Por: José Morais
A época que prometia marcar o
renascimento da INEOS Grenadiers está a transformar-se numa das fases mais
conturbadas da história recente da equipa britânica. Apesar da entrada da
empresa dinamarquesa Netcompany como co-patrocinadora e do regresso de Dave
Brailsford a um papel de maior influência, os resultados desportivos ficaram
muito aquém das expectativas, desencadeando uma onda de incerteza que ameaça o
futuro do projeto.
Saídas
importantes agravam o cenário
A perda de Filippo Ganna para
a Lidl-Trek tornou-se o símbolo de um mercado de transferências particularmente
difícil para a formação britânica. O italiano decidiu abandonar a equipa antes
do término do contrato, mas não é caso único. Andrew August, considerado uma
das jovens promessas da estrutura, também seguiu outro caminho, enquanto Ben
Turner e Sam Welsford optaram por abandonar um projeto que continua sem
encontrar estabilidade.
Para compensar as baixas, a
INEOS garantiu as chegadas de Clément Champoussin, Harold Tejada, James Shaw,
Joseph Blackmore e Markel Beloki. No entanto, nenhum destes nomes surge como
uma contratação capaz de mudar, por si só, o rumo competitivo da equipa.
Falta um
líder para voltar ao topo
Oscar Onley apresenta-se como
uma das figuras mais promissoras do plantel, mas continua sem oferecer
garantias consistentes para liderar a equipa nas maiores corridas por etapas. A
mesma dúvida paira sobre corredores como Thymen Arensman, Kévin Vauquelin ou
Egan Bernal.
Grande parte da esperança
deposita-se agora em Benjamin Noval, campeão mundial júnior, que dará o salto
diretamente para o WorldTour na próxima temporada. Ainda assim, a evolução de
um jovem talento nunca é uma certeza, aumentando as dúvidas sobre a capacidade
competitiva da equipa a médio prazo.
O caso
Seixas expõe as fragilidades do projeto
Segundo várias informações
vindas dos bastidores do ciclismo internacional, a saída de Ganna poderá estar
relacionada com a intenção da INEOS de libertar margem financeira para tentar
contratar Paul Seixas no futuro.
Contudo, o jovem francês é
atualmente apontado a vários projetos ambiciosos e não existe qualquer garantia
de que veja a equipa britânica como o destino ideal para a sua carreira. A
realidade é que a INEOS já não exerce a mesma atração que tinha nos tempos
dominantes da Sky, quando era vista como o destino mais desejado do pelotão.
Influência
de agentes e patrocinadores gera críticas
Outra questão que levanta
preocupação internamente prende-se com a crescente influência de agentes e
patrocinadores nas decisões desportivas. Algumas das recentes contratações
estão ligadas ao empresário Giuseppe Acquadro, cujo relacionamento próximo com
Dave Brailsford tem sido alvo de comentários no meio velocipédico.
Ao mesmo tempo, os
patrocinadores procuram promover corredores de mercados estratégicos,
nomeadamente França, Dinamarca e Colômbia, criando uma pressão adicional nas
escolhas da equipa e limitando a liberdade do departamento desportivo.
TotalEnergies
pondera abandonar a equipa
Os problemas não se limitam ao
plano competitivo. De acordo com informações divulgadas pela imprensa
internacional, a TotalEnergies estará a avaliar a possibilidade de terminar o
seu envolvimento com a equipa, o que representaria uma perda financeira
superior a 10 milhões de euros.
A situação torna-se ainda mais
delicada porque Jim Ratcliffe não demonstra intenção de aumentar o investimento
pessoal na estrutura. Pelo contrário, o proprietário da INEOS procura reduzir
gradualmente o esforço financeiro, obrigando a equipa a encontrar novas fontes
de financiamento.
Ambiente
interno gera crescente descontentamento
Nos bastidores, vários
elementos da estrutura admitem que a chegada da Netcompany não provocou a
transformação esperada. As críticas apontam para um modelo de gestão altamente
centralizado em Dave Brailsford, onde existe pouca margem para debate ou contestação
das decisões tomadas.
Mesmo a entrada de Geraint
Thomas numa função de ligação entre direção e ciclistas ainda não produziu
mudanças significativas, segundo fontes próximas da equipa.
Muitas
vitórias, pouco impacto
Embora a INEOS tenha somado 36
vitórias ao longo da temporada, os triunfos de maior relevo foram escassos. Os
melhores resultados em grandes voltas resumem-se ao quarto lugar de Thymen
Arensman e ao sexto posto de Oscar Onley na Vuelta, números modestos para uma
equipa habituada a lutar pelas maiores conquistas do ciclismo mundial.
A combinação de resultados
abaixo das expectativas, dificuldades financeiras, possíveis perdas de
patrocinadores e um crescente desconforto interno deixa a INEOS perante uma das
maiores crises da sua história recente, sem que se vislumbre, para já, uma solução
capaz de inverter o rumo dos acontecimentos.


