Por: Miguel Marques
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Danilo Di Luca, vencedor da
Volta a Itália e da Liege-Bastogne-Liege em 2007, voltou a falar abertamente
sobre a carreira, o ciclismo moderno e a suspensão vitalícia por doping. Numa
entrevista ao jornal espanhol AS, o antigo corredor italiano foi frontal,
incisivo e sem intenção de reescrever o passado.
Com 49 anos, vive em Pescara e
trabalha no segmento de bicicletas de alto padrão. Continua, porém, a seguir o
ciclismo com a mesma intensidade dos tempos de competição, apesar do peso de
estar banido para sempre da modalidade que o tornou célebre.
“Liège
foi a corrida mais bonita da minha carreira”
Apesar de ter conquistado a
Volta a Itália em 2007, Di Luca admite que o triunfo na Liege-Bastogne-Liege,
no mesmo ano, ocupa um lugar especial.
“As minhas memórias estão
intactas. Foi, sem dúvida, a corrida mais bonita que venci nos meus anos de
profissional”.
O italiano explicou que
precisou de nove anos até finalmente vencer a Clássica belga depois de a
disputar pela primeira vez como profissional. “Quando a corri pela primeira
vez, disse logo a mim próprio: mais cedo ou mais tarde tenho de ganhar isto”.
Em 2004, esteve perto, mas um
problema físico impediu-o até de partir.
“Nesse ano fui quarto na
Amstel Gold Race, terceiro na La Flèche Wallone, e acreditava que podia ganhar
Liège. Mas na noite anterior tive um problema de próstata e não corri”.
Quando finalmente triunfou,
sentiu que fechara um ciclo inacabado. “Era a pedra que faltava para construir
a casa”.
Volta a
Itália? “A emoção da Liège foi maior”
Mesmo tendo vencido a maior
corrida italiana, Di Luca coloca o Monumento das Ardenas acima do Giro em
termos emocionais.
“Para um italiano, o Giro é
tudo. A corrida mais importante do mundo. Mas escolho Liège porque todas as
emoções se concentram num só dia”.
Sobre a primeira Grande Volta
do ano, disse que já sabia que a vitória estava ao alcance antes do final.
“No meu caso, soube muito
antes que ia ganhar. Já o sentia nos dias que antecederam a chegada a Milão”.
Vencer
Pogacar? “Neste momento é impossível”
Questionado sobre jovens
talentos capazes de desafiar Tadej Pogacar, Di Luca foi direto ao falar de Paul
Seixas.
“Por agora, não. Talvez possa
ser segundo quando Pogacar estiver presente. Ganhar quando o Tadej não corre,
sim”.
Depois sublinhou o nível atual
da estrela eslovena. “Bater o esloveno neste momento é impossível. Talvez
quando começar o seu declínio, dentro de alguns anos”.
“Os
ciclistas de hoje são robots”
Um dos momentos mais fortes da
entrevista surgiu quando comparou o ciclismo moderno com a sua era. Para Di
Luca, o desporto perdeu espontaneidade e humanidade. “Os ciclistas de hoje são
robots”.
No seu entender, tudo gira em
torno de números, dados e controlo total. “O que interessa agora são os
valores: watts, quilómetros, quanto comeram durante a corrida…”
Em contraste, descreveu o
pelotão do seu tempo como mais imprevisível. “Éramos mais humanos. Olhávamos
mais para os rivais do que para os números. Era mais bonito para os adeptos.
Havia ataques a cem quilómetros da meta, havia improvisação”.
Acredita também que hoje é
mais fácil antecipar os vencedores. “Se o Pogacar está lá, ganha”.
Itália e
Espanha ficaram para trás
Di Luca manifestou ainda
preocupação com o declínio do ciclismo em países historicamente dominantes,
como Itália e Espanha.
“Há muito pouco com que
trabalhar. Tudo mudou. Não há competitividade”.
Segundo o italiano, a raiz do
problema está na formação. “Tudo começa na base, com a federação.”
Deixou depois uma frase
marcante sobre a realidade no seu país. “Se uma criança diz ao pai que quer
começar a andar de bicicleta, o pai diz que não”.
Para Di Luca, o ciclismo vive
hoje sobretudo na Bélgica. “Estive na Volta à Flandres e continua tudo igual: o
público, a paixão, a aura. Em Itália tudo mudou”.
“Sem
doping teria ganho muito mais”
Uma das declarações mais
controversas surgiu quando voltou a uma opinião que já expressara: acredita que
teria alcançado ainda mais sem recorrer ao doping.
“Sem doping, o campeão brilha
ainda mais. Com doping tudo fica mais plano, mais equilibrado”.
No seu entender, as
substâncias proibidas reduziram o fosso natural entre o talento de elite e os
corredores comuns. “Sem isso, a diferença entre um campeão e um corredor normal
é muito maior”.
Di Luca foi suspenso várias
vezes por infrações de doping e foi banido para sempre em 2013. Continua a
considerar a punição excessiva. “Passados treze anos, continuo sem entender a
suspensão vitalícia”.
Prosseguiu. “Na vida todos
cometemos erros. Depois chega. Não matei ninguém. Trabalho, tenho família… O
resto é desproporcionado. Sou uma boa pessoa”.
“Sinto-me
um artista”
No final da entrevista,
refletiu sobre a sua personalidade e a forma como canalizou raiva e frustração
ao longo da carreira.
“Sim, exatamente. De certa
maneira, sinto-me um artista”.
Uma frase que resume a figura
contraditória que Danilo Di Luca continua a ser: talentoso, controverso, punido
e incapaz de falar com neutralidade sobre o desporto que o tornou famoso.

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