Por: José Morais
Pello Bilbao pedala na Vuelta
a España como quem atravessa uma fronteira íntima: cada quilómetro é uma
contagem decrescente para o fim da carreira, cada etapa um lembrete de que esta
é a sua última Grande Volta. O basco, que sempre viveu o ciclismo com intensidade
quase monástica, entra nesta edição com uma mistura de nostalgia, ambição e uma
serenidade rara em quem ainda veste dorsal.
Bilbao admite que não chegou
ao arranque com o motor afinado. A preparação ficou aquém do ideal, e o corpo
ainda procura o ritmo que tantas vezes o levou a brilhar. Mas a motivação,
essa, está intacta. “Quero ajudar a equipa todos os dias e encontrar a minha
oportunidade”, confidenciou antes de mais um dia de competição. Sabe que as
primeiras etapas não são o seu terreno perfeito, e por isso aponta mais longe:
a segunda e a terceira semana, onde espera transformar a despedida numa memória
que dure para sempre.
Enquanto espera pelo momento
certo, Bilbao absorve o ambiente da corrida. Em território francês, sentiu um
calor humano inesperado, bem diferente da frieza habitual de Mónaco. “A
multidão surpreendeu-nos”, admitiu, quase como quem descobre um último prazer
antes de fechar um capítulo.
A aposentadoria, porém, não o
assusta. Pelo contrário: seduz. Depois de anos marcados por treinos, viagens,
metas e uma vida vivida sempre em esforço máximo, Bilbao quer parar.
Literalmente. “A vida corre depressa, o ciclismo corre ainda mais. Vivemos com
stress constante, dedicados a cem por cento”, reflete. O plano é simples: um
ano sabático. Sem pressas, sem calendário, sem metas. Apenas tempo para pensar,
respirar e perceber que projetos ainda o fazem vibrar.
Quando imagina o futuro, não
pensa em números, pódios ou estatísticas. Se um dia tiver de explicar aos netos
o que foi ser ciclista profissional, não falará de vitórias. Falará de paixão.
“Gostei do que fiz, fiz com paixão e tive a sorte de trabalhar no que amava.” É
assim que resume uma carreira inteira: sem adornos, sem épica artificial,
apenas verdade.


