Por: Miguel Marques
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A Trek pagou mais de 300 000
dólares nos últimos anos para colmatar lacunas nos prémios para as suas
ciclistas, intervindo em corridas onde os pagamentos continuam substancialmente
inferiores aos do pelotão masculino.
Entre 2021 e 2025, o
fabricante norte-americano contribuiu com cerca de 308 000 dólares em
complementos para a equipa Lidl-Trek, cobrindo a diferença em provas onde as
recompensas financeiras não igualavam as disponíveis nas corridas masculinas
equivalentes.
Diferenças
nos prémios ainda visíveis em 2026
Essas disparidades continuam
claras em 2026. Na Liege-Bastogne-Liege Feminina, o valor total de prémios
ficou ligeiramente acima dos 22 000 €, contra 50 000 € na corrida masculina
realizada no mesmo dia.
A nível individual, a
diferença é igualmente marcada. Um sexto lugar na corrida feminina rendeu cerca
de 400 € em prémios oficiais, contra aproximadamente 1500 € para a mesma
posição no evento masculino. Nesse cenário, a Trek intervém para cobrir o défice,
acrescentando cerca de 1100 €.
No contexto mais amplo das
Clássicas da Primavera, estes números evidenciam a dimensão do fosso. No
masculino, os principais corredores somaram valores de cinco dígitos no mesmo
bloco de provas, com Tadej Pogacar a aproximar-se dos 100 000 € apenas em prémios
na primavera, e tanto Mathieu van der Poel como Wout van Aert a acumularem
também totais substanciais.
“Ninguém
quer saber”: Burke sobre a origem da abordagem da Trek
Em declarações à Fortune, o
CEO da Trek, John Burke, explicou a lógica por detrás da iniciativa. “Uma das
coisas que fazemos enquanto empresa de bicicletas é tentar fazer a diferença no
mundo”, afirmou.
Recordou também as condições
que encontrou quando a equipa estava a ser montada, após uma visita a corridas
europeias. “Disse: ‘Estive agora na Europa e é embaraçoso. A maioria das
mulheres ganha menos de 10 000 dólares por ano. Andam com bicicletas em segunda
mão. Ficam em hotéis manhosos. Voam na véspera da corrida. Ninguém quer
saber’”.
Construir
uma equipa em pé de igualdade
Desde o início, a Trek quis
oferecer às ciclistas um apoio comparável ao dos homens. “Dissemos que íamos
tratar as mulheres da mesma forma que os homens são tratados”, afirmou Burke.
“Vamos pagar salários dignos, dar o melhor equipamento, garantir grande treino.
Vamos cuidar delas tão bem como cuidamos dos homens”.
Lizzie Deignan, que se juntou
à equipa estando grávida apesar de ser então número um do mundo, destacou o
impacto dessa abordagem. “Ser profissional em todos os sentidos é transformador
em termos de rendimento”, destacou. “Não há maneira de alguém que acumula todas
as tarefas extra de um segundo emprego conseguir render ao nível de quem está a
tempo inteiro”.
Acrescentou: “Senti-me
incrivelmente grata à Trek pela oportunidade de integrar a equipa, porque
quando anunciei que estava grávida, não sabia qual seria o meu futuro na
modalidade. Apesar de ser número um do mundo na altura, não tinha uma equipa
segura”.
Um fosso
que continua a moldar a modalidade
Apesar dos progressos dos
últimos anos, o fosso financeiro entre provas comparáveis continua evidente. O
total de prémios mantêm diferenças significativas entre eventos masculinos e
femininos, deixando a equipas e patrocinadores parte do esforço para colmatar a
distância.
“A coisa mais importante que
fazemos é dar o exemplo”, disse Burke. “O impacto da Trek no ciclismo feminino
não é só a equipa Trek. São todas as equipas que viram o que a Trek estava a
fazer e implementaram grandes mudanças”.
“Demasiada gente está focada
no curto prazo e no que recebe”, acrescentou. “Fazer o bem constrói uma marca
ao longo de muito tempo”.
Os números das Clássicas da
Primavera mostram que houve evolução, mas também que o fosso que a Trek se
propôs enfrentar ainda não foi fechado.

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