ditador o Sr. Adriano. Assumiu uma equipa que era a minha, a Vintage Podium e fê-lo pela pressão de dinheiro”.

 

Contrato de Joni Brandão e as tácticas da equipa

 

Nuno Ribeiro contou também que, com o passar do tempo, foi perdendo espaço dentro da estrutura e que Quintanilha passou a interferir diretamente na vertente desportiva. “Por exemplo, contratou o Joni Brandão (ciclista que receberia 60 mil euros/ano e que recusou falar sobre as questões do doping, mas que foi condenado igualmente no processo) e nem me questionou para isso."

"Mas também queria cada vez mais assumir as táticas das provas, as reuniões com os ciclistas, a seleção de ciclistas para cada prova. Essas funções deixaram de ser exercidas por mim e tudo porque me insurgi contra o doping junto do Sr. Adriano. E eu ouvia os discursos do Sr. Adriano sobretudo no autocarro (…), todos os que usavam doping, percebiam”.

Segundo o antigo diretor desportivo, o financiamento dessas práticas também partia do empresário. Ribeiro relatou uma alegada reunião em janeiro de 2021, na presença de Hugo Veloso e Adriano Quintanilha, versão negada por ambos, em que este último terá entregue dinheiro com um objetivo claro: “tomem lá, para os gajos ganharem”.

Nuno Ribeiro insistiu ainda que o centro de poder dentro da equipa estava concentrado numa só pessoa. “Tudo passava pelo sr. Adriano”, que gastava milhares de euros em doping (…), no seio da equipa, todos sabiam que havia doping e que o mesmo era financiado” por Adriano Quintanilha.

Também no seu depoimento, procurou afastar a ideia de que seria o líder do esquema e apresentou-se como alguém dependente financeiramente da função que exercia. “O Sr. Adriano era e é o homem do dinheiro, é o homem do poder, dos Ferrari que levava e que adorava dizer que faturava milhões de euros por ano e com isso lá nos ia intimidando a todos."

 

"Fui um carneiro que ia para onde ele me guiava"

 

"Eu era na equipa um mero diretor que recebia o salário que tanto precisava para a minha vida e para os meus filhos. Não me podem acusar neste processo que tudo passava por mim, pois nunca tive como é óbvio dinheiro para pagar o doping e os demais custos inerentes (…). Era e sempre foi o Sr. Adriano que pagava (…) o adubo para a W52 ganhar”.

Num momento mais emotivo das declarações, assumiu arrependimento pelo seu papel no caso. “Fui um carneiro que andei para onde o Sr. Adriano me guiou. Devia ter dito que não e não e não, mas escolhi, por isso sinto-me triste, arrependido e julgado por todos”.

Apesar da colaboração reconhecida em julgamento, o Tribunal de Penafiel considerou provado que Nuno Ribeiro teve intervenção central no esquema. Os juízes sublinharam a ligação direta com ciclistas, a preparação de substâncias e as orientações dadas para evitar deteção nos controlos antidopagem.

Ribeiro foi condenado à mesma pena de Adriano Quintanilha, quatro anos e nove meses de prisão. O caso W52-FC Porto permanece como um dos episódios mais graves da história recente do ciclismo português e um dos maiores abalos de credibilidade da modalidade.

Ficha Técnica

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