Por: Miguel Marques
Em parceria com: https://ciclismoatual.com
Pode visualizar este artigo
em: https://ciclismoatual.com/ciclismo/equipa-do-worltour-tentou-roubar-isaac-del-toro-a-uae-emirates-teria-sido-o-maior-contrato-que-alguma-vez-dei-na-historia-desta-equipa
Quando Jonathan Vaughters
admite que a EF Education–EasyPost não foi o licitante mais forte
financeiramente por Ben Healy, não celebra negociação astuta. Reconhece a
fragilidade da posição da equipa num WorldTour cada vez mais moldado pelo
investimento das super‑equipas.
A decisão do irlandês de
prolongar contrato até ao final de 2029 trouxe risco real para a EF. Healy
aproximava-se do último ano de vínculo, vinha de uma afirmação ao mais alto
nível e tornara-se precisamente o tipo de corredor que as equipas mais ricas costumam
atacar quando o trabalho de desenvolvimento está concluído.
“Não fomos a proposta mais
financeiramente lucrativa que ele tinha em cima da mesa”, disse Vaughters em
conversa com a Domestique. “Sendo franco, tivemos sorte com o Ben Healy por ele
ter decidido ficar”.
Essa admissão enquadra a
renovação não como volta de honra, mas como exceção num mercado que raramente
recompensa a lealdade.
Um
corredor que a EF formou, não comprou
Ben Healy não é o protótipo de
recruta júnior de luxo. Chegou à EF em 2022 sem o ruído mediático que acompanha
muitos prodígios modernos, evoluindo antes para um corredor marcado pela
agressividade, resistência e vontade de animar corridas de longe.
Esse perfil traduziu-se em
resultados. Uma vitória de etapa na Volta a Itália validou-o nas Grandes
Voltas, enquanto sucessivos ataques de longo curso nas clássicas das Ardenas e
uma Volta a França em destaque elevaram-no ao patamar superior entre especialistas
de um dia e de fugas. Em 2025, deixou de ser curiosidade ou projeto, para ser
ativo comprovado de World Tour.
Vaughters foi explícito sobre
essa trajetória. “O Ben não era um talento júnior super; ninguém esperava
realmente que chegasse a esse nível, mas temos histórico de levar corredores a
um nível muito alto que ninguém previa”.
É precisamente esse sucesso de
desenvolvimento que agora coloca a EF em risco. As equipas que investem forte
na formação são cada vez mais forçadas a vender o produto final a quem tem
bolsos mais fundos.
O fosso
orçamental que a EF não pode ignorar
A renovação de Healy surgiu
quando a EF admitiu publicamente estar disposta a vender naming rights dos
programas masculino e feminino para fazer crescer o orçamento. A lógica é
simples. Competir por talento já não é apenas detetar ou treinar, é suportar risco
financeiro.
Vaughters ilustrou o
desequilíbrio ao referir a falhada tentativa de contratar Isaac del Toro, que
acabou na UAE Team Emirates - XRG. “Identificámo-lo corretamente e teria sido o
maior contrato de neo-profissional que alguma vez dei na história desta equipa”,
afirmou. “Mas, no fim, penso que a nossa oferta era menos de metade da UAE”.
Para equipas fora do topo
orçamental, essa disparidade é decisiva. A capacidade da UAE para assinar
vários jovens com contratos longos reflete um modelo assente no volume e na
tolerância ao erro. Como resumiu Vaughters, “Com talentos muito jovens, oito em
cada dez não acabam por ser assim tão bons. Mas os dois que resultam podem ser
o teu Del Toro e o teu Pogacar”.
A EF, pelo contrário, não pode
falhar muitas vezes. Cada caso de desenvolvimento bem-sucedido aumenta a
probabilidade de interesse externo, tentativas de rescisão ou pressão
contratual.
Porque a
continuidade de Healy importa, mas muda pouco
A escolha de Healy em ficar dá
à EF estabilidade a curto prazo e uma rara vitória de continuidade. E sublinha
o quão invulgar foi a decisão. “Ele decidiu tomar uma decisão leal e emocional,
em vez de puramente financeira”, sublinhou Vaughters, antes de refrear
expectativas. “Isto não vai acontecer sempre. Na verdade, quase nunca
acontece”.
Esse realismo é importante. O
caso Healy não é um modelo em que a EF possa confiar, nem sinal de que o
sistema se está a corrigir. É um lembrete de que a lealdade é variável, não
estratégia.
Para já, a EF mantém um dos
corredores mais distintivos da sua geração, um atleta que moldou em vez de
comprar. No longo prazo, a entrevista soa menos a celebração e mais a aviso:
sem mudança estrutural ou reforço financeiro, segurar o próximo Ben Healy poderá
ser ainda mais difícil.


