Por: Miguel Marques
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
Pode visualizar este artigo
em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/a-maior-preocupacao-dos-pais-nao-e-que-lugar-o-filho-vai-chegar-jose-azevedo-pede-sancoes-mais-duras-depois-da-onda-de-atropelamentos-a-ciclistas
O diretor-desportivo da Efapel
Cycling alertou para o aumento preocupante de incidentes envolvendo ciclistas e
veículos nas estradas, depois de Joaquim Silva ter sido ontem atropelado. José
Azevedo considera que a situação começa a atingir níveis alarmantes e defende a
aplicação de sanções mais duras para os condutores responsáveis por este tipo
de acidentes.
"Num espaço de seis dias,
tivemos cinco corredores envolvidos em situações de acidentes com veículos. Mas
não somos só nós [...], isto é algo que tem vindo a ocorrer com alguma
frequência nas estradas, ciclistas atropelados, e eu acho que isto se deve,
essencialmente, a falta de respeito por parte dos condutores", afirmou
José Azevedo, em declarações à agência Lusa, recolhidas pelo Jornal Record.
Uma das principais referências
da equipa portuguesa, Joaquim Silva foi transportado para o Hospital de São
João, onde realizou diversos exames médicos após o incidente.
"Não tem fraturas,
felizmente, mas deixa sempre mazelas. Sei que tem várias feridas no corpo, e é
sempre a parte psicológica também que é afetada", detalhou o
diretor-desportivo.
O ciclista natural de
Penafiel, de 33 anos, foi apenas o mais recente caso numa sequência de
incidentes que têm afetado atletas de vários escalões da formação laranja. O
episódio mais grave ocorreu no Prémio Cidade de Fafe, prova que marcou no
sábado o arranque da temporada nacional de estrada para o escalão júnior.
Nesse dia, dois jovens
corredores, Gonçalo Carvalho e David Luta, foram atropelados durante a corrida.
"Ia um grupo de 15, 20
miúdos e, ali uns 40 segundos atrás, vinham quatro miúdos que descolaram e
vinham a tentar ainda encostar. Vinham em descida, a aproximar-se da meta, e
houve um carro que, quando passaram os primeiros, arrancou. E os miúdos entraram
na curva e bateram de frente", descreveu Azevedo.
Entre os mais afetados esteve
David Luta, que sofreu uma fratura na órbita ocular, tal como João Lazarini, da
Landeiro KTM ACR Roriz. Ambos já receberam alta hospitalar e encontram-se em
casa.
Para o responsável da Efapel,
os episódios recentes evidenciam um problema crescente nas estradas
portuguesas.
"Começa a ser alarmante,
começa a ser preocupante essa falta de respeito, de sensibilidade, de
consciência. Começa a tornar isto bastante perigoso para quem anda de
bicicleta, não é só para os nossos ciclistas da Efapel, nem só para quem é
ciclista profissional ou pratica ciclismo, mas para as pessoas que gostam de
andar de bicicleta", alertou.
Segundo Azevedo, a falta de
respeito estende-se inclusive às indicações das autoridades. No domingo, a
Guarda Nacional Republicana, através da sua Unidade Nacional de Trânsito,
apelou publicamente ao cumprimento das regras de segurança durante as provas de
ciclismo.
"É virem as motos da GNR
dar indicações para o trânsito estar parado, e as pessoas não obedecerem. Em
algumas provas que eu faço com os profissionais, [...] muitas vezes ainda vai a
caravana a passar e alguns carros que deveriam estar parados já estão a
arrancar em sentido contrário", relatou.
Horas antes, em declarações ao
Sobrwatts, Azevedo partilhou a dura realidade de como os próprios familiares
vivem em angústia até verem os filhos cortarem a linha de meta: "Eu começo
a ficar muito preocupado (...), quando estamos na linha de meta, praticamente
todos os pais dos miúdos, a maior preocupação dos pais não é que lugar o filho
vai chegar, estão na ansiedade de ver o filho cortar a meta, porque sabem os
perigos que correm".
A mentalidade das pessoas
também não é a correta e o diretor fez questão de o exemplificar no mesmo
fórum: "Eu fui ver a prova (referindo-se à corrida de juniores) e num
local que havia um cruzamento numa estrada nacional, estava-se a ver os miúdos nessa
reta de 300/400 metros, mais grupos a vir e as pessoas a arrancar. Arrancar a
ver que vinham mais corredores em sentido contrário, havia pessoas a dizer
'Pare que estão a vir aí miúdos', mas não paravam, inclusive um respondeu 'Eu
moro ali à frente'".
Tirou uma conclusão mais
impactante, referindo que, atualmente, há uma grande falta de respeito para com
as autoridades "As pessoas parece que já não respeitam a polícia. Mesmo
que se diga 'Epá até nem gosto de ciclismo, estou aqui a apanhar uma seca de 10
minutos', mas a estrada é para todos", recordou.
Na opinião do antigo ciclista
profissional, as campanhas de sensibilização já não são suficientes para travar
este tipo de comportamentos numa sociedade cada vez mais apressada e distraída,
muitas vezes devido ao uso do telemóvel.
"E quando há este tipo de
acidente, que se consegue ver a falta de respeito à autoridade, ou um ciclista
é atropelado e é notória a falta de cuidado por parte do condutor, eu acho que
aqui as penas têm que ser pesadas. Não é como é agora; pagam 500 euros de multa
e o resto é o seguro que trata", destacou.
José Azevedo defende mesmo
medidas mais severas, como a retirada da carta de condução por períodos
prolongados e a aplicação de coimas mais elevadas, uma posição semelhante à
tomada pela Efapel num comunicado divulgado ontem.
A seu ver, apenas sanções mais
duras poderão levar os condutores a refletir sobre o risco das suas ações e a
respeitar verdadeiramente quem partilha a estrada sobre duas rodas.
ATUALIZAÇÃO
O próprio Joaquim Silva, o
mais recente visado num incidente deste tipo, veio reagir esta tarde, nas redes
sociais: "Bom dia. Antes de mais, obrigado a todos que ontem enviaram
mensagem de apoio e preocupação.
Infelizmente vivemos e lidamos
todos os dias com muitos sustos no trânsito, com muita incompreensão, com muita
irresponsabilidade e com muita agressividade.
Por vezes o sentido de
superioridade do condutor perante o ciclista é tão grande que se esquecem que é
uma vida humana que vai em cima da bicicleta. Um pai, um filho, um marido,
alguém com família, gente que se preocupa e que se encontra à espera deles em
casa.Ninguém é mais que ninguém, quer vá de carro, quer vá de motociclo,
trotinete, a pé, a treinar de bicicleta ou simplesmente a desfrutar da mesma.
Ninguém tem mais direito de ocupar a estrada do que o outro...
O planeta é de todos embora
muitos o queiram destruir.Ontem aconteceu me a mim, mas tem acontecido com cada
vez mais frequência. Nós últimos 6/7 dias só na nossa equipa foram 5 atletas
atropelados. Enquanto não houver mão pesada para os infractores nada vai
mudar.Felizmente, não tenho nada fraturado, mas tenho a chapa e pintura toda
feita num oito.... Resta recuperar e dentro de uns dias penso estar apto para
voltar á estrada.
Obrigado a todos pelas
mensagens de carinho e força.@efapelcycling


