Por: Ivan Silva
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O processo de doping que
abalou o ciclismo português continua a revelar novos detalhes sobre o
funcionamento interno da antiga W52-FC Porto, equipa que dominou durante vários
anos o panorama nacional.
Numa investigação da CNN
Portugal, um dos destaques recai sobre Nuno Ribeiro, antigo diretor desportivo
da estrutura, cujo depoimento em tribunal traçou um retrato severo de Adriano
Quintanilha, empresário e principal financiador da equipa.
Adriano
Quintanilha "O ditador"
Perante os juízes, Nuno
Ribeiro descreveu Quintanilha como uma figura dominante dentro da estrutura.
“Conheci o Sr. Adriano nos anos 90, um homem forte, apaixonado, intenso,
prepotente, mas também muito arrogante e cruel no que toca às suas vontades e
desejos. É um homem de negócios até no desporto, gosta de ganhar, o que é de
realçar, mas sendo digno de toda a vontade já deixa de ser quando exige a quem
corre que ganhe contra tudo e contra todos, inclusive contra as suas convicções
e medos”.
No mesmo depoimento, Ribeiro
relatou um ambiente de forte pressão interna e acusou o empresário de recorrer
ao poder financeiro para controlar a equipa. “É um homem que insulta, berra e
dessa forma pensa que persuade e motiva. (…) O Sr. Adriano quando percebe a
dependência das pessoas pelo dinheiro, ele mexe na coação, usa isso a seu
favor. Já alguém disse neste tribunal e agora aqui repito, na W52 – FC Porto
vivia-se uma ditadura na gestão, sendo o ditador o Sr. Adriano. Assumiu uma
equipa que era a minha, a Vintage Podium e fê-lo pela pressão de dinheiro”.
Contrato
de Joni Brandão e as tácticas da equipa
Nuno Ribeiro contou também
que, com o passar do tempo, foi perdendo espaço dentro da estrutura e que
Quintanilha passou a interferir diretamente na vertente desportiva. “Por
exemplo, contratou o Joni Brandão (ciclista que receberia 60 mil euros/ano e
que recusou falar sobre as questões do doping, mas que foi condenado igualmente
no processo) e nem me questionou para isso."
"Mas também queria cada
vez mais assumir as táticas das provas, as reuniões com os ciclistas, a seleção
de ciclistas para cada prova. Essas funções deixaram de ser exercidas por mim e
tudo porque me insurgi contra o doping junto do Sr. Adriano. E eu ouvia os
discursos do Sr. Adriano sobretudo no autocarro (…), todos os que usavam
doping, percebiam”.
Segundo o antigo diretor
desportivo, o financiamento dessas práticas também partia do empresário.
Ribeiro relatou uma alegada reunião em janeiro de 2021, na presença de Hugo
Veloso e Adriano Quintanilha, versão negada por ambos, em que este último terá
entregue dinheiro com um objetivo claro: “tomem lá, para os gajos ganharem”.
Nuno Ribeiro insistiu ainda
que o centro de poder dentro da equipa estava concentrado numa só pessoa. “Tudo
passava pelo sr. Adriano”, que gastava milhares de euros em doping (…), no seio
da equipa, todos sabiam que havia doping e que o mesmo era financiado” por
Adriano Quintanilha.
Também no seu depoimento,
procurou afastar a ideia de que seria o líder do esquema e apresentou-se como
alguém dependente financeiramente da função que exercia. “O Sr. Adriano era e é
o homem do dinheiro, é o homem do poder, dos Ferrari que levava e que adorava
dizer que faturava milhões de euros por ano e com isso lá nos ia intimidando a
todos."
"Fui
um carneiro que ia para onde ele me guiava"
"Eu era na equipa um mero
diretor que recebia o salário que tanto precisava para a minha vida e para os
meus filhos. Não me podem acusar neste processo que tudo passava por mim, pois
nunca tive como é óbvio dinheiro para pagar o doping e os demais custos
inerentes (…). Era e sempre foi o Sr. Adriano que pagava (…) o adubo para a W52
ganhar”.
Num momento mais emotivo das
declarações, assumiu arrependimento pelo seu papel no caso. “Fui um carneiro
que andei para onde o Sr. Adriano me guiou. Devia ter dito que não e não e não,
mas escolhi, por isso sinto-me triste, arrependido e julgado por todos”.
Apesar da colaboração
reconhecida em julgamento, o Tribunal de Penafiel considerou provado que Nuno
Ribeiro teve intervenção central no esquema. Os juízes sublinharam a ligação
direta com ciclistas, a preparação de substâncias e as orientações dadas para
evitar deteção nos controlos antidopagem.
Ribeiro foi condenado à mesma
pena de Adriano Quintanilha, quatro anos e nove meses de prisão. O caso W52-FC
Porto permanece como um dos episódios mais graves da história recente do
ciclismo português e um dos maiores abalos de credibilidade da modalidade.

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