Por: Miguel Marques
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A segunda edição da renascida
Milan-Sanremo Feminina foi fértil em histórias. Enquanto Lotte Kopecky roubou
as atenções com uma vitória épica em Sanremo, mostrando claramente que está de
volta ao melhor nível após uma época abaixo do esperado, a queda massiva na
descida da Cipressa provocou ainda mais emoção entre as ciclistas e os adeptos.
A líder da corrida nesse
momento - Kasia Niewiadoma - acabara de atacar no topo da Cipressa e atirou-se
à descida técnica, mas calculou mal uma das curvas e embateu com força no rail.
O mais perigoso foi o local do impacto não ser visível para quem vinha atrás
até já dentro da curva, causando um engavetamento que apanhou outras favoritas,
incluindo Kim Le Court, que bateram no chão (e em Niewiadoma). Duas ciclistas
chegaram a ser projetadas por cima do rail e Debora Silvestri sofreu lesões
graves.
Grace Brown, de 33 anos,
retirou-se do pelotão profissional no final de 2024, o que significa que nunca
chegou a correr La Primavera.
Num podcast da SBS Sports, a
australiana analisa porque é que incidentes destes continuam a acontecer:
“Parece que quanto mais nos concentramos na segurança em corrida, piores se
tornam as quedas. Já vimos algumas muito feias este ano, mas aquele engavetamento
na descida da Cipressa durante a Milão–Sanremo feminina fez-me soltar um
grito”.
Mas ver a montanha de quedas
na Cipressa não desperta na antiga campeã do mundo e olímpica de contrarrelógio
qualquer vontade súbita de regressar só para correr em Sanremo. Bem pelo
contrário.
“Honestamente, a primeira
coisa que me passa pela cabeça quando vejo imagens destas é ‘ainda bem que já
não corro e que saí disto inteira’”.
À procura de uma causa, Brown
admite que, acima de tudo, foi um erro da própria Niewiadoma. Embora qualquer
uma pudesse ter caído naquela curva. “A Kasia liderava a descida da Cipressa
quando arriscou um pouco demais e perdeu o controlo da bicicleta. Por ser uma
curva cega, inúmeras ciclistas atrás não tiveram tempo para travar nem espaço
para escapar”.
Há uma
quantidade incrível de quedas
Apesar do consenso entre os
agentes do ciclismo para melhorar a segurança, a modalidade está cada vez mais
frenética e os relatórios de lesões por quedas em corrida não param de
aumentar. Brown questiona como é isso possível…
“No âmbito da iniciativa
SafeR, a UCI tem revisto dados de lesões desde 2014, que mostram quase um
aumento de 400% nas lesões de ciclistas ao mais alto nível em 12 anos”.
“Então porque é que as quedas
estão a piorar? Penso que a resposta tem menos a ver com regulamentos e mais
com o que está em jogo. Há mais dinheiro no ciclismo agora; em prémios e
contratos, mas a maior mudança é a visibilidade. As corridas nunca foram tão
vistas e as ciclistas sabem-no. Se a raiz for em parte psicológica, correr para
as câmaras, perseguir contratos, justificar o risco porque a recompensa nunca
pareceu tão grande, então nenhum livro de regras vai resolver o problema
sozinho”, aponta.
“O ciclismo tem de ser honesto
sobre o que pede às ciclistas, e as ciclistas têm de ser honestas consigo
próprias sobre porque assumem os riscos que assumem.”
Talvez, por vezes, seja melhor
recuar um passo e ganhar outra perspetiva para perceber os riscos que se
correm. “Foi algo com que sempre lutei ao longo da carreira, e foi preciso
afastar-me do desporto para o ver com mais clareza”, conclui.

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