Por: Miguel Marques
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A arrebatadora vitória de
Tadej Pogacar na Milan-Sanremo foi amplamente saudada como uma das prestações
mais extraordinárias da sua carreira. Mas nem todos foram arrastados pela onda
de admiração que se seguiu.
Erwann Mentheour,
ex-profissional que admitiu ter recorrido ao doping durante a carreira, apelou
à prudência na forma como se recebe tamanha dominância, questionando se
prestações deste nível devem passar sem escrutínio.
“No ciclismo, a admiração
nunca deve sobrepor-se ao pensamento crítico”, escreveu Mentheour numa longa
reação publicada após a corrida. “Quanto mais extraordinária parecer uma
prestação, mais deve suscitar perguntas. Sem insultos nem fantasias… apenas perguntas”.
Essa perspetiva coloca os seus
comentários em claro contraste com o tom de grande parte das reações
pós-corrida, em que a atuação de Pogacar foi descrita por toda a Europa como
histórica, espetacular e até sem precedentes.
“O que
estou a ver vai muito além do que experienciei”
O desconforto de Mentheour não
se centra num único momento, mas no padrão mais amplo das prestações de
Pogacar, com o esloveno a demonstrar, mais uma vez, capacidade para moldar um
Monumento de múltiplas formas.
De uma queda antes da
Cipressa, a perseguir para regressar, atacar sem tréguas e ainda vencer ao
sprint na Via Roma, Pogacar apresentou um recital que combinou resiliência,
força e controlo tático.
Para Mentheour, esse nível de
consistência e versatilidade é precisamente o que suscita preocupação.
“Honestamente, estou estupefacto”, escreveu. “Vejo o Pogacar correr, ganhar,
encadear resultados, dominar, recuperar e recomeçar, e não consigo aceitar a
linda história que nos estão a contar”.
E prosseguiu: “Um corredor que
quase nunca quebra, que atravessa as épocas com uma consistência tão
implacável, que parece capaz de fazer tudo, em todo o lado, o tempo todo,
deveria provocar algo mais do que aplausos automáticos”.
O antigo ciclista da La
Francaise des Jeux deixa claro que a sua reação é moldada pela experiência
vivida noutra era do pelotão. “Pessoalmente, não escondo o meu desconforto. O
que estou a ver vai muito além do que conheci, experienciei e compreendi sobre
o desporto de elite”.
O passado
do ciclismo ainda molda o presente
O argumento de Mentheour
assenta na história do ciclismo e na convicção de que os escândalos do passado
devem continuar a informar a leitura das prestações atuais. “O ciclismo tem um
passado demasiado sujo para nos maravilharmos como crianças”, escreveu. “Este
desporto mentiu, enganou, ocultou e destruiu reputações, corpos e gerações
inteiras de corredores.”
Nesse contexto, insiste que
questionar prestações excecionais não deve ser visto como polémico. “Perguntar
se uma dominância tão total é plausível não é escandaloso. É o mínimo dos
mínimos”.
As suas declarações contrastam
fortemente com os elogios esmagadores que se seguiram ao tão aguardado triunfo
de Pogacar na Milão–Sanremo, vitória que finalmente preencheu outra peça em
falta no seu já notável palmarés.
Enquanto muitos se
concentraram no brilho da prestação, a intervenção de Mentheour garante que os
velhos fantasmas continuam a teimar aparecer, mas quando olhamos para o passado
deste sujeito, devemos dar-lhe pouco crédito...


