Por: José Morais
O essencial: Remco Evenepoel
transformou o Planalto de Solaison num palco de redenção, vencendo uma etapa
marcada por polémica, tensão e um abandono que abalou o Tour. Jonas Vingegaard,
vítima de uma queda violenta, deixou a corrida e encerrou abruptamente o duelo
que vinha definindo a era moderna do ciclismo. Tadej Pogacar, sem necessidade
de atacar, controlou tudo e abriu caminho para Isaac del Toro subir na geral.
O
despertar que ninguém queria
As primeiras horas do dia
foram um choque para os dois gigantes do Tour. Entre as 02h00 e as 05h00,
agentes antidoping bateram à porta de Pogacar e Vingegaard, interrompendo o
descanso numa das jornadas mais duras da edição.
As equipas UAE Team Emirates e
Visma reagiram com indignação: num Tour decidido ao milímetro, tirar horas de
sono aos líderes é quase mexer no resultado.
A polémica dos “vampiros”
dominou a manhã até ser engolida por algo muito mais grave.
Uma etapa
que virou tempestade
Os 183,9 km entre Champagnole
e o Planalto de Solaison começaram com ataques incessantes. Só depois de muita
luta surgiu uma fuga de 24 ciclistas, com nomes de peso como Carapaz, Pidcock,
Bernal, Rubio e Balderstone.
A UAE deixou a vantagem
crescer, mas sempre com Adam Yates a controlar. A Visma, por sua vez, montou
uma operação de desgaste perfeita: seis homens a trabalhar para Vingegaard,
ritmo infernal e a promessa de um duelo épico na subida final.
Parecia tudo alinhado para o
grande confronto.
O plano
da Visma desmorona
A cerca de 20 km da meta, numa
rotunda, o Tour mudou de rumo.
Vingegaard caiu com violência,
ficou no chão a agarrar o ombro e não voltou a montar a bicicleta. Pouco
depois, era evacuado de ambulância. O pelotão congelou. A Visma, que preparara
a etapa inteira para o ataque decisivo, ficou sem líder.
O Tour perdeu o seu
antagonista principal.
O duelo Pogacar‑Vingegaard terminou ali.
Solaison
decide quem sobe ao pódio
Com Quinn Simmons ainda
isolado na frente, o grupo dos favoritos entrou na subida final 11,3 km a 9%
com a Red Bull a assumir o comando.
Yates voltou ao serviço de
Pogacar e Del Toro.
A UAE tinha um plano:
controlar a etapa e colocar Del Toro no pódio da geral.
Pogacar acelerou a sete
quilómetros do topo, não para atacar, mas para selecionar o grupo. Ayuso cedeu,
Carapaz perdeu contacto, Skjelmose ficou para trás.
Só Evenepoel resistiu.
Evenepoel
muda tudo
Com Vingegaard fora, Evenepoel
percebeu que o Tour acabara de abrir uma porta inesperada. Precisava ganhar
tempo a Seixas e não hesitou em colaborar com Pogacar e Del Toro.
A UAE tentou jogar com a
superioridade numérica, mas o belga não se deixou encurralar.
No último quilómetro, Del Toro
atacou Evenepoel respondeu, fechou o movimento e ainda teve força para vencer a
etapa.
O belga destruiu o plano da
UAE e assinou uma das vitórias mais marcantes da edição.
O que
fica deste dia brutal
Evenepoel vence e reforça a
posição na geral.
Del Toro confirma que é
candidato real ao pódio.
Seixas mantém-se entre os
melhores.
Ayuso volta a fraquejar no
momento decisivo.
Simmons quase concretiza uma
façanha memorável.
Visma sai destroçada e sem
líder.
Pogacar não ganha a etapa, mas
ganha o Tour: controla tudo e todos, e perde o único rival capaz de o ameaçar.
Foi um dia cruel, intenso e
histórico.
Começou com batidas à porta de
madrugada e terminou com Evenepoel a erguer os braços e Vingegaard a abandonar
numa ambulância.
O Tour segue.
O duelo eterno, esse, acabou.

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